A Formação da Polis Grega

“Finalmente estamos no último sábado de setembro e espero que todo esse trabalho esteja realmente servido para ajudar cada um de vocês.

Semana passada falamos (exaustivamente) sobre a formação da Grécia Antiga.
Quase morrendo de cansaço, pudemos fazer um percurso de muitos séculos até o que chamamos de Idade das Trevas da cultura grega.
Se não me engano, a última coisa que vimos foi o modo como as tribos que compunham a civilização Micênica, bem como os Dórios recém chegados, foram se espalhando e dando ao que chamamos de Grécia Antiga a configuração que teria ao surgir e se desenvolver a filosofia.

Bem, penso que daqui podemos seguir com mais um pouco de história para tentarmos explicar como foi o surgimento da grande estrutura política da Grécia Antiga que vai ser tão citada em tantas obras de filosofia, isto é, a Polis grega.

Antes de mais nada já adianto que os termos “cidade” ou “estado” sequer chegando perto de definir o que seria uma Polis, mas vamos com calma.

Estamos no século XI a.C., as grandes cidades da Civilização Micênica estão todas destruídas e a organização política de outrora não existe mais.
Como então vão passar a se organizar os grupos de pessoas restantes?
Certamente seria um grande equívoco nosso achar que durante esse tempo era tudo uma total anarquia.

Na verdade, podemos falar com segurança de uma certa organização social, ainda que muito simples.
Ora, essa turma que passou a ocupar o Peloponeso estava apenas atrás de terras.
Uma vez que as conseguiam, passavam a se agrupar em pequenos grupos familiares (οἶκος-óikos) que mais tarde, por motivo de sobrevivência, foram se agrupando e formando clãs (γένος/guénos).
Esses clãs eram como a união de várias famílias em torno de um líder chamado de Basileus (Βασιλεύς), termo que normalmente é traduzido por rei, porem passando um impressão errônea de que era uma posição estável e muito superior, e de maneira nenhuma podemos achar isso.
De fato, esse líder só conquista essa posição por ser ser útil em prover algumas necessidades daquela coletividade.
Ainda que esse líder fosse capaz de viver um pouco melhor que a maioria dos membros, ele possuía como que uma obrigação moral de ajudar os necessitados do clã.
Assim, para evitar os erros inerentes em chamar essa figura de rei, vamos simplesmente nos referir a ele como o Patriarca do clã.

Esse Patriarca exercia as funções de juiz, administrador, chefe militar e líder religioso. E na medida em que alguém é próximo do Patriarca se pode definir sua posição social dentro do clã.
Com isso vemos que claramente podemos falar de um hierarquia social, porem algo nos chama muito a atenção nesse período, a noção da terra como um propriedade do clã, isto é, como algo quase coletivo.

Não quero dizer, todavia, que não exista nenhum tipo de propriedade privada, pois isso seria um grande equívoco. Temos, porem, que ter em mente que nesse contexto ainda não há necessidade disso, afinal, estamos falando de uma economia agrícola limitada à manutenção da vida do clã e de bens de consumo extremamente primários.
Assim, de certa forma, podemos dizer que nesse momento tudo é do clã e para o clã.

Não falamos apenas de um grupo que viviam assim, mas de vários, de maneira que, com o passar do tempo, vão começando a surgir atritos.
Com isso muitos clãs vão se unir e criar alianças formando Fraternidades e, mais tarde, Tribos para entrar em guerra com outras alianças.
Uma vez que isso acontece, a organização política e social acaba tendo que passar por algumas mudanças.

Em primeiro lugar é preciso que alguém seja o líder da Tribo recém formada, e certamente nenhum dos Patriarcas quer se submeter a outro líder que não ele.
Dessa forma, nasce o que chamamos de Conselho dos Patriarcas que, obviamente, deve ser presidido por algum deles. Esse presidente, todavia, não ocupa um cargo de poder sobre os demais, mas é um igual entre iguais.
Aquelas funções que antes estavam todas centralizadas no Patriarca passam a ser divididas entre os membros do conselho e as decisões mais importantes devem passar por votações.

Outro ponto importante, é que agora não falamos mais de um pequeno clã com dezenas de pessoas, mas de um Tribo composta de várias famílias.
Além disso, uma vez que alguns clãs se uniram e outros foram dominados, a extensão de terras é bem maior, de maneira que  não é mais possível pensar em uma coletividade de terras, ou seja, há agora a necessidade de uma divisão de terras.

Como já se pode imaginas, os patriarcas e seus familiares próximos ficaram com as maiores partes de terra, bem como com as melhores.
Alguns dados nos mostram que de fato podemos falar de uma certa concentração de riquezas ao longo dos séculos IX e VIII a.C.
Assim, surge então uma elite econômica que, justamente por concentrar riquezas, acabava sendo também a elite política.

Apesar disso, entretanto, a explicação que se dava para ele serem os líderes não era essa, mas sim o fato de eles mesmos serem pessoas superiores, descendentes do grandes heróis da mitologia, possuidores de algo que ninguém mais tinha, a areté (ἀρετή).
Essa palavra grega significa algo como “virtude”, mas não no sentido Platônico ou Aristotélico.
Essa virtude, na verdade, seria simplesmente a habilidade para a guerra e para a diplomacia.
Basicamente, além de serem ricos, essa turma também era capaz de assegurar alianças exteriores e proteção das guerras.
Esse homens superiores, possuidores da areté, passaram a ser chamar de aristoi (ἄριστοι), uma palavra que pode ser traduzida como “os melhores”.

Sim, pode até parecer piada, mas essa galera passou a se intitular de “os melhores”

Esses aristoi vão formar a classe dos Aristocratas, palavra que deve ser bem entendida e visualizada como esses caras que são (ricos e) possuidores da areté, de modo que não devemos confundir aristocratas com aquilo que significaria em períododes muito posteriores.

Se antes os Patriarcas não possuíam muita estabilidade de seus cargos, com os Aristocratas é muito diferente.
Quero dizer, o papel que eles passam a cumprir não é mais uma coisa que qualquer possa fazer, mas algo extremamente difícil que pede habilidade que devem ser forjadas mediante uma super educação.
Para alguém ser um Aristocrata, faz-se necessária toda uma preparação na arte da guerra e da diplomacia desde a mais tenra idade. Para isso,todavia, é preciso uma situação econômica que permitisse tão refinada educação.
De fato, os Aristocratas possuíam habilidades que ninguém mais possuía, porem fruto de uma educação mais que privilegiada que recebiam desde criança.

E aqui mais uma vez vamos precisar fazer um adendo… 

Quando eu falo de educação privilegiada, estou falando de privilégios realmente determinantes, sem os quais ninguém poderia chegar nem perto de ser o que era um aristocrata. Não tem nada a ver com o que hoje em dia se diz (ou se pensa) que são privilégios que determinam toda uma vida.
E por mais desagradável que seja ter que fazer essa distinção, é bom evitar interpretações equivocas e anacrônicas…

Enfim… 

Essa organização politica e social, todavia, não será definitiva, pois com o passar do tempo vão surgir tensões e necessidades que a estrutura de Tribos não será capaz de atender, e com isso teremos o surgimento das Polis.

[E aqui a gente faz mais uma breve pausa para algumas considerações…]
Se vocês notarem, diferente do último texto, nesse post eu nem cheguei perto de dar tantas datas quanto eu dei no último post.

Isso não é por acaso.
De fato, falar dos acontecimentos entre os séculos XI e VIII a.C. na Península Balcânica é algo muito difícil se pensarmos que não há uma escrita na qual os povos de então pudessem nos deixar algum dado. 
Chega a ser irônico que falemos com segurança de acontecimento de 3 milênios antes de Cristo, mas não consigamos precisar os eventos de um período tão mais próximo e tão menor. 
Isso é pra vocês verem a falta que faz para um povo a capacidade de escrever.
[Mas não é disso que eu quero falar…]

Falar do surgimento da Polis, todavia, é algo muito complicado, afinal não temos muitos dados que nos digam com exatidão quando isso aconteceu.
A arqueologia, no entanto, nos apresenta dados interessantes sobre o século VIII a.C. que revelam alguns fatores que se postula terem sido de fundamental importância para a passagem de Tribos para Polis.

Primeiramente, podemos falar de mudanças na agricultura que indicam certamente um grande crescimento populacional. Corroborando isso, temos também o aumento no número de lápides que parecem dizer a mesma coisa, afinal, para alguém morrer tem que antes ter vivido (ou assim se espera).
Bom, esse aumento populacional vai gerar mudanças econômicas e políticas muito fortes.
Temos que ter em mento que uma área rural não pode simplesmente ser super populosa, pois grande parte de suas terras está reservada para o cultivo e não para a habitação.
Com isso, podemos falar de movimentos migratórios de colonização, mas também de pessoas que pretendendo permanecer onde estão acabam “pedindo” mudanças no modo de produção que deve de alguma forma atender às maiores demandas que surgem com uma maior quantidade de gente.
Uma vez que essas demandas não fossem atendidas não se precisa pensar muito para imaginar o que aconteceria: um grande aumento da miséria e o surgimento daquelas tensões políticas e sociais que a estrutura de Tribos não seria capaz de resolver.

Outro fator importante para o surgimento da polis foram os aparecimentos de locais de culto, que no início do século VIII a.C. já eram mais que meras cabanas e no final do mesmo século já se pareciam com verdadeiros templos.
Essa identificação religiosa foi um grande fator de unificação e os festivais e atos de cultos eram as formas mais eficientes de reunir pessoas.
O entorno desses templos passou a ser também um lugar de florescimento comercial de manufaturados.
É importante termos em mente esse fator religioso para não pensarmos que a formação da Polis não passou de uma série de consequências políticas em uma estrutural tribal de opressão dos ricos sobre os pobres e etc (penso que o resto do discurso vocês conhecem bem).
Na verdade, antes de falarmos da Polis como uma estrutura política ou uma determinada cidade, falamos de uma união de pessoas que se identificam espiritual e religiosamente como iguais.
Um grande poeta da antiga Grécia falando sobre a Polis diz que ela não é feita de pedra e madeira, mas de homens que, procurando manter uns aos outros a salvo, são as verdadeiras muralhas e a verdadeira Polis.

Enfim, essa identidade religiosa e cultural, bem como as tensões políticas de então, vão ser fatores muito importantes para tentarmos entender o processo que leva desde uma Tribo até uma Polis.
Não podemos, todavia, achar que isso ocorreu da mesma forma com todas as Polis gregas, até porque, a partir do século VII. a.C., já existe escrita, de modo que os dados que temos são muito mais ricos em detalhes e informações.

De modo geral, podemos dizer que a forma de resolver as grandes tensões políticas, bem como de atenuar os problemas sociais (ainda que não os fizesse sumir) foi o surgimento de uma forma de governo chamada de democracia (que não significa a mesma coisa que entendemos hoje), isto é, o governo do povo (demos).
Apesar disso, o modo como a democracia foi se instituindo em cada Polis grega foi algo totalmente único para cada uma, de modo que para seguir aprofundando nos dados históricos teríamos que falar de cada uma das tantas Polis gregas que alcançou a organização democrática.
Como isso não é tanto do nosso interesse (apesar de que quando falarmos de Sócrates vamos ter que falar também um pouco da cidade de Atenas) ficaremos por aqui no que diz respeito a História da Grécia.

Por último, e já terminando, gostaria de apresentar pra vocês alguns valores interessantes dessa nova configuração política e social.

Antes de mais nada, lembremos que para o grego antigo a Polis não era algo distinto do cidadão, mas sim a união de todos eles.
Ora, a partir disso podemos citar a magnifica definição de Polis do historiador americano Chester Starr:

“A polis é mais como um ‘estado’ marcado por regras de procedimento e uma estrutura pela qual os cidadão (independente de como se os define) podem estabelecer e administrar essas regras” (Individual and Community)

Ora, essa definição nos permite olhar para a Polis como justamente um lugar donde existem sim regras e procedimentos de conduta, mas que são administrados e estabelecidos pelos próprios cidadãos e não por uma classe de burocratas.
O modo de estabelecer essas regras e procedimentos seria o voto e, por consequência, o debate fazia parte dessa forma de fazer política. Isso, além de tudo, parece vir desde o tempo em que os Aristocratas eram preparados na arte da diplomacia (e por que não também retórica) para saberem se portar e convencer os demais nos conselhos de Patriarcas.
Esse espírito decidir as coisas mediante argumentos racionalmente fundamentados foi de extrema importância para o desenvolvimento da filosofia.

Outro detalhe importante ao qual devemos estar atentos é o fato de que o processo de democratização das Polis gregas, de onde se saia da estrutura aristocrática onde um elite comandava tudo para uma situação na qual cada um poderia contribuir a sua maneira para as decisões da comunidade, acabou criando no homem grego um senso de pertença ao grupo muito forte.
Não existe aqui antíteses entre o indivíduo e a Polis, o cidadão grego se entende como essencialmente parte da Polis. Seguir as leis não é para o homem grego algo que o violenta, pois ele se sente totalmente livre na medida em que é cidadão.
Além disso, essa liberdade se estende ao campo religioso.
Enquanto os orientais prestavam uma obediência quase cega ao poder religioso (tal como também faziam ao poder político), na Grécia antiga se desfrutava de uma tremenda liberdade religiosa, sobre isso, todavia, vamos falar noutra hora.

Enfim, falar de uma Polis grega é falar de uma situação onde as grandes decisões são tomadas mediante debates e argumentos fundamentados racionalmente; e também onde há uma grande liberdade de expressão (e dessa forma também de pensamento) para cada indivíduo.
Tais fatores, me parecem, são de vital importância para entender o surgimento da filosofia justamente aqui e não em outro lugar.”

Texto de José Guilherme Carvalho de Souza, Bacharel em Filosofia pela Puc-RJ.

Deixo ainda um desenho que encontrei na internet que mostra um pouco como era uma Polis grega. Num outro momento, talvez, eu venha a explicar mais a fundo como se estruturava em geral a maioria das Polis gregas.
Polis Grega

Caso você tenha alguma dúvida, crítica, pedido ou sugestão, entre em contato pelo email areafilosofica@gmail.com
Na medida do possível vou tentar responder a cada um.
Até semana que vem e estudem com moderação!!!

Bibliografia:
-CHESTER, G. Starr. Individual and Community. New York: Oxford University Press, 1986.
-MCKIRAHAN, Richard. A filosofia antes de Sócrates: uma introdução com textos e comentários. São Paulo: Paulus, 2013
-REALE, Giovanni. Pré-Socráticos e Orfismo: historia da filosofia grega e romana. São Paulo: Edições Loyola, v. I, 1993

Imagem:
-http://www.ilustrared.cl/v3/index.php/@tripio/galeria/1072.historia-y-sociedad/detalle/16914.antigua-polis-griega

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A Formação da Grécia Antiga

“Muito bem minha gente!!!
Acabamos aquela pequena introdução ao nosso estudo!!!
Já abemos muito de filosofia!!!
Vamos finalmente começar a estudar os primeiro filósofos!!!

[Sinto dizer, mas ainda não!]
Na verdade, ainda faltam alguns posts antes de entrarmos na História da Filosofia propriamente dita.
Hoje vamos então começar uma série de 2 ou 3 posts (prometo que não mais que isso) que nos ajudarão a entrar um pouco no contexto histórico e cultural que serve de plano de fundo para o surgimento da filosofia na Grécia Antiga.
Nesse primeiro post falaremos sobre a formação da Grécia Antiga e espero que mais tarde vocês entendam a importância disso…

Primeiro de tudo temos que levar em conta que a extensão da Grécia Antiga não se limita ao país que conhecemos hoje como Grécia. Algumas de suas principais regiões eram:
-Asia Menor
-Península Balcânica (Grécia Continental)
-Sul da Itália
-Ilhas do Mar Egeu
Se formos olhar hoje para a região que pertencia à Grécia Antiga, veremos o seguinte:

O que é hoje o que foi a Grécia Antiga?

˜

Outro ponto importante é que, apesar de falarmos de uma Grécia Antiga, não se trata de uma “nação” unificada, pois cada cidade dessa região possuía total autonomia em matéria de leis, forças militares, economia etc.
Em realidade, o que dá alguma unidade a todas essas cidades,  além do fato de falarem a mesma língua e possuírem a mesma cultura, é a questão da organização política que garantia que cada grego fosse um cidadão em vez de um “bárbaro”.
Sobre isso falaremos um pouco mais no tempo certo…
Vejamos então como foi  processo necessário para se chegar a essa forma organizacional.
[Respirem fundo e vamos lá…]

Desde o período neolítico (que vai mais ou menos até 10.000 até 3000 a.C.), há notícias de da presença do homem na Península Balcânica. Podemos chamar esse grupo de pelasgos, mas não dizer que sejam um povo constituído. Se trata de um termo que vai ser utilizado para praticamente qualquer grupo de habitantes autóctones (mais ou menos como indígenas) que habitavam essa região antes das primeiras civilizações.
[Agora você já pode contar pros seus amigos que existiam índios na Grécia…]
Não é, contudo, dessa turma que eu quero falar agora, mas de um pessoal que vivia numa ilha próxima, a Ilha de Creta.
São a chamada Civilização Minoica.

Sabemos há rastros da passagem de seres humanos por Creta em 128.000 a.C., mas evidências mais seguras de um homem anatomicamente moderno habitando ali só encontraremos por volta de 10.000 a.C. (talvez 12.000 a.C.).
Pesquisas arqueológicas nos dizem que em 7.000 a.C. já podemos falar de comunidades agrícolas, porem só em 5.000 a.C. é possível constatar uma agricultura avançada e somente a partir desse momento podemos falar de fato de uma civilização.
A Era do Bronze na Europa se inicia em 3.200 a.C, mas parece que só chega em Creta a partir de 2.700 a.C.
A partir desse momento vemos o florescimento da civilização Minoica que terá seu apogeu em 1.800 a.C.
Ela passou a dominar as rotas marítimas e comerciais do Mediterrâneo e já era uma cidade letrada. Fala-se também de uma elite que assessorava ao rei e uma organização burocrática altamente sofisticada.
Enquanto isso, no continente…

Mais ou menos em 2.000 a.C., povos indo-europeus começaram a migrar para a Península Balcânica a procura de terras e recursos, de modo que enfrentaram e dominaram os pelasgos.
Uma vez se consolidando neste território, esses povos começaram a fundar núcleos populacionais e aos poucos foram tendo relações e sofrendo influências da Civilização Minoica.
Por volta de 1600 a.C. vemos o levantar-se da chamada Civilização Micênica na Península Balcânica. A influência dos minoicos foi tão grande que podemos dizer que Micenas, a grande cidade da Civilização Micênica, era como que uma Creta continental.

Antes de seguirmos

Se com os pelasgos e os minoicos falávamos de povos pré-helênicos, isto é, anterior aos gregos, com a civilização Micênica já podemos falar de povos gregos.
Isso entretanto, nos pede algumas explicações a mais…
Muitos grupos formavam a chamada Civilização Micênica, porem muita vezes são todos confundidos com uma tribo só, os Aqueus.
Isso acontece por conta de uma obra de Homero chamada Ilíada. Essa obra pretende narrar a historia de uma grande batalha entre os povos gregos e os troianos que teria acontecido por volta de 1.200 a.C.
Nessa obra, Homero apresenta os Aqueus como os opositores aos troianos, de maneira que cria uma identificação entre grego e Aqueu.
Com isso, entramos numa discussão delicadíssima sobre a qual se tem poucas conclusões entre os especialistas, isto é, a identidade do povo grego.
Falar de um um povo é grego é algo muito difícil tendo em vista que a unidade da Grécia se dá somente pela mesma organização democrática, pela cultura e pela língua.
Sendo assim, não podemos pensar nos gregos como apenas um bloco monolítico do pessoas, mas sim como um encontro de várias tribos diferentes.
Podemos  falar de 4 grandes tribos (o melhor talvez seria dialetos, mas enfim…) que vão compor o povo grego: os Aqueus, os Eólicos, os Jónicos e os Dórios.
O problema é que se fala dessas tribos tal como estavam constituídas no período clássicos (500 e 400 a.C.), de modo que não podemos afirmar com muita certeza o que se passava em 1.600 a.C.
Sendo assim, o mais importante para fixarmos agora é: com a Civilização Micênica, independente de que junção de tribos fosse, já podemos falar de um povo grego.

Enfim, continuemos… 

Em 1.450 a.C., a Civilização Minoica experimenta uma catástrofe natural (da qual não podemos dizer com certeza do que se tratou) que destrói importantes localidades da ilha e a enfraquece muito. Com isso, Micênas percebe a possibilidade de conquistar Creta e se estabelecer como a maior potência da região.
A partir disso, a Civilização Micênica é capaz de instaurar uma uniformidade cultural ao longo de toda a região que chamamos de Grécia Antiga, só que sua hegemonia não vai durar muito.
A partir de 1.200 a.C. começam a ser destruídas uma serie de cidades da Civilização Micênica e não existem dados suficientes que nos dêem a causa exata disso.
Ainda que existam muitas possibilidades, o que parece mais provável é a chegada de uma tribo do norte que, por já estar na Idade do Ferro, possuía maior poder bélico que a Civilização Micênica.
Essa tribo é aquela que posteriormente será conhecida como Dórios, devido ao idioma que possuíam.
Aos poucos, os Dórios foram avançando ao longo da Península Balcânica até irem dominando o que teria sobrada da civilização Micênica.

Tudo o que vai volta!!!

Só que aqui que a coisa complica, pois os Dórios, diferente dos micênicos, se preocupavam apenas com conseguir terras, de modo que a cultura e a escrita micênica herdada dos minóicos foi totalmente perdida.
Essa perda da cultura e escrita micênica é o que chamamos de Idade das Trevas da cultura grega.
Esse período vai de mais ou menos 1.100 a.C. até 800 a.C.

É a partir da chegada dos Dórios que vai acontecendo o que chamamos de primeira diáspora grega, isto é, as migrações dos povos gregos para outros lugares que não a Península Balcânica.
Como serão então as migrações:

a) Os Dórios vão se estabelecendo ao longo da Península Balcânica e dominam grande parte do Peloponeso (parte sul da península), a Ilha de Creta e mais algumas regiões.

b) Alguns grupos que habitavam uma região chamada Argólida (ou Argolis), vão sendo forçados a migrar para a região mais ao norte do Peloponeso e acabam expulsando os que ali viviam. Uma vez consolidados, passam a chamar essa região de Acaia (ou Achea) e serão posteriormente conhecidos como Aqueus (não se trata aqui de Aqueus tal como Homero falava).
Ah sim, também se fala de Aqueus que, mais tarde, migrariam ao sul da Italia.

c) Esse povo que os aqueus expulsaram começarão a migrar para a região da Ática e se misturarão com alguns povos menores que lá já estavam, mais tarde também irão fazer colônias na costa da Ásia Menor e passarão a ser conhecidos como Jónicos.

d) Por último, temos o povo da cidade de Tessália que aparece ser uma das maiores tribos gregas. Também terão que migrar para outras regiões e, tal como os jônicos, acabarão nas Ásia Menor onde serão conhecidos como Eólicos.

Vou agora postar alguns mapas que eu achei e que me ajudaram muito a entender essa bagunça toda…
Península Balcânica em 1500 a.C.
Península Ibérica - 1500 a.C.
O Dórios ainda estão ao norte.
Praticamente toda a Península Balcânica, bem como parte da Ásia Menor,  faz parte do que chamamos de Civilização Egeia (termo que diz respeito a qualquer civilização na Idade do Bronze e na região do Mar Egeu, dai que se inclui tanto a Civilização Minoica quanto a civilização Micência, bem como outros grupos menores)

Península Balcânica em 1000 a.C.
Península Balcânica - 1000 a.C.

Agora já podemos ver como os Dórios passaram a dominar quase tudo que ante fazia parte da Civilização Egeia.
Também podemos ver os Jónicos e o Eólicos nas regiões da Tessália e da Ática, bem como na Ásia Menor.
Por algum motivo não se faz menção aos Aqueus, mas talvez por serem uma tribo menor que aparece com muito mais força na mitologia Homérica. Isso não significa que não existiram, na verdade eles estão ai, bem ao norte do Peloponeso (mais ao menos em baixo de onde está escrito GREEKS) e no sul da Italia.

Bem, por hoje está muito bom, até eu to cansado…
Semana que vem vamos continuar um pouco essa história, mas focando tanto na formação das chamadas polis gregas, quanto nas expressões espirituais que permitiram ou ajudaram o nascimento da filosofia.”

Texto de José Guilherme Carvalho de Souza, Bacharel em Filosofia pela Puc-RJ.

Caso você tenha alguma dúvida, crítica, pedido ou sugestão, entre em contato pelo email areafilosofica@gmail.com
Na medida do possível vou tentar responder a cada um.
Até semana que vem e estudem com moderação!!!

Mapas:
http://www.timemaps.com

Onde Nasceu a Filosofia?

“Eu não sei quando vocês ouviram falar da filosofia pela primeira vez, mas no meu caso foi na 8ª série (atual 9º ano) e no começo eu achei um porre.
Claro, eu tinha de 13 para 14 anos e estava mais preocupado com a fórmula de Bhaskara do que com o que um sujeito de toga e folhas na cabeça tinha falado sobre qualquer coisa.
É engraçado que essa imagem do sujeito de toga não saia da minha cabeça quando a professora começava a falar de filósofos.

Mas por que isso?!?

Penso que é de conhecimento quase que geral o fato de que a filosofia surgiu na Grécia Antiga. Tal como eu com 14 anos, muitos logo pensam no sujeito de toga quando escutam falar de filosofia.
Só que há um problema.
Não só hoje, mas também em outros tempos, levantou-se perguntas como:

“Mas será que os gregos não copiaram a filosofia de alguma outro cultura?”

“Poderíamos encontrar uma forma de pensamento filosófico em outros povos antes dos gregos?”

Pois bem, sobre isso que vamos falar hoje…

Certamente já temos muito claro (pelo menos eu tenho) que o termo filosofia é criação grega. Mesmo que não saibamos se foi realmente Pitágoras quem cunhou o termo, o fato é que se trata de um palavra grega.
Isso, todavia, não impediu que tanto entre os antigos quanto entre alguns modernos se postulasse que o conteúdo desse termo poderia ter uma origem não na cultura grega, mas entre os orientais.
Assim, devemos nos perguntar se a filosofia seria algo realmente inédito até seu aparecimento na Grécia Antiga, ou se teria existido uma forma de pensamento paralelo no oriente ao qual os gregos pudessem ter copiado.

Para entender a gravidade dessa questão, os convido a uma breve analogia…

Se você é como eu e nem sempre teve TV a cabo, então deve se lembrar dos filmes “inéditos” da Sessão da Tarde. Ora, se a filosofia não for criação do gênio grego, então ela é como De Volta à lagoa Azul, um filme inédito, mas só naquele canal (ou não).
Assim, o que tentarei fazer aqui é trazer alguns dados de pesquisadores que defendem que aquilo que os antigos gregos fizeram e chamaram de filosofia foi algo que jamais havia aparecido em qualquer um dos demais povos até então.

Muitos bem, mas quem foram os primeiros a defender a tese de que a filosofia não teria surgido entre os gregos mas sim entre os orientais?
Ora, os próprios orientais!!!

P: “Pode ser que tenham sido movidos por certo espírito nacionalista? ”
R: “Pode ser.”

P: “Foi o caso?”
R: “Não sei.”

Enfim, o fato é que os primeiros a dizerem que a filosofia não teria sido uma criação grega foram os sacerdotes egípcios e os hebreus de Alexandria ainda na Idade Antiga.
Diziam que aquilo que os gregos estavam fazendo era, na verdade, algo derivado do pensamento egípcio ou mosaico.
O pior é que eles não foram os únicos. Além dos orientais, essa tese acabou pegando entre os próprios gregos durante o período helênico.
De modo especial podemos sublinhar alguns neoplatônicos que defenderam que a filosofia seria apenas uma elaboração das doutrinas orientais recebidas por inspiração dos deuses.
Tais afirmações, todavia, carecem de bases históricas e foram praticamente eliminadas pela crítica mais rigorosa da segunda metade do século XIX.
Esses críticos, apresentaram alguns argumentos para combater essa tese:
a) Em primeiro lugar, sabemos que não há qualquer indicação entre os gregos antigos sobre essa derivação.
-Heródoto, um grande historiador grego, nada fala sobre isso.
-Aristoteles até atribui aos egípcios a a descoberta das matemáticas, mas somente isso.
-Platão (e guardem isso que eu penso que seja o dado mais importante), apesar de admirar muito o pensamento egípcio, faz um contraste entre o espírito prático e não especulativo dos sábios egípcios e o espírito teórico da filosofia grega.
b) Outro coisa que se deve ter em mente é o fato de que tal tese só toma forma entre os gregos durante um momento de crise em que a filosofia perde seu vigor especulativo e sua confiança na razão, de modo que passou a buscar em uma revelação superior seus fundamentos e justificativas.
c) Mediante essa situação de crise, os egípcios e os hebreus passaram a fazer muitas analogias entre seu pensamento e a filosofia grega, mas tais analogias só eram possíveis a partir de interpretações alegóricas extremamente arbitrárias sobre os mitos egípcios e as narrativas bíblicas.

Bem, mas ai surge outra questão.
Tudo isso que eu falei agora é muito bonito, mas será que realmente importa o local de onde surgiu a filosofia?
Num primeiro momento pode parecer que não, até parece uma questão  secundária, mas como então explicar o tamanho trabalho que teve a crítica especializada da segunda metade do século XIX?
Será que pesquisadores como Zeller e Burnet (e essa foi a melhor forma que eu achei de jogar pra vocês os dois críticos) não tinha mais o que fazer?
Talvez não, mas o fato é que, um pouco antes deles começarem a defender a filosofia como originalidade grega, houve, na primeira metade do século XIX, alguns que se esforçaram muito para afirmar o contrário.

Seus motivos eu não posso dizer…
(não que seja algo misteriosos e secreto, é que eu realmente não sei)

Essas novas teorias que foram surgindo eram no mínimo interessantes, porem revelam certa falta de rigor crítico e muitas vezes parecem apenas elucubrações fantasiosas e forçadas.
O maior exemplo é a teoria de Gladisch que pretende concluir que os 5 principais sistemas de pensamento pré-socráticos derivam dos 5 principais povos orientais:

Pitagorismo – Sabedoria Chinesa.
Filosofia eleata – Sabedoria Indinada.
Filosofia de Heráclito – Sabedoria Persa.
Filosofia de Empedocles – Sabedoria Egípcia.
Filosofia de Anaxágoras – Sabedoria Judaica.

Esse tipo de conjectura não possui fundamento histórico e poderíamos facilmente deixar de lado somente com aquilo que já dissemos até agora, mas há ainda mais um problema.
Os estudiosos modernos que levaram para frente estas teorias, normalmente pareciam entender as doutrinas orientais em função de categorias ocidentais, ou já olhar para as doutrinas dos gregos antigos sob o ponto de vista oriental.  Isso faz com que as correspondências que trazem entre filosofia grega e sabedoria oriental já nos cheguem com pouca credibilidade, tal como fossem ilusões de ótica.

É claro que eu não pretendo dizer que tudo da cultura grega é original, afinal sabemos que em muitas coisas os gregos são devedores do outros povos.
A dificuldade, todavia, é que para a maior parte dessas dívidas culturais (crenças, formas de culto, técnicas empíricas etc) basta a simples imitação ou repetição para explicar de que modo houve essa transmissão, enquanto que para a filosofia as coisas não poderiam ser tão simples.
Assim, agora penso que seja de muito bom proveito que vejamos um pouco dos argumentos que mostram o quão difícil seria a passagem de um conhecimento tal como o filosófico de um povo a outro num período antigo como o século VII.

a) Para haver a transmissão de um conhecimento filosófico, seria necessário alguém culto o suficiente nas línguas orientais a ponto de conseguir dominar a linguagem abstrata da qual a filosofia faz uso. A dificuldade é que o conhecimento de línguas estrangeiras nesse tempo era bastante escasso, do modo que os interpretes estavam limitados à expressões necessárias para transações comerciais.
b) Outra situação é o fato de que não há notícias seguras do uso de escritos orientais por parte dos primeiros filósofos, e mais, não se poderia explicar por que meio tais doutrinas poderiam ter chegado à Grécia antes de Alexandre o Grande.
Assim, ainda que se pense que os povos orientais possuíam conceitos filosóficos (o que não estamos afirmando), seria muito difícil explicar como seriam transferidos aos gregos.

Muito bem, até agora eu apenas falei das incongruências que aparecem nas teses daqueles que queriam imputar aos orientais a gênesis da filosofia, mas será que é só isso?

Claro que não, o melhor eu guardei pro final.

😉

Se olharmos para a Grécia Antiga, perceberemos que de fato havia ali convicções religiosas, mitos teológicos e cosmológicos, organizações políticas e militares, manifestações artísticas, enfim, uma serie de elementos típicos de qualquer cultura.
Podemos dizer ainda, e com tranquilidade, que cada um desses elementos culturais já está presente nos povos da época, de modo que é possível traçar paralelos que nos digam em que medida o povo grego é devedor das demais culturas.
A filosofia, todavia, não.
A Ciência Filosófica, tala como delineamos no último post, possui um elemento importantíssimo que a diferencia de qualquer outra sabedoria de sua época.
Podemos incluso dizer que a partir desse elemento os gregos puderam realizar uma verdadeira transformação estrutural no que diz respeito à qualquer doutrina que pudesse ter sido herdada de qualquer povo.

Mas que elemento é esse?

Ora, se vocês voltarem algumas linhas, verão que eu citei um contraste que Platão fez entre a sabedoria egípcia e a filosofia grega.
No caso da filosofia, seu grande diferencial é seu espírito teórico e especulativo que dentre os orientais parecer ser substituído por um interesse apenas prático.
Tal informação de extrema importância se tivermos em conta aquilo que falamos anteriormente sobre a filosofia, isto é, que é uma ciência inútil.
Essa dimensão da filosofia de ser independente de interesses práticos, mas apenas buscar o saber pelo saber, é algo totalmente novo e que não aparece em nenhum povo.
Dizemos então, que entre os gregos há um espírito teórico e espculativo que não aparece em mais nenhum povo.
Assim, para já irmos finalizando nosso post, vamos falar de algumas transformações que a sabedoria oriental sofreu na Grécia que são fruto justamente desse espírito especulativo grego.

a) Imagino que todos vocês conheçam Pitágoras, porem talvez nem tanto por sua filosofia.
De fato, além de filósofo, Pitágoras foi um grande matemático.
Sabemos que a matemática, diferente da filosofia, não é uma criação grega.
Na verdade, parece muito provável que os conhecimentos matemáticos dos gregos tenham derivado dos sábios egípcios, porem com uma certa diferença.
A matemática egípcia consistia basicamente numa aritmética e numa geometria voltadas à finalidades práticas (contagem de colheitas, armazenamento de grão etc).
Já com os gregos foi criada uma teoria geral dos números e uma ciência geométrica teoricamente fundada.
b) Do mesmo modo, podemos olhar para a astronomia dos babilônios, onde se pretendia apenas fazer previsões com fim utilitaristas, enquanto que os gregos iam sempre além desse fim prático.
Talvez o que mais tenha chegado perto dos gregos nesse sentido especulativo foram os astrônomos caldaicos, pois em sua astronomia estavam já implícitos conceitos que certamente demandaram alguma especulação, porem é mérito grego explicitar esses conceitos independente de haver ou não um fim prático.

Em suma, o que eu quero mostrar com esses singelos exemplos, é o fato de haver um espírito especulativo entre os gregos que fazia com que esses homens fossem sempre além da utilidade prática das coisas rumo a uma dimensão puramente especulativa. Não lhes bastava alcançar um efeito, mas também tinham que saber suas causas mais últimas.
De fato, isso certamente foi o que fez com que fosse possível uma ciência totalmente especulativa tal como a filosofia.

Enfim, já falamos muito, espero que depois de tudo isso tenha ficado claro a importância de ter a filosofia como uma ciência inútil (tal como falamos no último post), pois é um dos pontos mais importantes para poder a diferenciar de formas parecidas de saber. E isso não só hoje em dia, mas em todas as épocas.

Com esses últimos 3 posts espero ter conseguido fazer com vocês um boa introdução ao que é a filosofia.
É claro que ao longo da história diversos pensadores vão dar outras definições.
Algumas delas serão bem compatíveis, outras serão totalmente contrárias.

Bem, faz parte.
Nem sempre podemos concordar em tudo…”

Texto de José Guilherme Carvalho de Souza, Bacharel em Filosofia pela Puc-RJ.

Como disse na última vez, caso você tenha alguma dúvida, crítica, pedido ou sugestão, entre em contato pelo email areafilosofica@gmail.com
Na medida do possível vou tentar responder a cada um.
Até semana que vem, estudem com moderação!!!

Bibliografia:
-REALE, Giovanni. Pré-Socráticos e Orfismo: historia da filosofia grega e romana. São Paulo: Edições Loyola, v. I, 1993

Leia Também:
Como começa a Filosofia?
O que é a Filosofia?

O que é a filosofia?

“No nosso último (e primeiro) post, falamos que a filosofia não se trata nem de pensamentos que vem e vão enquanto refletimos sobre as coisas da vida, nem de opiniões que possamos ter sobre diversos assuntos.
Além disso, fixamos que é uma forma de amor que se esforça para da razão e sentido ao ordinário que se torna extraordinário.

Não penso em desdizer nada disso, mas uma coisa é importante que entendamos desde já: um fato pode ser totalmente verdadeiro sem que seja toda a verdade.
Isso significa que por mais que seja possível que tudo que dissermos de alguma coisa seja verdade, não significa que já conseguimos falar toda a verdade sobre essa coisa.
Posso muito olhar para um cachorro e dizer que ele tem 4 patas e 2 olhos.

“Parabéns para mim!!! Tudo o que eu disse é verdadeiro!!!”

O problema é que ainda há muitas mais verdade a serem ditas sobre aquele cachorro que eu preferi não dizer, ou mesmo que eu não sabia.
Com isso em mente, proponho agora que avancemos um pouco mais na nossa definição de filosofia de modo que isso não signifique voltar atrás no que já dissemos ou alcançar todo seu significado.

Tradicionalmente se começa a fazer a definição de algo por sua etimologia, e conosco não será diferente:
Filosofia = Filos(φιλο) + Sophia (σοφία)
Sendo a junção de duas palavras que significam, respectivamente, amizade e sabedoria. De maneira mais simples, podemos dizer que filosofia significa “amizade à sabedoria”.

Mas calma que tem mais!!!

Tal definição só se justifica se simplesmente unirmos os sentidos que que cada uma dessas palavras possui individualmente e segundo uma tradução literal.
O que acontece é que não nos é possível entender tudo que filosofia significa se simplesmente fizermos assim. Claro que cada palavra possui em sentido bem específico e estrito, mas quando unidas numa nova podem receber um sentido totalmente novo.

Vamos tentar entender esse sentido novo!!!

Filos: individualmente dizemos que significa apenas amizade ou amor fraterno, mas dentro do termo “filosofia” quer significar outra forma de amor, aquele amor por algo que não se possui, isto é, um amor em forma de desejo.
Mediante ao fato de ser um desejo, podemos dizer que é também um amor que está sempre em uma busca.
Há especialistas que diriam que melhor do que Filos, poderia se utilizar o termo Eros (que também significa amor) para falar de um amor que é busca, mas isso não nos importa agora.

Sophia: naquele tempo, a palavra sophia, ou sabedoria, estava vinculada com a noção de inspiração divina. Era uma forma de conhecimento divino que o homem só podia acessar por meio da inspiração dos deuses. Dentro do termo filosofia, porem, o sentido é totalmente outro. Os primeiros filósofos (que logo mais a frente veremos) queriam antes de qualquer coisa estabelecer um saber racional, isto é, um saber que não se fundamentasse numa inspiração divina, mas exclusivamente na razão. Eles buscavam respostas para as coisas até seus princípios últimos e mais radicais, de modo, que sophia quer significa justamente isso: um conhecimento fundamentado exclusivamente através da razão sobre os princípios primeiros e mais radicais.

Nossa definição de filosofia, que antes era apenas “amizade à sabedoria”, agora vai ser algo como: “Desejo e busca por um conhecimento fundamentado exclusivamente através da razão sobre sobre os princípios primeiros e mais radicais das coisas”. [grande não?]

Se compararmos essa definição de agora com o que dissemos anteriormente sobre filosofia, podemos perceber que de forma alguma se excluem, mas se complementam.

Outra coisa interessante dessa definição pode ser percebida quando temos em mente que Pitágoras é, segundo a tradição, aquele que cunhou esse termo. Ora, mais tarde veremos um pouco mais sobre Pitágoras, porem já posso adiantar que possuia um espírito religioso muito forte [pois é, filósofos podem ter religião].
Esse espírito religioso talvez seja o que explica falarmos de buscar e não possuir a sabedoria. Se falamos de um conhecimento que originalmente era atribuído aos deuses, então é de se esperar que a tentativa de possuí-lo somente pelo poder da razão é algo que jamais se concretiza em definitivo, mas segue sempre sendo uma busca, uma tendência. Desse modo, ainda que essa atribuição de autoria não possa ser historicamente comprovada, pela força da tradição e pelo fato de coincidir a definição de filosofia com o espírito religiosos de Pitágoras, podemos dizer que seja, pelo menos, verossímil.

Outra forma de definir filosofia que não etimologicamente é tal como se define um ciência.

[Pause Break]
Muito bem! Aqui nos aparece o problema da cientificidade da filosofia. Não pretendo entrar nesse problema (agora), afinal não serão poucos os que vão comentar sobre isso. Por ora basta que aceitemos que, do ponto de vista grego, a filosofia é uma ciência.

“Ah! Mas pra mim ciência é só aquilo que pode ser comprovado com evidências e fatos empíricos!!!”
Tudo bem, mas para os gregos antigos não.
[Moving On]

Para sabermos em que consiste uma ciência, precisamos delinear os seguintes pontos: objeto material, objeto formal e escopo.

Vamos tentar ver como eles aparecem para a filosofia!

Objeto Material: descobrimos o que é o objeto material com a seguinte pergunta: “O que estuda a filosofia?”. Pode ser também dito como o conteúdo de um ciência.
Ora, se a filosofia nasce de um apaixonar-se pela realidade que nos cerca, então é correto dizer que toda a realidade é conteúdo da filosofia.
De maneira um pouco mais específica, podemos dizer que o objeto material da filosofia é a totalidade das coisas sem distinção de partes. As ciências naturais, de modo diferente, possuem sempre como objeto material uma parte/dimensão da realidade.

Objeto Formal: descobrimos o que é o objeto formal com a seguinte pergunta: “Como estuda a filosofia?”. Pode também ser dito como o método de um ciência.
Penso que na definição etimológica de filosofia fica bastante claro qual a forma pelo qual a filosofia olha para a totalidade das coisas, quero dizer, segundo a razão e somente a razão. Não basta pra filosofia constatar o quão extraordinária é a realidade, mas deve buscar as causas e princípios racionais dessa realidade.
Para os gregos, ciência (Episteme/ἐπιστήμη) é simplesmente um conhecimento fundamentado, isto é, um conhecimento das causas que geram determinado efeito, de modo que, por seu objeto formal, a filosofia é um ciência (sobre isso vou ficar por aqui, falei que não ia entrar nisso agora). Só que a filosofia vai procurar ser ainda mais profunda, pois não vai se contentar com qualquer tipo de causa. Tal como vimos na definição etimológica, a filosofia tem como objeto formal aquelas causas mais últimas e radicais.

Vamos respirar!

Só com esses dois pontos, já podemos apresentar um boa definição de filosofia como ciência.
Ela é a ciência que estuda a totalidade das coisas segundo a razão que busca suas causas últimas.

Se antes nós sequer sabíamos diferenciar a filosofia de uma conversa de bar, agora já sabemos como ela acontece na vida de alguém e temos para ela duas definições diferentes e complementares. Sem contar que eu ainda botei umas palavras em grego (e negrito pra marcar bem) para o post ficar das galáxias!

Penso que estamos muito bem!!!
Mas continuemos, ainda falta um ponto bastante importante…

Escopo: descobrimos o que é o escopo com a seguinte pergunta: “O que tem em vista a filosofia?”. Basicamente é a finalidade útil de um ciência, isto é, seu valor prático.
Ora, a filosofia tem um escopo teórico contemplativo que visa a verdade pela própria verdade…

Bonito o que eu disse, não? 
Pois é, mas de modo mais simples eu só estou dizendo que a filosofia não possui uma finalidade prática…

“Ah, caraca!!! Filosofia é uma droga, que blog horrível, que perda de tempo, vou é pro Feice…”

Tudo bem, a reação é justa, mas não pretendo mudar o que é a filosofia só para vocês gostarem dela.
O fato é que a filosofia é a mais inútil das ciências, e isso afirma o próprio Aristoteles.

:O   <o>   o.O

Antes, entretanto, de você ir embora e nunca mais voltar, gostaria de te convidar a refletir um pouco sobre a palavra inútil.
Inútil é justamente o oposto de útil, ou seja, é aquilo que não possui utilidade.
Mas o que é utilidade?
Certamente, se isso fosse um aula de filosofia no colégio, eu poderia enrolar uns 30 minutos deixando os alunos tentando descobrir o que é utilidade [fica ai a dica], mas como não é o caso vamos adiante.
Utilidade significa ter fim fora de si, de modo que algo é útil na medida em que possui um fim fora de si.
Um exemplo é a caneta que é útil na medida em que serve para escrever.
Dizemos então que o fim da caneta não é ela mesma, mas escrever.
Uma caneta que não escreve não possui valor.

Dito isso, te pergunto: sua mãe é útil ou inútil?

“Ah! Que pergunta, claro que é útil, ela me faz comida!”

Bem, justo.
Mas então mudo minha pergunta: o valor da sua mãe está naquilo em que ela lhe é útil?
Será que, tal como a caneta, uma mãe que não sabe fazer comida vale menos do que a que sabe?

[Se sua resposta foi não, continue…]

Ora, há aquelas coisas que precisam ser úteis, pois seu valor se mede por algo que elas proporcionam. Todavia, podemos observar uma outra categoria de coisas que não podem ter seu valor dependendo do fim que podem proporcionar, mas que evidentemente possuem fim em si mesmas.
Quando falamos de um grande amor, por exemplo, idealizamos algo totalmente inútil, de modo que aquele que ama verdadeiramente deve amar independente do que a pessoa amada pode proporcionar.
Do contrário, chamamos de um amor interesseiro e tendemos a o repudiar.
A filosofia, sendo uma forma de amor, tem que estar nesse mesmo patamar. Tem que ser algo que se realize sem buscar fins fora dela.
Na filosofia, a grande recompensa do conhecer é simplesmente o conhecer.
Pode até ser que hoje em dia se pense diferente, mas isso não se faz sem jogar fora a grande novidade da filosofia, isto é, o que a fez algo totalmente original.
Ao longo dos próximos posts ficará mais claro o porquê dessa “inutilidade” ser tão importante para a filosofia, mas por hora peço que só acolha essa tão fundamental característica.”

Texto de José Guilherme Carvalho de Souza, Bacharel em Filosofia pela Puc-RJ.

Já terminando nosso segundo post, gostaria de anunciar que também temos um e-mail pelo qual você pode mandar suas dúvidas, críticas, pedidos e sugestões para que possamos, na medida do possível, atender a todos que vierem a falar conosco.
Nosso e-mail é: areafilosofica@gmail.com
Até semana que vem, estudem com moderação!!!

Bibliografia:
-REALE, Giovanni. Pré-Socráticos e Orfismo: historia da filosofia grega e romana. São Paulo: Edições Loyola, v. I, 1993
-MCKIRAHAN, Richard. A filosofia antes de Sócrates: uma introdução com textos e comentários. São Paulo: Paulus, 2013

Leia também:
Como começa a Filosofia?
Onde nasceu a Filosofia?