Xenófanes de Cólofon

“Hoje falaremos um pouco sobre Xenófanes de Cólofon.
Antes de mais nada, penso que seja importante justificar o porquê de estarmos falando dele agora, quando, em realidade, a maioria dos pesquisadores o apresentam como o primeiro filósofo Eleático e professor de Parmênides (isso significa logo depois de Heráclito).

Bem, eu poderia simplesmente dizer (tipo o meu professor de latim) que falaremos dele agora: porque sim…
Mas é melhor que não…

O principal motivo de eu colocar esse autor aqui é porque assim o faz minha principal fonte sobre o assunto, porem, ao longo do texto, vou tentando mostrar o porquê de assim o fazermos.

Xenófanes nasceu por volta de 570 a.C., porem seu florescimento se diz como que em 530 a.C. (de modo que cronologicamente ele está junto com Pitágora e não logo antes de Parmênides, e esse já é um bom motivo)
Sabemos que foi um grande poeta e acaba sendo recordado mais por isso do que por sua filosofia.
Sua importância filosófica, todavia, está no fato de que ele é o primeiro dos pré socráticos dos quais se possui um considerável número de fontes.
Falamos de cerca de 40 fragmentos de sua poesia que sobreviveram, bem como de 100 linhas de seus escritos.
Com essa quantidade de material, é possível ter uma ideia muito mais clara daquilo que seria seu estilo, sua intenção literária e seus temas de interesse.

Além de falar, tal como os três de Mileto, sobre a Matéria Primordial, encontramos em Xenófanes uma crítica encima da religião grega, uma proposta de Teologia Positiva, algo como uma forma de como se deve viver (que pode ser visto como o gérmen de uma ética) e uma interessante reflexão sobre a possibilidade de conhecimento e sobre os modos pelos quais ele pode ser obtido (algo que o aproxima bastante de Parmênides).

Coisa interessante também, é que Platão (e mais tarde Aristóteles) diz que ele seria o fundador do Monismo, apesar de que hoje em dia isso não seja cientificamente aceitável.
Aqui eu me gostaria de fazer um pausa pra explicar que este seja um dos motivos mais fortes para muito autores o jogaram para depois de Heráclito.
Como falar que Xenófanes foi o fundador do Monismo parace hoje em dia algo absurdo, talvez alguns autores evitem sequer o colocar perto dos filósofos de Mileto para não causar confusão.
Apesar disso, o fato é que, filosoficamente, ele parece muito mais orientado entre os milesianos, mas não nos vale ficar nessa discussão.
Enfim, por tudo isso ele é um autor ao qual, hoje em dia, um série de estudiosos desse campo dedica uma especial atenção.

Tal como os anteriores sabemos muito pouco de sua vida.
Em um fragmento, ele mesmo afirma estar compondo versos com 92 anos de idade (o.O), e mais, há uma singela alusão no mesmo fragmento que indica de que ele não tinha residência fixa (talvez pela dominação da Persia sobre Cólofon em 546 a.C.), de maneira que quase se pode pensar no autor como um poeta itinerante.
Por conta desse fragmento, se diz que sua morte não foi antes de 478 a.C.

Muito bem, diferente do que fizemos com os filósofos de Mileto, acho que, no caso de Xenófanes, vale muito a pena apresentar sua teoria filosófica sobre a Matéria Primordial ao fim, afinal, parece ter recebido muito mais enfoque as suas outras falas.

Dessa forma, começaremos com a crítica aos deuses gregos…

[Antes algumas considerações…]

Se Anaxímenes tentou falar da religião grega com algum pudor, não o fez Xenófanes sobre o mesmo assunto.
Claro, que esse autor sequer passou perto dos absurdos que se fazem hoje em dia contra as religiões em geral (mas especialmente com o cristianismo) dando a como desculpas a liberdade de expressão ou a liberdade artística.
Tal como um verdadeiro filósofo (e por que não como um ser humano decente?), as críticas de Xenófanes serão bem fundamentadas racionalmente e não terão a intenção de simplesmente ridicularizar a religião, mas de mostrar alguns pontos incoerentes da mesma.Femen
Hoje, de maneira especial, está muito vívido em minha memória o que aconteceu em Pamplona, afinal, faz menos de duas semanas (e se você está lendo esse texto num futuro distante, pesquise sobre o ocorrido em Novembro de 2015 na cidade de Pamplona), porem creio que facilmente você pode achar um exemplo mais próximo de seu tempo para ilustrar o que estou dizendo.
Quero dizer, não creio que as pessoas vão, a partir de 2016, parar de tirar a roupa em igrejas, cuspir na cara de bispos ou brincar de grafite em São Paulo.
Se você acha que isso tudo que estou falando é bobeira, então pode voltar pro FaceBook (ou pra rede social análoga de sua época), porem há ainda a opção de ler mais algumas linhas e aprender a fazer um crítica decente e não violenta.
[Mas enfim…]

Desde o início da filosofia com Tales, temos que ter em mente que suas conclusões já eram um grande golpe na religião da Grécia.
O fato de eles recorrerem a processos naturais para explicar o mundo já foi algo fatal para a tradição mitológica de então.
Apesar dessas críticas já estarem subentendidas desde os milesianos, vai ser Xenófanes quem vai às expor de maneira muito mais intensa.
Podemos falar de cinco frontes de ataque a religião oficial grega:
a) a imoralidade dos deuses do Olimpo: fica claro para qualquer um que leia Hesíodo ou Homero que o deuses gregos conseguirem levar um existência imoral ainda mais baixa que a dos homens.
Falamos aqui de roubos, adultérios, enganos etc.
b) o antropomorfismo dos deuses: ora, essa é uma crítica pela qual o autor ficou muito conhecido.
Fala do fato de que existem diferenças muito grandes entre as concepções físicas dos deuses de acordo com cada cultura (no caso, o autor fala dos deuses etíopes que possuíam deuses negros e com nariz achatado).
Chega então a afirmar que se cavalos ou bois tivessem deuses, esses seria fisicamente semelhante a cavalos ou bois.
Ora, os deuses não podem ser simultaneamente parecidos com gregos e etíopes, e mais, não existe um critério para eleger uma concepção antropomórfica em detrimento da outra.
Todas devem ser questionadas.
c) a não Eternidade dos deuses: ora, para a religião grega, ainda que os deuses fossem imortais, se fala de um nascimento dos deuses.
Para Xenófanes isso era inconcebível, pois os deuses deveriam ser Eternos.
Assim, os relatos de Hesíodo denominados de “Teogonia” são absurdos uma vez que pretendem falar de nascimento de deuses.
d) a hierarquia dos deuses: dentro da religião oficial da Grécia, existe a figura de Zeus que comanda todos os demais deuses.
Para Xenófanes, contudo, o divino por nada poderia ser controlado, de modo que a figura de Zeus como chefe dos deuses é algo intolerável
e) a intromissão dos deuses nos negócios humanos: por último, mas não menos importante, Xenófanes afirma que, caso suas última quatro críticas sejam derrotadas e se possa postular a existência dos deuses do Olimpo, ainda assim a religião grega erraria em pensar que deuses se metem em assuntos humanos.
De maneira especial, essa é um pensamento muito comum hoje em dia, pois não falta aqueles que admitem que existe um força superior no universo, mas que nada tem que ver com os assuntos dos homens.

Ah, então Xenófanes era ateu?
Não…

Apesar de toda sua crítica a religião, Xenófanes não nega a presença do divino no mundo, antes a afirma na medida em que propõe sua Teologia Positiva.
Uma vez descrito os problemas existem em pensar a divindade tal como pensava a religião grega, Xenófanes se preocupa em tentar mostrar como seria esse divino no mundo.

Ora, Xenófanes vai abandonar a tradição religiosa como fonte de verdade sobre o divino e colocar em seu lugar a razão.
A utilização de um critério racional, todavia, não pretende dizer o que é deus, mas sim afirmar aquilo que seria apropriado à natureza e atitude do divino.
Com isso, se quisermos falar da relação entre Xenófanes e a religião grega de maneira mais branda, basta dizer que, para o filósofo, a concepção de divino da religião oficial da Grécia não era apropriada.

O que então é apropriado dizer sobre o divino?

Em primeiro lugar, há um fragmento de suas obras onde ele afirma que o divino é uno.
Temos aqui que evitar o grande exagero que seria dizer que Xenófanes é um monoteísta.
Depois, a partir do momento que deus não não possui qualquer característica antropomórfica (como já ficou muito claro ao olhar suas críticas a religião grega), também acaba se tornado impessoal (ainda que uma coisa não siga necessariamente a outra).
Sendo impessoal, todavia, o autor não afirma que esteja isolado do Universo, mas antes que se relaciona com ele.
Essa relação entre o divino e o Universo pode ser descrita com duas noções: consciência e controle.

a) a consciência: diferente de algumas linhas filosóficas onde o divino é um força que nada tem que ver com o Universo, e mais, sequer tem noção de que existe algo tão ínfimo como o cosmos, o deu de Xenófanes é totalmente consciente do Universo.
Tal consciência, todavia, é algo que acontece sem ajuda de qualquer órgão sensorial, afinal, isso seria colocar em deus características antropomórficas.
Junto com esse pensamento de que o divino não possui órgão sensoriais, é quase natural pensar em um deus imaterial, porem Xenófanes não parece ir tão longe.
De fato, a ideia de entidades imateriais só vai surgir claramente mais tarde, e não sem uma série de problemas.

b) o controle: além não ignorar a existência do mundo, o divino de Xenófanes exerce controle sobre todo ele, isto é, “agita todas as coisas”.
Lembrando, entretanto, que esse deus não pode ter corpo tal como os homens, a agitação que produz não pode se dar tal como se daria se feita por homens.
Assim, Xenófanes afirma que deus controla todas as coisas mediante a força do pensamento de sua mente, isto é, sem qualquer esforço físico.

Há, todavia, outro fragmento de sua obra que vai gerar uma séria de problemas.
Nesse fragmento, o autor afirma que o divino permanece sempre o mesmo, isto é, não se move.

Falar então que ele não se move acaba por fazer com que não possamos dizer se esse deu é parte do Cosmos ou totalmente idêntico ao próprio Cosmos.
-segundo a concepção milesiana do divino, este seria entendido como parte do Universo.
Sendo assim, porem, como poderia ele não estar em movimento se até aqui se tem como certo que todo o Universo é repleto de movimento?
-já para alguns interpretes de Xenófanes, seu deus deve ser idêntico ao Universo inteiro, ou seja, deve ele ser o próprio Cosmos.
Nesse caso, porem, teria que explicar de que maneira pode Xenófanes dizer que seu deus sempre permanece no mesmo lugar, afinal, se diz isso então supõe que tem uma localização no Universo.

As coisas ficam ainda mais confusas quando se lembra de que é deus quem “agita todas as coisas”.
Sendo assim, seria preciso que ele estivesse em contato com todas as coisas (pois mover requer contato).
Desse modo, a única forma de mover as “agitar todas as coisas” sem se mover é afirmar que ele, imóvel, está sempre presente em todos os lugares.

Parece confuso?
Também acho, mas calma, parece que dá pra resolver…

Parece possível afirmar que o deus de Xenófanes é um entidade que permeia o Mundo e causa mudança nele, mas é distinto de tudo aquilo que afeta.
Essa imagem pede que se pense deus e o Cosmos como se relacionando como, respectivamente, um princípio ativo e outro passivo (um que faz a ação e outro que a recebe).
Aqui, porem, chegamos num beco sem saída, pois o próprio Xenófanes parece não ter se questionado sobre a maneira exata pela qual um princípio age no outro.
De fato, se você se senta mal por não ter entendido isso direito, peço que escute bem o que disse Aristóteles sobre essas teorias de Xenófanes: “não deixou nada claro”.

Sim, eis o fato, Xenófanes faz grandes críticas às concepções de deuses da Antiga Grécia, porem deixa bastante lacunas nas suas próprias.
Apesar disso, podemos olhar para Xenófanes como o autor que, melhor que qualquer outro antes dele, soube colocar o governo do mundo não no capricho dos deuses, mas numa inteligência ordenadora.

Visto isso, podemos olhar para outro interessante tema sobre o qual Xenófanes se lançou, o conhecimento humano.
Antes de mais nada, só comentar que essa é uma reflexão que também vai aparecer em Parmênides, de modo que se entende o porquê de tantos autores os colocarem juntos em seus manuais.
Mas enfim…

Parece ter sido o primeiro a refletir sobre o modo pelo qual o homem recebe conhecimento, de modo que alguns o chamam de “Pai da Epistemologia” (eu acho um pouco de exagero).

Por outro lado, fala também da fragilidade do homem em adquirir conhecimento e, por conta disso, chamam ele de cético (que também está além da conta).

Mas enfim, qual foi seu pensamento sobre isso?

Cabelera
a)
Em primeiro lugar, ele diz que as coisas são falsas ou verdadeiras independente de que alguém saiba ou não (pelo menos não era relativista).
Um exemplo seria se o número de fios de cabelo na cabeça de determinada pessoa que ou é um número impar ou é um número par; ainda que ninguém o saiba uma opção é verdadeira e a outra é falsa e já está.

b) Além disso, diz que só é possível conhecer aquilo que é verdadeiro em si.
Quero dizer, é impossível que alguém conheça que 2 + 2 = 5.

c) Apesar disso, é possível que se acredite que algo falso é verdadeiro (e também o contrário), de modo que dizer (ou opinar) que algo é verdadeiro não é suficiente para dizer que se conhece aquilo.

É incrível, mas parece que já aqui, no século VI/V a.C., podemos ver a problemática entre conhecimento o opinião.
Para Xenófanes a situação é clara: possuir uma opinião verdadeira não significa possuir um conhecimento.

A partir dessas reflexões, podemos afirmar as seguintes distinções em Xenófanes: “algo é verdadeiro”  “opinar que algo é verdadeiro”  “conhecer algo”.

Em suma, Xenófanes está dizendo que é impossível que se alcance o conhecimento pleno sobre qualquer coisa, de modo que suas próprias conclusões são ditas apenas como assemelhadas a Verdade (e aqui chega um pouco perto do ceticismo).
Ele também rejeita a possibilidade de uma Revelação Divina e introduz na filosofia o problema sobre a Natureza Relativa dos Juízos.

Exposto sua Teologia Positiva e sua Teoria do Conhecimento (se é que os podemos chamar assim), me parece oportno que finalmente entremos em suas concepções físicas.

Tais como os filósofos de Mileto, Xenófonoes estudou todas as coisas coisas que na época estavam na moda: meteorologia, astronomia, origem da vida etc.
Apesar disso, diferente de todos os outros, não possui uma cosmogonia, isto é, uma teoria sobre a origem do Universo.
Para Aristóteles, Xenófanes defenderia que o Mundo não é gerado, mas Eterno (o que tem tudo a ver com sua concepção do divino).
Isso acaba que deixa a coisa mais fácil pra gente, afinal, ele só precisa explicar como funcionam as coisas, não como surgiram.

Ainda que normalmente se fala que sua Matéria Primordial era a Terra, tecnicamente o autor afirma “Terra e Água” como Matéria Primordial, algo que acaba nos fazendo perguntar se realmente ele era um Monista.
Primeiro, pra resolver logo essa questão, talvez seja interessante ter em mente que podemos interpretar sua afirmação como a Terra e a Água sendo os elementos mais básicos dos quais todo o resto está formado
Algo que pode indicar que estamos no caminho certo, seja talvez o fato de que também afirme que algumas coisas são compostas só de Água, outras só de Terra e outras dos dois.
Podemos então, forçando um pouquinho, dizer que existe uma Matéria Primordial, a qual ele não nomeia, que gera Terra e Água e, a partir da Terra e da Água as outras coisas vão surgindo.

Ele diz também que todo o Planeta (vou chamar a Terra assim para não confundir com o elemento “Terra” gerado da Matéria Primordial) é ilimitado (apeiron).
O fato de ser ilimitado faz com que não seja preciso, tal como fizeram Anaximandro e Anaxímenes, explicar o que sustenta o Planeta, afinal, nada pode haver abaixo dele, nem mesmo espaço para cair, se não tem limites.

Xenófanes fala de ciclos nos quais as coisas geradas sempre retornam para de onde saíram.
Aquilo que sai da porção terrestre tende a voltar para a porção terrestre; o que sai da porção aquática tende a voltar para a porção aquática

Essa teoría cíclica não serve apenas para as coisas do Mundo, mas para o próprio Mundo.
Xenófanes assume a teoria de que a história do Universo é cíclica, de modo que cada ciclo começa e termina com Água e Terra totalmente misturados em uma espécie de “barro original”.
Nesse estado de “barro original” não suporta vida, de modo que só quando esses dois elementos se separam outras coisas vão sendo gerada.

Terra e ÁguaPara o autor, a atual fase que se vive agora é uma fase de pós vida, isto é, ele acredita que as coisas estariam voltando a “se juntar”.
Pode parecer que ele está falando bobagem e que é muito menos filósofo que os outros, mas peço que se lembrem da importância que tinham as evidências na natureza para a teoria desses caras, e mais que isso, te convido a olhar para algumas delas para ver como parece fazer tanto sentido pensar que um dia Terra e Mar foram uma coisa só, se separaram e agora estão voltando a se unir:
-conchas são encontradas nas terras e em montanhas;
-marcas de peixes encontradas em em pedreiras de Siracusa;
-o fato do Mar ser salgado (indicaria misturas que ali estariam convergendo)
-marcas de coral nas pedras de Paros;
-etc.
Essas todas foram evidência que o autor foi encontrando em seu tempo e que o levou a acreditar que em outras época, varias outras vezes, Terra e Água eram uma coisa só e, por isso, se podia encontrar longe da água indícios da presença de criaturas aquáticas.

Por último, tal como no caso de sua teologia Positiva, não podemos afirmar que Xenófanes respondeu todos os problemas que poderiam aparecer, nem tão pouco que fez um teoria perfeita, porem é inegável que com ele já está implícito um importante conceito que será largamente usado pela Metafísica.
Veja bem, se em condições similares/secamento da Terra conduz a resultados similares/geração das coisas (e é isso que diz Xenófanes quando afirma que o Cosmos possui uma história Cíclica) é inegável que, ainda que não nesses termos, já temos aqui como que uma intuição da Causalidade que será tão apreciada, por exemplo, na Metafísica.”

Texto de José Guilherme Carvalho de Souza, Bacharel em Filosofia pela PUC-RJ

Caso você tenha alguma dúvida, crítica, pedido ou sugestão, entre em contato pelo email areafilosofica@gmail.com
Na medida do possível vamos tentar responder a cada um.
Até semana que vem e estudem com moderação!!!

Bibliografia:
-REALE, Giovanni. Pré-Socráticos e Orfismo: historia da filosofia grega e romana. São Paulo: Edições Loyola, v. I, 1993
-MCKIRAHAN, Richard. A filosofia antes de Sócrates: uma introdução com textos e comentários. São Paulo: Paulus, 2013

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Anaxímenes de Mileto

Na mesma linha de pensamento de Tales e Anaximandro, hoje temos Anaxímenes, mais um filósofo milesiano do sécuo VI a.C.
Sabemos que é tido por colega e aluno de Anaximandro, bem como que era de Mileto.
Além disso, e de mais algumas poucas informações que forneceremos ao longo desse texto, não se sabe muito mais sobre sua vida, do modo que até mesmo as datas que daremos são bastante incertas.Gone with the Wind
Pois bem, dizemos que floresceu (e isso não significa entrar na puberdade) em 546 a.C.
Seu nascimento e morte, contudo, são ditos como que em 585 e 528 a.C.
Tal como Anaximandro escreveu, Anaxímenes escreveu em prosa e não somente sobre filosofia, mas também sobre meteorologia e astronomia.
Um pouco depois de sua morte, Mileto será arrasada pelo Império Persa, mas isso já é outra história.

A primeira coisa que veremos será sua concepção de Matéria Primordial.
Anaxímenes ainda segue ainda sendo um monista, porem vai discordar de alguns pontos do pensamento de Anaximandro, tal como este fez com Tales (é que naquela época não se parava de falar por coisas tão bobas, ou não, estou só supondo).
Se vocês leram o que foi escrito sobre Anaximandro (e se não o fizeram, façam!), devem lembrar que ele tinha uma pequena discordância em relação ao pensamento de Tales que colocava a Água (ainda que não exatamente água física) como Matéria Primordial.
Para Anaximandro, essa visão de Tales fazia com que a matéria primordial fosse algo determinado (Água), de maneira que, tendo já uma determinação(Umidade), não poderia explicar seu contrário (Seco).

Isso está melhor explicado no post sobre Anaximandro, mas vamos tentar esclarecer um pouco aqui para ajudar a entender Anaxímenes…
Anaximandro fala da matéria primordial como algo mais neutro, ou seja, sem propriedades determinadas, de modo que seja capaz de gerar ambos os contrários (quente e frio; seco e úmido etc).
Assim, essa matéria será o “Indeterminado” ou “Apeiron”.
[E muito resumidamente aqui estamos…]

Ora, ainda que seja inegável a genialidade de Anaximandro ao construir sua teoria, o fato é que algumas coisas ficam pouco esclarecidas.
Em primeiro lugar, parece que Anaximandro da um salto desde o apeiron até a geração das coisas, afinal, não se explica muito bem (pelo menos não naquilo que temos de seus escritos) o modo pelo qual os contrários se separam a geram as coisas.
Além disso, o Apeiron de Anaximandro pode facilmente ser confundido com o Nada ao ser pensado como o Indeterminado Absoluto, e falar que o Nada é a Matéria Primordial de todas as coisas é (pelo menos para esses caras) um absurdo.

A partir dessa problemática de Anaximandro, Anaxímenes deve apresentar uma Matéria Primordial que cumpra dois requisitos que a de Anaximandro não parece cumprir:
-apresentar um matéria que, apesar de não ser totalmente indeterminada, possa explicar a geração dos contrários.
-explicar como ocorre a geração das coisas a partir dessa matéria sem fazer grandes saltos.

CinemaOra, segundo testemunhos dos antigos, Anaxímenes afirma que o Matéria Primordial que dá origem a todas é o Ar.
Bem, para alguns pode parecer que, em relação ao Apeiron de Anaximandro, falar do Ar como matéria primordial é como que uma regressão.

Pois bem, não é bem assim, mas antes de explicar o porquê de não o ser vamos entender os motivos pelos quais Anaxímenes parece ter adotado justamente a noção de Ar como Matéria Primordial.

Em primeiro lugar me parece bastante claro que todos esses primeiro filósofos pretendem explicar as coisas a partir de fenômenos da natureza, porem Anaxímenes leva isso a outro nível.
Para ele, as explicações deveriam ser dadas a partir de fenômenos familiares e facilmente observáveis por qualquer um, de modo que, mesmo sendo precipitado falar que Anaxímenes conduziu experimentos científicos para fundamentar sua filosofia, é inegável que ele parte de evidências observáveis e repetíveis por qualquer um.

Ora, uma dessas evidencias, e talvez a mais famosa do autor, é algo que você pode fazer ai na sua casa, trabalho, condução etc:

[ Você vai precisar de cola bastão, cartolina branca, tesoura sem ponta…Art Atackk
#sqn]
1) Aproximar a palma da sua mão da sua boca de modo que possa sentir o seu próprio sopro.
2) Se você assoprar com a boca bastante aberta, você vai perceber que o ar que sai da sua boca vai sair um pouco mais quente.
3) Se você assoprar com a boca mais fechada (tipo fazendo bico), você vai perceber que o ar já fica mais frio.
[Facil, não? Pelo menos más fácil que Art Attack]

Pois bem!
Talvez a partir dessas observação, Anaxímenes vai poder dizer que o ar é capaz de explicar tanto o quente quanto o frio (que são contrários).
Se comprimido, o ar é frio, se rarefeito o ar é quente.
Com isso, Anaxímenes vai chegar a dizer que o ar pode se tornar fogo (se for suficientemente rarefeito) ou água (so for suficientemente condensado).
E ele não tira isso da manga, mas de observações como a água que cai das nuvens e o vapor que sai da água.

Aqui, contudo, chegamos a um ponto donde não se tem muita certeza.
Num primeiro momento poderíamos pensar que Anaxímenes diz que as substâncias que existem qualitativamente diferentes são, na verdade, formas que o ar assume segundo a quantidade que existe dele nos limites de um determinado espaço.
O problema é dificilmente poderíamos pensar que, no século VI a.C., rarefação e condensação estejam ligadas a quantidade de algo em determinado volume.
Assim, parece mais correto inferir que talvez rarefeito e condensado venham a designar, em realidade, qualidades tais como “espesso” e “delgado”.

Apesar desses problema o fato é, Anaxímenes foi capaz de analisar umas característica em função de outras e, objetivamente, ele explica a geração dos contrários a partir de uma só Matéria Prima.

Com essa teoria sobre o Ar, Anaxímenes é capaz de falar de uma Matéria Primordial que, sem ser indeterminada, explica os contrários.
Ser quente ou frio (ou secou ou úmido, enfim) não são propriedades do fogo ou da água, mas sim o próprio ser fogo e o próprio ser água são propriedades do Ar.
Além disso, falar de rarefação e condensação é falar de processos bastante compreensíveis, de modo que já se indica uma cosmologia com menos saltos (mas isso deixemos para mais a frente).

[Vamos teorizar um pouco]
Bem, não que Anaxímenes tenha dito o que vou dizer agora, mas se vocês em permitem dizer, me parece que essa teoria de Anaxímenes tem pontos bastante interessantes se abstrairmos um pouco que ele fala de “Ar”…
Ora, parece que ele entende que a Matéria Primordial deve ser de tal modo que tudo que é já está nela. 
Deixa eu me explicar.
Se na Matéria de tales parece haver apenas uma propriedade que a impede de explicar seu contrário (segundo a crítica de Anaximandro) e em Anaximandro nenhuma propriedade que acaba fazendo com que parece o Nada absoluto; Anaxímenes parece vislumbrar que as propriedades de todas as coisas já estão em sua Matéria (e eu não digo em Potência para não cometer um anacronismo absurdo), mas só aparecem de maneira concreta na medida em que essa matéria vai determinada nessas diversas coisas (e também quero evitar dizer atualizada para que não me xinguem nos comentários).
Tal situação, penso que ficará mais clara em Aristóteles, mas por enquanto me parece bem.
[Voltando a Realidade]

Bem, como já tivemos o trabalho de abstrair a noção de Ar (ainda que extra oficialmente) já podemos tentar entender melhor o que é isso que o filósofo disse ser a Matéria Prima e que nós traduzimos por “Ar”.
A palavra foi usada por Anaxímens é, na verdade, “Aêr”.
The Fog
Para os primeiros escritores gregos seria algo como “Névoa Sombria” (Sinistro!!!)
Essa noção de Névoa Sombria aparece em contraposição do que os gregos chamavam de “Aithêr”, uma parte mais clara e luminosa da atmosfera.

Ora, parece que, para a maior parte dos estudiosos, o Ar do qual fala Anaxímenes, uma vez que é escrito como “Aêr”, está bem próximo daquilo que em português traduzimos como Ar.
Se quisermos, todavia, sermos mais exatos, devemos devemos chamar a Matéria Prima de Anaxímenes de “Ar em equilíbrio” (mas como é muito grande eu evito).
Nesse estado mais equilibrado se pode dizer que falta ao ar qualquer propriedade perceptível, e como não o podemos perceber devemos inferir sua existência.

“Inferir, mas isso não é um salto? Que droga, vou é estudar matemática!!!”
“Não, calma…”

Essa inferência não é bem um salto, afinal, estamos falando de Anaxímenes.
Ele relaciona o Ar em equilíbrio com a respiração.
A nossa respiração pode ser quente ou fria, que são propriedades do Ar e acabam revelando que aquilo que nós respiramos é Ar.
Assim, mesmo quando se está um dia seco e quente, do modo que não somos capaz de perceber o Ar, seguimos respirando, pois ele está ali.

“Ah, mas isso não me convence!!!”
“Tá, mas tenta ter em mente a diferença de época…”

Dessa noção de respiração, podemos chegar ainda a outra ideia de Anaxímenes que é igualmente interessante ele diz que a nossa alma é Ar.
Não é difícil inferir o motivo dessa afirmação se tivermos em mente que havia um visão pré filosófica que identifica o ar respirado como princípio vital a partir da observação de que se alguém para de respirar morre e entra em decomposição.

Um sentença sobrevivente diretamente de sua obra, quer dizer, palavra do autor, quando afirma a alma como Ar, acaba dizendo também que é ele quem nos unifica e controla.
É uma afirmação um pouco obscura, de modo que, ainda que pensar a alma como unidade seja algo um pouco mais fácil, a noção de controle, infelizmente, não está bem desenvolvida no material que temos do autor.

Chegamos então num muro alto demais para escalarmos?
Talvez não!

Seguindo a tendência de Anaximandro, Anaxímenes olha para o homem como uma parte do cosmos, isto é, sujeito aos mesmos princípios da natureza.
Com isso, é possível entender o Universo ao olhar para o Homem e vice-versa.
Aliás, em Anaxímenes temos o primeiro uso explícito daquilo que hoje chamamos de analogia microcosmo/macrocosmo, quero dizer, a tese segundo a qual o Homem e o Universo se constituem e funcionam de maneira semelhante.
Claro que a comparação vai ser um pouco difícil pelo fato de Anaxímenes usar a palavra “envolver” para falar da relação entre o Ar e o Universo, e envolver não é o mesmo que unir e controlar.
Se, entretanto, integramos as noções de unir, controlar (referente a relação do Ar com o Homem) à noção de envolver para falar da relação entre Ar e Universo, parece que a palavra controle fica menos obscura.
Chegamos então a afirmar que a função do Ar no Universo é o envolver de maneira que mantenha tudo em seu lugar.
Numa primeira olhada, manter no lugar significa claramente dar unidade, isto é, fazer ser um só; porem, se pensarmos em outro sentido, manter no lugar também pode significar manter a ordem, de modo que significa justamente o controle e a regulação de todos os eventos no Universo (eventos astrológicos, meteorológicos etc).
Além disso, também se pode suspeitar que, tal como costumavam pensar os de Mileto, Anaxímenes está contemplando um Universo que parece estar vivo, isto é, totalmente impregnado de uma força vital.
A Matéria Prima é aquilo que tanto nos Homens quanto no Universo os impregna de tal forma que não só é a causa deles, mas também (se não for por demais estranho falar assim) os está regendo.
A Matéria Prima é então um fonte também de ordem.

Me parece que não preciso explicar que a noção de alma está ligada a noção de movimento, afinal, isso parece ter ficado claro no post sobre Tales de Mileto (e se você quiser, pode conferir clicando aqui).
Isso mostra que, assim como Anaximandro, Anaxímenes não está se apartando daquilo que disse Tales, antes bem, está respondendo às crítica que talvez pudessem ter surgido ao seu pensamento.

[Saindo um pouco da linha de pensamento]
Talvez seja interessante que mais pra frente, um vez que esse assunto não faz parte no cronograma que pretendemos seguir, explicássemos melhor o quão importante é ter a dinâmica Tese e Crítica (que nesse período se chama Dialética, ainda que em Aristóteles essa palavra já venha significa outra coisa) em mente para entender a dinâmica que existe não só entre os três de Mileto, mas ao longo de toda a discussão que foi ocorrendo em matéria de filosofia antes de Sócrates.
[Seguindo]

Enfim, se lembrarmos, todavia, de outro ponto interessante na exposição sobre Tales, veremos que, assim como alma que dizer Movimento, a ideia das coisas estarem cheias de deuses quer dizer Ordem.
Isso em Anaxímenes não será diferente, pois também ele afirma o Ar como sendo um deus.
E o mais intéressante é que, ma mesma passagem que que se diz que Anaxímenes afirma o Ar como um deus, também diz que ele “vem a ser“, é “sem limites“, “infinito” e “sempre em movimento“.

Falar de sem limites e de infinito é provar que Anaxímenes não está quebrando com Anaximandro (e repito, essa dinâmica de criticar sem separar é extremamente importante nesse período).
Deixando isso de Anaximandro um pouco de lado (pois está muito bem explicado aqui), vejamos como é interessante sua afirmação de que o Ar “vem a ser“.

Aqui, podemos pensar o “vem a ser” como justamente Movimento, de modo que essa ideia de Movimento é duas vezes apresentada.
Ora, devemos ter cuidado, todavia, com “sempre em movimento“, pois se levado ao extremo, Anaxímenes poderia acabar afirmando o mesmo que Heráclito daqui a pouco vai afirmar (ou não, é um boa questão a se investigar).

Talvez a melhor forma de entender essa afirmação é que a Matéria Primordial é caracterizado pelo Movimento, não que toda e qualquer porção dela esteja se movendo, de modo que, com o Movimento da Matéria Prima, ocorre a geração das substâncias, mas, com a Ordem e a Unidade dessa mesma Matéria, as substâncias geradas possuem estabilidade, de modo que você não vê por ai fogo virando água e vice-versa (e quanto mais eu escrevo sobre isso, mais quero fazer uma comparação entre Anaxímenes e Heráclito, mas enfim…).

Nesse ponto então, chegamos naquele problema do qual eu já avisei quando falávamos sobre as fontes para o estudo dos Pré Socráticos, isto é, a falta de dados.
Ao fim, não sabemos o quão profunda foi a explicação que Anaxímenes deu sobre a origem das demais Substâncias, de modo que pode ser que ele nada tenha falado disso, mas também que tenha feito um longo tratado sobre esse tema.
Me parece que não nos é possível desenvolver mais sua teoria do que isso, porem podemos (e acho que devemos) mostrar alguns pontos débeis em seu pensamento que normalmente recebem algumas críticas.

a) Em primeiro lugar o fato de que algumas substâncias que são Ar condensado, e por isso mesmo deveriam tender mais ao frio, acabarem sendo quente (como a água ou o próprio vento).
Claro que esse é um argumento que facilmente pode ser combatido uma vez que se tem em mente que a tendência ao frio de um substância se dá em sua formação, porem, a partir do momento que já é estável devido a Unidade e a Ordem que confere a Matéria Prima, podem receber características do quente sem perder sua forma.
b) Há uma segunda crítica que é mais difícil de ser combatida, porem impossível de ser percebida pelo filósofo.
Ela consiste no fato de que existe uma lei física chamada Lei de Boyle, e essa lei demonstra que submeter um substância a pressão (que nada mais é do que condensar) acaba por deixar ela mais quente e não mais fria como disse Anaxímenes.
Essa crítica, todavia, se termos em vista o quão anacrônica é, parece mais uma implicância juvenil do que um questionamento filosófico.
c) Assim, vamos a terceira, e mais importante, crítica, uma crítica propriamente filosófica.
Não se sabe muito bem qual seja o estatuto da rarefação e da condensação, de modo que ficam muitas perguntas no ar (irônico dizer isso, não?).
Se pensamos aqui em princípios causas do movimento e da mudança, então teríamos que afirmar que são três princípios ao invés de um, e isso seria certamente rechaçado por Anaxímenes.
Ora, por mais que isso seja utilizar a falta de fontes como justificativa, Anaxímenes não afirmou (e tamnbém não negou) que condensação e rarefação seja causas a parte do Ar.
Nesse sentido, a crítica pode ser anulada, porem de outro lado temos que Anaxímenes tenha sido um pouco negligente em sua teoria (e com isso acabei de raspar no anacronismo, mas ainda não cheguei lá).

Muito bem, se você chegou até aqui, está de parabéns…
Admito que esse post ficou bem grande.
Eu mesmo nunca pensei que teria tanta coisa legal pra falar de um cara do qual temos tão poucas fontes, aliás, tenho que admitir que só em escrever esse texto acabei aprendendo mais do que imaginava ter para aprender sobre o autor.
Não estou dizendo que chegou ao fim, temos ainda alguns a assuntos que ver.
Apesar disso, me parece que para aqueles que simplesmente querem ter uma noção geral da filosofia pré socrática em Anaxímenes o que já foi dito é suficiente.
Se, entretanto, você é uma pessoa curiosa como eu (curiosidade no bom sentido, claro), então convido a continuar por mais algumas linhas para vermos como Anaxímenes soube aplicar sua teoria filosófica em seu entendimento da terra e de sua formação…

Tal como Anaximandro, Anaxímenes tem que enfrentar a questão sobre a origem da terra e de sua estabilidade.
(Já perceberam que várias vezes utilizei “Tal como Anaximandro, Anaxímenes…”? Você sabe quantas vezes foram?)
Anaxímenes, segundo um dos testemunhos sobre seu pensamento, diz que a terra é resultado de uma feltragem.
Pra quem não sabe o que significa, feltragem é um processo técnico (que parece remontar ao Antigo Egito) que hoje em dia é muito utilizado na produção de TNT (Tecido Não Tecido).
É chamado de TNT (e eu ia morrer sem saber disso) uma vez o processo que se utiliza para chegar ao feltro (o produto final da feltragem) não tece o tecido, mas apenas o compacta.

Veja que essa noção de algo que é compactado e recebe uma nova qualidade se encaixa muito bem na teoria de Anaxímenes sobre o ar condensado que gera terra.
Mais uma vez vemos como Anaxímenes se utiliza de uma argumentação técnica e não sobrenatural para fazer explicar suas teorias.

Ora, esse produto da feltragem do Ar é a Terra que, tal como também disse Anaximandro, é totalmente plana.
Apesar de concordarem nesse ponto, Anaxímenes não aceita a proposta de que a Terra permanece imóvel sem qualquer suporte (tal como dizia Anaximandro).
Dessa maneira, o filósofo postula que exista uma coluna de Ar que sustenta a Terra, de modo que ela não “cai”, mas permanece imóvel enquanto o resto dos astros está sempre se movendo (certo, ele errou, mas reclamar muito disso também é cair em anacronismo).

Falando em “restos dos astros”, parece que para ao autor eles não são formados do Ar original, mas sim da Terra, ou melhor, do Fogo que, no processo de rarefação, forma as estrelas e as eleva às altura (e infelizmente não sabemos ao certo como ele explicava essa elevação, mas enfim…)
O motivo pelo qual os astros se movem é facil de explicar dentro do pensamento do autor, bastando apelar para o movimento constante do ar.

Já o fato (pelo menos fato para ele) da Terra estar imóvel, era o verdadeira problema a ser superado.
Ora, se olharmos para folhas caindo, comparando com uma bola de boliche, perceberemos que as folhas caem muito mais devagar por conta da resistência do ar, de maneira que não é tão absurdo pensar que seja Ar que sustente a Terra.
Apesar disso, a folhas seguem caindo, enquanto a Terra parece que não.
Anaxímenes explica isso a dizendo que no caso das folhas, o Ar que está abaixo delas se move, de maneira que se cria espaço para que elas caiam, já com a Terra não, o Ar abaixo dela está totalmente parado.

Uma vez que Anaxímenes pensa que a Terra está apoiada sobre um “mar de Ar”, então ele não poderia aceitar que outros astros passassem por deibaixo dela, afinal isso criaria instabilidade e tudo ia cair igual jaca.
Assim, Anaxímenes concebe o cosmo de maneira em que o Sol e as estrelas (que do seu ponto de vista estão dando voltas na Terra) nunca passem por debaixo dela, mas somente envolta.

Ele então fala de um “Polo Norte Celeste”, algo como o ponto mais distante do céu que serve como o eixo de uma Capa de Feltro.12240092_934884586591260_1043976396751605207_n
Essa capa (que não é uma esfera completa) tem um diâmetro tal que a permite não passar pela coluna de Ar, mas também em torno dela.
O limite de onde chega essa capa é justamente a rota do Sol.
As estrelas, diferente do Sol, movem-se em círculos ao redor do polo celeste, porem todas na mesma velocidade, de modo que, em relação de umas as outras, permanecem sempre na mesma posição.

Enfim, sua teoria não é perfeita, e há em diga que nesse ponto parece mais verossímil o que fala Anaximandro sobre a configuração do cosmos, porem não deixa de ser incrível que uma hipótese tão bem fundamentada como essa possa ter saído de um cara que viveu a mais de 2500 anos atrás.

Anaxímenes também realizará importantes contribuições meteorológicas como a explicação dos eclipses lunares e a afirmação de que as Estrelas estão mais distantes da Terra do que o Sol.
Gnómon

Há também fontes que dizem que foi ele, e não Anaximandro, quem a descoberta do uso do Gnómon e a instalação de marcadores de hora em Esparta.

Por último cabe ressaltar que Anaxímenes, provavelmente para não entrar em conflitos desnecessários com a religião olímpica, afirma a formação dos deuses também a partir do Ar, de modo que.
Tal como dissemos faz algumas semanas, os deuses gregos não era qualitativamente diferente dos homens, apenas “maiores”.

Com isso me parece dada por terminada a exposição de Anaxímenes, de maneira que podemos voltar para nossos importantes afazeres do FaceBook com a tranquilidade de ter chegado até aqui.”

Texto de José Guilherme Carvalho de Souza, Bacharel em Filosofia pela PUC-RJ

Caso você tenha alguma dúvida, crítica, pedido ou sugestão, entre em contato pelo email areafilosofica@gmail.com
Na medida do possível vamos tentar responder a cada um.
Até semana que vem e estudem com moderação!!!

Bibliografia:
-REALE, Giovanni. Pré-Socráticos e Orfismo: historia da filosofia grega e romana. São Paulo: Edições Loyola, v. I, 1993
-MCKIRAHAN, Richard. A filosofia antes de Sócrates: uma introdução com textos e comentários. São Paulo: Paulus, 2013

Anaximandro de Mileto

“Anaximandro (fl. 560 a. C.) provavelmente foi o mais eminente dos Milésios, pois ele conseguiu ampliar a visão de Tales de modo a criar um sistema tão fortemente fundado que usou até para explicar fenômenos naturais como os ventos e a origem dos animais.
Devido à complexidade do pensamento é conveniente parti-lo em quatro: a natureza da matéria primeira, cosmogonia, a geração dos seres vivos e a lei universal.

Sobre a natureza da matéria, Anaximandro, por um lado, concorda com Tales, ela deve ser única; por outro, discorda dele quanto ao que deva ser sua natureza.
Essa discordância está fundada na percepção de que identificar a matéria primordial com água, ainda que metaforicamente, já é dar a ela alguma determinação.
Se eu disser que a matéria primordial é como água, já disse, implicitamente, que a matéria primordial é fluida, por exemplo.
Esse é um grande problema!
Pois, se tudo vem da matéria e a matéria é fluida, como explicar as coisas densas? Ou as coisas duras?

Alguém poderia discordar dizendo, mas a água de que Tales falava não é da mesma natureza dessa que se vê nos rios.
É verdade, contudo, se se atribui a matéria primordial a comparação com a água, é porque ela deve ter algum ponto de semelhança com a água, senão perde todo significado o nome.
Ou seja, a comparação da matéria primordial com a água, necessariamente, implicará alguma definição na matéria primordial.
Isso para Anaximandro é um problema, pois a determinação da matéria primordial a impossibilita de estar presente em coisas que são contrárias.
Por exemplo, se a matéria primordial for dura, como poderá ser o princípio do que é líquido?
Se for fria, como poderá ser o princípio do que é quente?
Isso significa que a matéria determinada não pode ser o princípio de tudo, somente das coisas que não lhes é oposta.
Portanto, para sustentar a tese de uma única matéria primordial para todas as coisas, é necessário admitir que a matéria primordial seja indeterminada.
Daí, a famosa frase de Anaximandro tudo é o indeterminado (apeiron).

A partir dessa tese importante surge o problema de explicar como as coisas se deram, afinal as coisas no mundo não são indeterminadas, todos sabem distinguir o que é um árvore do que é um cão.
Por isso é fundamental estudar a chamada cosmogonia de Anaximandro, ou seja, a história da origem do mundo.
As cosmogonias são comuns nos povos antigos, todos eles tinham uma forma de explicar a origem do mundo como se vê hoje; o que há de original aqui é Anaximandro gerar uma cosmogonia fundada, exclusivamente, na sua concepção racional de física.

Sobre a geração do cosmo, Anaximandro tem uma ideia própria de um gênio.
É importante perceber o problema que ele tem.
Por um lado, ele diz a matéria primordial que é o princípio de tudo que há, deve ser indeterminada por motivo de consistência.
Por outro lado, ele precisa mostrar como o indeterminado se torna determinado.
Nesse momento, ele toma por suposto que existe um movimento eterno na matéria.
Isso parece reflexo daquela ideia de Tales que pensava todas as coisas possuírem alma, ou seja, haver um princípio de movimento no interior da matéria.
Como a matéria é eterna, igualmente eterno deveria ser o movimento dentro dela.

Sendo assim, Anaximandro possui dois elementos: uma matéria sem forma definida e o movimento eterno dessa matéria.
A ideia é: o princípio de movimento da matéria deverá definir o indefinido.
A pergunta é: isso é possível?
A resposta seria: sim.
Vortice

Veja por exemplo o caso dos vórtices:

Inicialmente, o que se tem é a água fazendo o seu movimento natural, logo em seguida, aquela água sem forma ganha a forma de um funil. Ou seja, aquela que tinha forma indefinida passa a ter uma forma definida devido ao movimento.

Essa é a analogia de Anaximandro, ele entende o mar como sendo a matéria primordial infinita e os vórtices formados nela como sendo a matéria finita (essa que conhecemos!).
Esse é o princípio a partir do qual ele vai explicar a geração de todas as coisas.

Seria algo como, houve um primeiro vórtice, ou seja, houve uma primeira determinação.
No interior desse vórtice são gerados outros vórtices de sorte que cada um desses vão se compondo mutuamente até gerar as diversas determinações que nós conhecemos no mundo.
Para Anaximandro, primeiro tornou-se existente o quente e o frio e desses os quatro elementos, dos quatro elementos, todos os outros seres.

É curioso perceber que nesse sistema de Anaximandro não é necessário supor a existência de um único mundo, pelo contrário, o que se supõe é que existam infinitos; pois, a matéria primordial é infinita, logo existem tantos mundos paralelos quantos vórtices primordiais existirem, ou seja, infinitos.

Antes de prosseguir para a segunda parte da cosmogonia de Anaximandro é interessante ressaltar que a teoria de vórtices dele não pode ser entendida segundo a nossa terminologia material.
Ele não quer dizer que estejamos todos dentro de um vórtice efetivamente, mas sim que a matéria indeterminada se determina através do movimento como a um vórtice o faz na água.
Seria contraditório com o pensamento apresentado alguém ficar procurando no mundo o vórtice de Anaximandro, pois esse vórtice se dá na matéria indeterminada, ou seja, não se nada em nada que temos no mundo, pois tudo que temos é determinado.

O terceiro ponto a ser tratado é a origem dos seres, esse é muito interessante; pois, é uma espécie de complemento da cosmogonia, entretanto focando nos seres vivos.
Como foi dito, Anaximandro supunha que os vórtices teriam gerados os quatro elementos: água, ar, fogo e terra.
Esses elementos, todavia, estariam unidos em uma mescla de modo que no início água e terra formavam um único composto.
A ação do Sol sobre esse composto de água e terra teria gerado todos os seres vivos.
Sobre o homem, em especial, ele entende ter sido um ser que vivia dentro de um monstro marinho que se tornou terrestre quando o sol secou parte da água.
Por fim, o Sol também teria secado a carapaça do monstro que envolvia o homem e o homem passou a andar por si só na terra.
Relativo à alma, ele entende ela ser o Ar que provém do espírito cósmico que envolve todas as coisas.

Quando alguém ouve essa tese poderia dizer que não há qualquer filosofia nisso, parece mais um mito antigo sobre a origem do mundo.
É verdade!
Inclusive existia na época de Anaximandro um mito oriental que indica a vida vir das águas.
É exatamente por causa de haver um mito parecido que se deve questionar se Anaximandro estaria aderindo a um mito e, portanto afastando-se da filosofia, ou se ele está incorporando um mito.
A pergunta seria: Anaximandro reinterpretou o mito existente segundo seu sistema?
Bom, isso não dá para saber com precisão, sobretudo, porque o que se tem da obra dele não é mais que um fragmento.
Entretanto, não parece uma hipótese completamente fora de possibilidade que Anaximandro estivesse reinterpretando os mitos segundo o seu sistema; contudo, gostaria de avisar ao leitor que, a partir de agora, o que estamos fazendo é exercício de especulação e hipótese.
Se, de fato, ele estiver reinterpretando o que se dirá daqui para frente será verdade, caso contrário, não passará de uma projeção do nosso pensamento na obra. Bom, mãos a obra!

Especulação e Hipótese [acréscimo do editor]:
Sobre o dito duas coisas chamam a atenção: a ação do sol e o espírito universal.
O sol, no sistema de Anaximandro, é fruto do princípio quente, estaria associado ao fogo.
Ocorre que o princípio quente nesse sistema possui uma função desintegradora, pois é o princípio quente que desintegra o frio em diversos elementos.
O sol adquire para si essa característica e se torna a causa da desintegração da água com a terra.
É interessante notar que a desintegração não é qualquer coisa nesse sistema, ela é causa da determinação também.
Veja, ninguém sabe o que seja um composto mesclado de água-terra, isso é indeterminado, mas pela ação do sol esse composto é desintegrado e, por isso, determinado.
Ou seja, o sol é um segundo princípio de determinação das coisas.
Mas agora, não mais pelo movimento, mas sim pela desintegração (corrupção).
Isso revela algo interessante, pois nesse sistema a vida é um fruto de uma corrupção a mais da matéria primordial.
Agora fica um pouco mais interessante aquele mito acerca da origem do homem, pois lá se viu que o homem não é um ser fruto de uma desintegração da matéria, mas sim de duas: primeiro, desintegrou a água da terra tornando terrestre um monstro, depois desintegrou o homem do animal pela destruição da sua carapaça.
Isso indica que o homem está mais afastado do estado original da matéria primordial que os demais.

O segundo ponto interessante é o espírito (pneuma); primeiramente, admite que a alma é de natureza aeriforme, ou seja, é feita de ar.
Sua origem seria o espírito cósmico que envolve todas as coisas e, a partir do qual, todas as coisas respiram.
Esse espírito cósmico é partilhado por todos os seres, ele funciona de forma oposta ao sol, pois o sol desintegra as coisas tornando-as determinadas, o espírito, por sua vez, unifica, pois todos respiram nele.
O espírito cósmico não pode ser interpretado como algo imaterial, pelo contrário, ele é fruto da desintegração da água com a terra.
Sua presença é a tal ponto material que Anaximandro vai explicar os eclipses por de vapores que fecham os orifícios por onde o cosmos respira. Assim, o espírito cósmico seria uma espécie de ‘vento’ que envolve todo o cosmo e, desse vento, procede a alma, que, por sua vez, é a causa do movimento.
Ou seja, indiretamente o movimento das coisas é devido ao espírito cósmico.

O último ponto a ser tratado é sobre a lei universal, ela está diretamente vinculada ao que foi tratado acima, pois Anaximandro possui uma visão bastante catastrófica sobre o mundo.
Ele entende que a criação de um mundo é fruto de uma injustiça, pois a matéria primordial estava no seu estado natural de indeterminação e, então, um movimento perturba o estado.
É tão mais grave quanto mais determinado é a coisa, por isso que ele tinha a ideia de que os infinitos mundos existentes nasciam e se autodestruíam para restituir a justiça universal.
Nesse caso, o sol, que é um desagregador, seria um princípio de injustiça cósmica e os seus frutos, uma injustiça.
Assim, para restituir a ordem das coisas, seria necessário a destruição dos termos desintegrados, em bom português, da humanidade que, nesse sistema, é fruto da injustiça cósmica.
Em resumo, o mundo em que vivemos, está a caminho da desintegração para restituir a ordem.

Isso é bastante catastrófico, mas existe um dado de física muito interessante nessa percepção. Ocorre que o universo se move, naturalmente, para o seu estado de justiça, ou seja, de estabilidade.
Como dizia Anaximandro: de onde provém o nascimento das coisas, ali provem também a sua corrupção por necessidade. Devem pagar, em retorno, a reparação e a pena da sua injustiça segundo a ordem do tempo (Diels, 12A9-11.17 apud FRAILLE, 1976).
Essa regra é entendida como regra universal, válida para a própria existência do mundo em que vivemos, mas também para as coisas dentro do mundo, ou seja, o modo como o espírito cósmico age.
O que sucede de interessante é o pronunciamento da lei da restituição como lei fundante do universo, tal coisa será usada sob outros critérios por Aristóteles para explicar muitas coisas da sua Física.

Em suma, Anaximandro foi o grande sistemático da Escola de Mileto e teve um pensamento altamente coerente, capaz de ser reconstruído com algum esforço e hipóteses.
Mostrou que a matéria primordial era o indeterminado, justificou racionalmente como o indeterminado se torna determinado, explicou a origem dos animais e levou a lei da restituição, que é próprio do direito, para a física de modo a entendê-la como lei grave e universal.”

Texto de Wagner Augusto Moraes dos Santos, Bacharel em Filosofia pela PUC-RJ

Caso você tenha alguma dúvida, crítica, pedido ou sugestão, entre em contato pelo email areafilosofica@gmail.com
Na medida do possível vamos tentar responder a cada um.
Até semana que vem e estudem com moderação!!!

Bibliografia:

FRAILE, G., Historia de la filosofia: Grécia y Roma. BAC: Madrid, 1976.

Tales de Mileto

Água“Tales de Mileto (fl. 585 a. C.) é considerado o primeiro filósofo, além de receber o título de astrólogo, matemático etc.
Ao que parece, ele foi o fundador da escola da Mileto composta por outros dois representantes: Anaximandro e Anaxímenes.
Os fragmentos que se tem de Tales não chegam a preencher mais que uma página de citações.
Por isso, as reflexões que se poderão fazer sobre as frases que se tem dele devem ser assim consideradas em comparação com os demais filósofos do seu período, mais especificamente àqueles que pertenceram a sua escola.

Se se fosse tratar do que se tem de Tales, em objetivo, três doutrinas chamariam a atenção: a matéria primordial ser a água, todas as coisas possuírem alma e, por fim, as coisas estarem cheias de deuses.
Quando se lê o livro dos fragmentos sobre os pré-socráticos do Diels vê-se que referente ao pensamento de Tales só há essas três coisas indicadas mesmo.
O mais revela apenas sobre a sua grande sabedoria e influência nas ciências práticas.
Isso significa que todo o trabalho a ser feito deverá orbitar entorno desses três fragmentos.
No fundo, a pergunta a ser respondida é: qual é o significado filosófico dessas três afirmações Como isso pode ser entendido como filosofia?

A primeira coisa a se entender é que Tales deveria estar dialogando com as pessoas do seu tempo, logo não é absurdo tentar descobrir o que Tales quis dizer com essas palavras a partir do que a escola que o seguiu fez.
O que se sabe é que Anaximandro tratou de muitos temas, mas todos eles se vinculavam diretamente aquelas perguntas a que se propõem os pré-socráticos.
Descobrir o fundamento do movimento e a causa da multiplicidade.
Então, não seria errado supor que Tales é um pensador tentando responder essas duas perguntas, ainda que sem um sistema organizado.

A primeira, e mais famosa, frase de Tales é: Tudo é água.
Aristóteles tenta justificar essa expressão ao dizer que Tales teria observado que o alimento de todas as coisas é úmido; além de ter percebido que as coisas vivas necessitam de água, enquanto as coisas mortas estão secas.
Ora, se a água é o princípio da vida, mas não só de uma vida, mas sim de todas; então pode-se considerar que há um único elemento material que é causa de vida em todas as coisas.
Está aí a tese monista!
Há uma única matéria responsável pela vida em todos os seres.
Isso pode parecer muito abstrato, vamos tentar representar com uma imagem.
Observe que há água na vida do animal e na vida da planta, quando lhes falta água, morre um e morre outro.
Veja que é um mesmo elemento material que garante a vida, embora haja diversidade de seres. Nesse sentido a água é princípio da vida dos seres; por outro lado, quando a vida é perdida a água não é destruída, ao contrário ela se torna princípio de vida para outro.
Afinal, a água que estava em um falecido que secou, agora está em um vivo que dela precisa.

Percebemos que, enquanto Tales afirma tudo ser água, ele, no fundo, está afirmando propriedades da matéria primordial.
Ou seja, está fundando a escola de pensamento que acredita haver uma única matéria primeira que está abaixo de todos os movimentos.
Mas, não somente faz isso, pois à medida que encontra o princípio de todas as coisas segundo a razão ele está, na realidade, fundando a filosofia.
Exatamente, por causa desse requinte de pensamento, parece pouco razoável que Tales realmente acreditasse que a água que é o princípio material de todas as coisas seja a mesma que bebemos quando estamos com sede.
Não parece ser isso!
Se assim o fosse, Tales estaria ignorando a existência do fogo que, em si, nada tem de água. Ocorre que Tales parece indicar que, no fundo, a matéria primordial é como água, ou seja, é uma matéria presente no mundo que permeia todas as coisas sem se alterar.

O segundo ponto interessante é o fato de que todas as coisas sejam animadas, ou seja, possuem alma; a proposta disso procede da ideia de que a alma é algo capaz de produzir movimento. Segundo relatos que falam de Tales, ele teria visto um ímã que fazia com que o ferro se aproximasse daquele material sem o esforço do homem.
Outra possibilidade é que Tales tenha feito acidentalmente uma experiência de eletrostática nas suas andanças.
Para não demorar muito em explicar o que Tales viu, é mais interessante o leitor fazer a experiência:

Pegue um pedaço bem pequeno de papel, depois pegue uma caneta e agite bastante no braço com o bastão da caneta até aquecer.
Em seguida, aproxime a caneta do pequeno pedaço de papel.
Você verá que o papel se aproxima para a caneta!
Veja, a caneta teve a capacidade de mover alguma coisa por si.
Ora, se a alma é algo capaz de produzir o movimento, então a caneta tem alma.

Esse segundo ponto de pensamento, traz outra novidade interessante.
Repare que a afirmação de que todas as coisas possuem alma, não é outra senão inferir que todas as coisas possuem em si um princípio de movimento.

Agora um problema surge: a alma a que Tales se refere é um princípio diferente da água?
Tales está querendo dizer que todas as coisas possuem água e alma ou está dizendo que a alma é um princípio dentro da matéria?
Seria contraditório dizer que tudo é água e depois dizer que existe um segundo princípio, a alma.
O mais correto é entender a alma em Tales como sendo alguma coisa unida a água.
Como a alma é princípio de movimento, a única possibilidade de tê-la unida a matéria primordial é haver um movimento natural na matéria.
Assim, a tese de haver alma nas coisas, no fundo é uma forma de mostrar que a matéria é a causa do movimento.
Seria algo do tipo, é a água que, movendo-se, torna morto o que estava vivo.
Essa tese de haver um movimento natural associado a matéria é extraída não diretamente de Tales, mas sobretudo, do pensamento de Anaximandro, provavelmente discípulo de Tales, que trata o movimento eterno da matéria primordial como algo suposto.
Quando estudarmos Anaximandro, veremos a importância crucial que isso tem para o seu sistema.

A última afirmação feita sobre Tales diz respeito ao fato de todas as coisas estarem cheias de deuses.
Essa afirmação, segundo Aristóteles, diz respeito diretamente a concepção de alma que Tales provavelmente possui.
Para Aristóteles, havia alguns pensadores que defendiam a ideia de que a alma era algo entremeado às coisas.
Isso é bastante razoável considerando ela ser uma espécie de movimento natural na matéria primordial.
Lembrando que a matéria primordial está em todas as coisas, e se a alma é um movimento nela, então esse movimento está no meio de todas as coisas.
Ora, isso poderia sugerir que até os deuses estão no meio disso.
É muito interessante isso, pois esses filósofos, em geral, não são ateus.
Daí, quando dizem as coisas estarem cheias de deuses querem dizer cheias das perfeições dos deuses, ou seja, cheias de ordem.
Essa terceira contribuição é fundamental, pois ela indica o mundo ser ordenado.
Tal percepção é nitidamente cara a Tales, pois por várias vezes fez uso da regularidade do universo para descobrir coisas inimagináveis tais como prever eclipse e usar as estrelas para prever uma grande colheita etc.
Os feitos de Tales como cientista são bastante notáveis, entretanto todas essas descobertas poderiam ser confundidas com sorte, se o universo não tivesse ordem.
Essa ordem é o que parece ser a parte dos deuses nas coisas.
Essa noção de ordem universal a que Tales parece indicar falando dos deuses não deixa de ter reverberações nos autores que o sucedem na escola de Mileto.
Basta ver que Anaximandro e Anaxímenes se preocuparam em definir uma dinâmica para o universo de modo a explicarem o motivo pelo qual as coisas são diferentes.
No fundo, vão buscar as respostas de problemas que permanecem em Tales, como o movimento natural da matéria primordial pode ser capaz de gerar distinção entre os seres?
Isso não foi respondido por Tales.

Em Suma, Tales de Mileto desenvolveu uma filosofia que considerava a água como a melhor representação para a matéria primordial, uma vez que ela é causa da vida de todos os seres.
Essa matéria é animada, de modo que, por si só, é capaz de colocar as coisas em movimento.
Por fim, vê-se que as coisas no mundo estão cheias de deuses de modo que há ordem no mundo, o que torna condição fundamental para o filósofo descobrir verdades perenes.”

Texto de Wagner Augusto Moraes dos Santos, Bacharel em Filosofia pela PUC-RJ

Caso você tenha alguma dúvida, crítica, pedido ou sugestão, entre em contato pelo email areafilosofica@gmail.com
Na medida do possível vamos tentar responder a cada um.
Até semana que vem e estudem com moderação!!!

Bibliografia:
-FRAILE, G., Historia de la filosofia: Grécia y Roma. BAC: Madrid, 1976.