Onde Nasceu a Filosofia?

“Eu não sei quando vocês ouviram falar da filosofia pela primeira vez, mas no meu caso foi na 8ª série (atual 9º ano) e no começo eu achei um porre.
Claro, eu tinha de 13 para 14 anos e estava mais preocupado com a fórmula de Bhaskara do que com o que um sujeito de toga e folhas na cabeça tinha falado sobre qualquer coisa.
É engraçado que essa imagem do sujeito de toga não saia da minha cabeça quando a professora começava a falar de filósofos.

Mas por que isso?!?

Penso que é de conhecimento quase que geral o fato de que a filosofia surgiu na Grécia Antiga. Tal como eu com 14 anos, muitos logo pensam no sujeito de toga quando escutam falar de filosofia.
Só que há um problema.
Não só hoje, mas também em outros tempos, levantou-se perguntas como:

“Mas será que os gregos não copiaram a filosofia de alguma outro cultura?”

“Poderíamos encontrar uma forma de pensamento filosófico em outros povos antes dos gregos?”

Pois bem, sobre isso que vamos falar hoje…

Certamente já temos muito claro (pelo menos eu tenho) que o termo filosofia é criação grega. Mesmo que não saibamos se foi realmente Pitágoras quem cunhou o termo, o fato é que se trata de um palavra grega.
Isso, todavia, não impediu que tanto entre os antigos quanto entre alguns modernos se postulasse que o conteúdo desse termo poderia ter uma origem não na cultura grega, mas entre os orientais.
Assim, devemos nos perguntar se a filosofia seria algo realmente inédito até seu aparecimento na Grécia Antiga, ou se teria existido uma forma de pensamento paralelo no oriente ao qual os gregos pudessem ter copiado.

Para entender a gravidade dessa questão, os convido a uma breve analogia…

Se você é como eu e nem sempre teve TV a cabo, então deve se lembrar dos filmes “inéditos” da Sessão da Tarde. Ora, se a filosofia não for criação do gênio grego, então ela é como De Volta à lagoa Azul, um filme inédito, mas só naquele canal (ou não).
Assim, o que tentarei fazer aqui é trazer alguns dados de pesquisadores que defendem que aquilo que os antigos gregos fizeram e chamaram de filosofia foi algo que jamais havia aparecido em qualquer um dos demais povos até então.

Muitos bem, mas quem foram os primeiros a defender a tese de que a filosofia não teria surgido entre os gregos mas sim entre os orientais?
Ora, os próprios orientais!!!

P: “Pode ser que tenham sido movidos por certo espírito nacionalista? ”
R: “Pode ser.”

P: “Foi o caso?”
R: “Não sei.”

Enfim, o fato é que os primeiros a dizerem que a filosofia não teria sido uma criação grega foram os sacerdotes egípcios e os hebreus de Alexandria ainda na Idade Antiga.
Diziam que aquilo que os gregos estavam fazendo era, na verdade, algo derivado do pensamento egípcio ou mosaico.
O pior é que eles não foram os únicos. Além dos orientais, essa tese acabou pegando entre os próprios gregos durante o período helênico.
De modo especial podemos sublinhar alguns neoplatônicos que defenderam que a filosofia seria apenas uma elaboração das doutrinas orientais recebidas por inspiração dos deuses.
Tais afirmações, todavia, carecem de bases históricas e foram praticamente eliminadas pela crítica mais rigorosa da segunda metade do século XIX.
Esses críticos, apresentaram alguns argumentos para combater essa tese:
a) Em primeiro lugar, sabemos que não há qualquer indicação entre os gregos antigos sobre essa derivação.
-Heródoto, um grande historiador grego, nada fala sobre isso.
-Aristoteles até atribui aos egípcios a a descoberta das matemáticas, mas somente isso.
-Platão (e guardem isso que eu penso que seja o dado mais importante), apesar de admirar muito o pensamento egípcio, faz um contraste entre o espírito prático e não especulativo dos sábios egípcios e o espírito teórico da filosofia grega.
b) Outro coisa que se deve ter em mente é o fato de que tal tese só toma forma entre os gregos durante um momento de crise em que a filosofia perde seu vigor especulativo e sua confiança na razão, de modo que passou a buscar em uma revelação superior seus fundamentos e justificativas.
c) Mediante essa situação de crise, os egípcios e os hebreus passaram a fazer muitas analogias entre seu pensamento e a filosofia grega, mas tais analogias só eram possíveis a partir de interpretações alegóricas extremamente arbitrárias sobre os mitos egípcios e as narrativas bíblicas.

Bem, mas ai surge outra questão.
Tudo isso que eu falei agora é muito bonito, mas será que realmente importa o local de onde surgiu a filosofia?
Num primeiro momento pode parecer que não, até parece uma questão  secundária, mas como então explicar o tamanho trabalho que teve a crítica especializada da segunda metade do século XIX?
Será que pesquisadores como Zeller e Burnet (e essa foi a melhor forma que eu achei de jogar pra vocês os dois críticos) não tinha mais o que fazer?
Talvez não, mas o fato é que, um pouco antes deles começarem a defender a filosofia como originalidade grega, houve, na primeira metade do século XIX, alguns que se esforçaram muito para afirmar o contrário.

Seus motivos eu não posso dizer…
(não que seja algo misteriosos e secreto, é que eu realmente não sei)

Essas novas teorias que foram surgindo eram no mínimo interessantes, porem revelam certa falta de rigor crítico e muitas vezes parecem apenas elucubrações fantasiosas e forçadas.
O maior exemplo é a teoria de Gladisch que pretende concluir que os 5 principais sistemas de pensamento pré-socráticos derivam dos 5 principais povos orientais:

Pitagorismo – Sabedoria Chinesa.
Filosofia eleata – Sabedoria Indinada.
Filosofia de Heráclito – Sabedoria Persa.
Filosofia de Empedocles – Sabedoria Egípcia.
Filosofia de Anaxágoras – Sabedoria Judaica.

Esse tipo de conjectura não possui fundamento histórico e poderíamos facilmente deixar de lado somente com aquilo que já dissemos até agora, mas há ainda mais um problema.
Os estudiosos modernos que levaram para frente estas teorias, normalmente pareciam entender as doutrinas orientais em função de categorias ocidentais, ou já olhar para as doutrinas dos gregos antigos sob o ponto de vista oriental.  Isso faz com que as correspondências que trazem entre filosofia grega e sabedoria oriental já nos cheguem com pouca credibilidade, tal como fossem ilusões de ótica.

É claro que eu não pretendo dizer que tudo da cultura grega é original, afinal sabemos que em muitas coisas os gregos são devedores do outros povos.
A dificuldade, todavia, é que para a maior parte dessas dívidas culturais (crenças, formas de culto, técnicas empíricas etc) basta a simples imitação ou repetição para explicar de que modo houve essa transmissão, enquanto que para a filosofia as coisas não poderiam ser tão simples.
Assim, agora penso que seja de muito bom proveito que vejamos um pouco dos argumentos que mostram o quão difícil seria a passagem de um conhecimento tal como o filosófico de um povo a outro num período antigo como o século VII.

a) Para haver a transmissão de um conhecimento filosófico, seria necessário alguém culto o suficiente nas línguas orientais a ponto de conseguir dominar a linguagem abstrata da qual a filosofia faz uso. A dificuldade é que o conhecimento de línguas estrangeiras nesse tempo era bastante escasso, do modo que os interpretes estavam limitados à expressões necessárias para transações comerciais.
b) Outra situação é o fato de que não há notícias seguras do uso de escritos orientais por parte dos primeiros filósofos, e mais, não se poderia explicar por que meio tais doutrinas poderiam ter chegado à Grécia antes de Alexandre o Grande.
Assim, ainda que se pense que os povos orientais possuíam conceitos filosóficos (o que não estamos afirmando), seria muito difícil explicar como seriam transferidos aos gregos.

Muito bem, até agora eu apenas falei das incongruências que aparecem nas teses daqueles que queriam imputar aos orientais a gênesis da filosofia, mas será que é só isso?

Claro que não, o melhor eu guardei pro final.

😉

Se olharmos para a Grécia Antiga, perceberemos que de fato havia ali convicções religiosas, mitos teológicos e cosmológicos, organizações políticas e militares, manifestações artísticas, enfim, uma serie de elementos típicos de qualquer cultura.
Podemos dizer ainda, e com tranquilidade, que cada um desses elementos culturais já está presente nos povos da época, de modo que é possível traçar paralelos que nos digam em que medida o povo grego é devedor das demais culturas.
A filosofia, todavia, não.
A Ciência Filosófica, tala como delineamos no último post, possui um elemento importantíssimo que a diferencia de qualquer outra sabedoria de sua época.
Podemos incluso dizer que a partir desse elemento os gregos puderam realizar uma verdadeira transformação estrutural no que diz respeito à qualquer doutrina que pudesse ter sido herdada de qualquer povo.

Mas que elemento é esse?

Ora, se vocês voltarem algumas linhas, verão que eu citei um contraste que Platão fez entre a sabedoria egípcia e a filosofia grega.
No caso da filosofia, seu grande diferencial é seu espírito teórico e especulativo que dentre os orientais parecer ser substituído por um interesse apenas prático.
Tal informação de extrema importância se tivermos em conta aquilo que falamos anteriormente sobre a filosofia, isto é, que é uma ciência inútil.
Essa dimensão da filosofia de ser independente de interesses práticos, mas apenas buscar o saber pelo saber, é algo totalmente novo e que não aparece em nenhum povo.
Dizemos então, que entre os gregos há um espírito teórico e espculativo que não aparece em mais nenhum povo.
Assim, para já irmos finalizando nosso post, vamos falar de algumas transformações que a sabedoria oriental sofreu na Grécia que são fruto justamente desse espírito especulativo grego.

a) Imagino que todos vocês conheçam Pitágoras, porem talvez nem tanto por sua filosofia.
De fato, além de filósofo, Pitágoras foi um grande matemático.
Sabemos que a matemática, diferente da filosofia, não é uma criação grega.
Na verdade, parece muito provável que os conhecimentos matemáticos dos gregos tenham derivado dos sábios egípcios, porem com uma certa diferença.
A matemática egípcia consistia basicamente numa aritmética e numa geometria voltadas à finalidades práticas (contagem de colheitas, armazenamento de grão etc).
Já com os gregos foi criada uma teoria geral dos números e uma ciência geométrica teoricamente fundada.
b) Do mesmo modo, podemos olhar para a astronomia dos babilônios, onde se pretendia apenas fazer previsões com fim utilitaristas, enquanto que os gregos iam sempre além desse fim prático.
Talvez o que mais tenha chegado perto dos gregos nesse sentido especulativo foram os astrônomos caldaicos, pois em sua astronomia estavam já implícitos conceitos que certamente demandaram alguma especulação, porem é mérito grego explicitar esses conceitos independente de haver ou não um fim prático.

Em suma, o que eu quero mostrar com esses singelos exemplos, é o fato de haver um espírito especulativo entre os gregos que fazia com que esses homens fossem sempre além da utilidade prática das coisas rumo a uma dimensão puramente especulativa. Não lhes bastava alcançar um efeito, mas também tinham que saber suas causas mais últimas.
De fato, isso certamente foi o que fez com que fosse possível uma ciência totalmente especulativa tal como a filosofia.

Enfim, já falamos muito, espero que depois de tudo isso tenha ficado claro a importância de ter a filosofia como uma ciência inútil (tal como falamos no último post), pois é um dos pontos mais importantes para poder a diferenciar de formas parecidas de saber. E isso não só hoje em dia, mas em todas as épocas.

Com esses últimos 3 posts espero ter conseguido fazer com vocês um boa introdução ao que é a filosofia.
É claro que ao longo da história diversos pensadores vão dar outras definições.
Algumas delas serão bem compatíveis, outras serão totalmente contrárias.

Bem, faz parte.
Nem sempre podemos concordar em tudo…”

Texto de José Guilherme Carvalho de Souza, Bacharel em Filosofia pela Puc-RJ.

Como disse na última vez, caso você tenha alguma dúvida, crítica, pedido ou sugestão, entre em contato pelo email areafilosofica@gmail.com
Na medida do possível vou tentar responder a cada um.
Até semana que vem, estudem com moderação!!!

Bibliografia:
-REALE, Giovanni. Pré-Socráticos e Orfismo: historia da filosofia grega e romana. São Paulo: Edições Loyola, v. I, 1993

Leia Também:
Como começa a Filosofia?
O que é a Filosofia?

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