A Tese Pluralista

Após vermos o nascer da filosofia grega com os primeiros pré-socráticos e seus grandes esforços por descobrir fora da mitologia a origem de todas as coisas, nos deparamos com pensadores de notável valor, como Heráclito e Parmênides, que, ainda sob algumas limitações, deram alguns passos a mais no conhecimento metafísico.
Heráclito se destacou por atribuir ao mundo como uma constante relação de devir, ou seja, que a origem das coisas se atibui ao constante movimento no qual a matéria encontra-se submetida.
Parmênides, por sua vez, encontrou no movimento um problema, pois pensava a mudança como uma passagem do ser ao não-ser, e, negando a possibilidade do devir, Parmenides afirmou que a realidade é imutável, incorruptível, eterna, imóvel, homogênea, perfeita, limitada e una.Parmênides x Heraclito
Se a teoria de Parmênides visava por uma parte tentar corrigir o constante movimento que afirmava Heráclito e que, portanto, colocava em risco a estabilidade do ser, por outra, se posicionava em um outro extremo, pois negava por completo a realidade do movimento afirmando uma suposta estaticidade da realidade que, na prática, não existe, pois isso seria atribuir a caracteres que são opostos como idênticos, “petrificando” o real e, ainda que se mostrava uma tentativa de “salvar” o ser, arruinava a realidade dos fenômenos, o que gerou uma aporia posterior.

A partir disso, surgiram outros filósofos que buscavam sair desta problemática de Parmênides e, embora mantendo-se na corrente filosófica naturalista (em grego expresso pelo termo physis), pois ainda defendiam a existência de uma realidade primeira e fundamental, pensaram em uma solução alternativa à corrente monista.
A eles se atribuiu o nome de “pluralistas”, pois começaram a cogitar a possibilidade de mais de uma matéria primordial que tenha dado origem a todas as coisas.

Segundo o Dicionário de Filosofia de Ferrater Mora, o termo “pluralismo” pode ser usado para expressar todo tipo de doutrina que defende a existência de mais de uma realidade ou tipo de realidade (mas como, especificamente, as doutrinas que defendem dois tipos se chamam “dualistas” e para três “trialistas”, “pluralistas” pode ser mais usado para expressar múltiplas realidades) e, ainda que seja um termo usado para designar correntes filosóficas pertencentes à diversas épocas da filosofia moderna e contemporânea, a primeira e mais conhecida doutrina pluralista segue sendo a que iremos abordar, ou seja, a que pertence à filosofia pré-socrática.

Por outra parte, Ferrater Mora ressalta também que, ainda que seja demasiado superficial reduzir a estes pensadores dos séculos VI-V a.C. com um único título de “pluralistas”, tendo em vista que bem variadas foram suas teses, eles, de certa maneira, compartem a mesma ideia de que há um determinado número de elementos ou substâncias que compõem a natureza e que se combinam de diferentes maneiras.

Uma vez resolvido o problema sobre a estabilidade e diversidade dos fenômenos, os pluralistas tiveram que explicar a causa da mencionada diversidade e, para isso, cada filósofo se encargou de indicar uma determinada causa primária do movimento e da mudança.
Nesta explicação acerca das causas, podemos ver no labor filosófico destes pensadores avanços significativos do pensamento filosófico.

Bem, sublinhamos aqui a origem e alguns aspectos comuns dos pré-socráticos pluralistas mas faltou explicitar quem foram, afinal, estes pensadores responsáveis por essa corrente alternativa de interpretação sobre a origem de todas as coisas.
Os mais importantes a ressaltar deste período foram: Empédocles, Anaxágoras, Leucipo e Demócrito.
Aqui neste artigo abordaremos algumas noções introdutórias sobre estes pensadores e ao longo dos próximos textos serão desenvolvidos em maior profundidade.

ElementosEmpédocles (484/481 – 424/421 a.C.)
Nascido em Agrigento, localizado na costa sul da Ilha de Sicília em Itália, se tornou notório por criticar o que afirmava Parmênides acerca do “nascer” e do “perecer” como vir do não-ser ao ser e do regressar ao não-ser, mas sim como em um movimento de agregar e desagregar, compor e descompor de quatro substâncias fundamentais, identificadas por nosso filósofo como água, terra, fogo e ar.
Cada um destes elementos, seguindo os princípios que Parmênides atribui ao ser, é incorruptível, homogêneo, eterno, inalterável e uno.
Assim, é graças à interação destes elementos é que possuímos as substâncias distintas e o devir de Heráclito.
Entretanto, alguém pode perguntar-lhe: como se dá esta relação de agregação e desagregação entre estes elementos?
A resposta de Empédocles é que se dá por meio de duas forças “cósmicas” denominadas amor (em grego philía) e ódio (em grego neîkos).
Graças a estas forças, os elementos se unem e se separam de variadas maneiras, por meio de períodos temporais constantes e fixados pelo destino.
O amor é responsável pela unidade, enquanto que o ódio, pela separação.
Desta forma, Empédocles nos dá também uma pista antropológica, ensinando-nos como somos capazes de perceber esta composição do universo.
Como também somos compostos por aqueles quatro elementos fundamentais então por isso conseguimos reconhecer a presença destes atributos nas coisas, valendo-se do princípio de que o semelhante conhece o semelhante.

Anaxágoras (500 – 428 a.c.)
Natural de Clazômenas, uma colônia da Ásia menor fundada por refugiados de Mileto, é conhecido por ter sido o primeiro a abrir uma escola em Atenas que, ademais, era frequentada por muitos aristocratas da época.
Era objeto de muitas crítica de seus contemporâneos, pois não era dado aos assuntos políticos e ao que dizia respeito à polis, se justificava dizendo que a sua preocupação diz respeito à sua verdadeira pátria, e, ao dizer isso, sempre apontava para o céu.
Como Empédocles, não acredita que nascimento e morte representam a passagem do não-ser ao ser e vice-versa.
Acredita, ao contrário, que se trata de um agregar e desagregar de realidades originárias que ele chamou homeomerias, que são como que sementes de toda a realidade.
A composição e decomposição destas “sementes” se dá por meio de uma inteligência cósmica e extrínseca a essas homeomerias.
Tal inteligência se denomina nous e é, segundo suas próprias palavras, “a mais sutil e a mais pura de todas as coisas e possui pleno conhecimento de tudo e tem força imensa” (Anaxágoras, fr. 12 Diels-Kranz).
Graças a esta sua “sacada” elaborou um importante conceito acerca da ordem do Cosmos, sendo posteriormente reconhecido por notáveis filósofos como Aristóteles, ainda que o mesmo Estagirita o reprova pelo fato de que Anaxágoras não soube chegar à ideia de que a mente ordenadora, o nous, é a causa das coisas.
Platão, em seu diálogo Fédon, igualmente começa a esboçar um elogio a Anaxágoras devido a sua descoberta de uma inteligência ordenadora, mas este esboço logo se desvaneceu porque nosso autor pré-socrático ainda não havia conseguido transcender a dimensão da materialidade e ascender ao mundo imaterial tão apreciado por Platão, que posteriormente abordaremos.
Entretanto, com estas breves considerações já se percebe a importância dada a Anaxágoras pelos autores que lhe sucederam.

Leucipo e Democrito (Século V a.C.):
Uma última tentativa de solução da aporia de Parmênides, surgiu por meados do século V a.C. com a fundação da Escola atomista na cidade grega de Abdera, por meio dos filósofos Leucipo e Demócrito.
AtomoTal escola se centrava na descoberta do conceito de Átomo.
Partilhando das ideias de Anaxágoras e Empédocles sobre o agregar e desagregar para explicar o nascer e o morrer, inovaram quanto ao “quê” se agrega ou se desagrega.
Na realidade, as realidades originárias são um número infinito de partículas, inacessíveis ao alcance da visão humana devido a sua pequenez e volume.
Além de muito pequenos, são indivisíveis, e, por esse motivo, foram nomeados átomos (que significa não-divisível).
Ademais disso, são também incriados, indestrutíveis e imutáveis.
Desta forma, estes átomos, que são como que uma “fragmentação” do ser-uno entendido por Parmênides, se diferenciam uns dos outros pela ordem e posição entre eles, que admitem infinitas possibilidades.
Quanto à possível causa de dispõem os átomos a assumir esta ou aquela forma, os filósofos atomistas se destacaram dos outros pluralistas porque justamente descartaram esta causa, ou seja, a ordem e a posição que estes átomos assumem é efeito do “choque” mecânico e casual entre eles, pois não se encontram submetidas a forças cósmicas.
Além da doutrina atomista, de maneira especial Demócrito também se tornou conhecido por formular sentenças morais que muito recordam a sabedoria grega e que, ao falarmos sobre este autor, valerá a pena mencioná-las.

Portanto, por meio destas ideias iniciais, podemos perceber que nos espera uma valiosa aventura pelos autores pluralistas que, mostrando um sutil avanço teórico dentro da escola pré-socrática, se empenharam notavelmente em responder às inquietantes perguntas que ressonam no coração de todos os homens a respeito da origem e causa da realidade onde estamos inseridos.
É um importante passo para chegar ao apogeu da filosofia helênica por meio de Platão e Aristóteles, onde dentro de pouco tempo chegaremos.
Contudo, enquanto não estudamos a estes autores, vale muito a pena aprender as lições deixadas por seus predecessores.

Texto de Fernando Henrique Cardoso da Silva, Bacharel em Filosofia pela PUC-RJ

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Na medida do possível vamos tentar responder a cada um.
Até semana que vem e estudem com moderação!!!

Bibliografia:
-FRAILE, Guillermo. Historia de la filosofía I: Grecia y Roma. Madrid: BAC, 1976.
-MORA, José Ferrater. Diccionario de Filosofía. Barcelona: Ariel, 2004.
-REALE, Giovanni, Antiseri, Dario. História da filosofia: filosofia pagã antiga. 3 ed. São Paulo: Paulus, 2007. v. 1.

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Zenão de Eleia

Depois de falarmos bastante sobre Parmênides, e antes de entrarmos no grupo de filósofos que tentou dar resposta aos problemas filosóficos que ele criou, devemos olhar para aquele que foi o seu grande defensor, Zenão de Eleia.

Zenão parece nascer em Eleia ao fim do século VI a.C. ou início do século V a.C.
A melhor fonte que temos sobre seu pensamento certamente é a obra Parmênides de Platão, onde este apresenta o jovem Sócrates em uma discussão com Parmênides e Zenão numa ocasião na qual os dois visitam a cidade de Atenas.
O único fundamento histórico então que teríamos seria o chamado Festival Quadrienal da Grande Panetanaias (que basicamente era uma festa que se fazia para homenagear a deusa Atenas).
Parece ainda que foi a primeira vez que a obra de Zenão aparece na cidade de Atenas, ainda que tenha sido escrita alguns anos antes (além do fato de que parecia haver como que uma copia pirata que circulava na época)
Além dessa visita, o único testemunho que temos sobre a vida de Zenão é a controvérsia que teve com um certo tirano da época.

Parece ter tentado depor o tirano e falhado, de modo que acabou sendo preso

Nessa situação, se conta que durante o interrogatório prometeu a esse tirano que lhe contaria os nomes do outros que tramavam contra ele, porem, como alguns eram seus aliados, tinha que fazer isso em segredo.
SuarezQuando o tirano se aproximou para escutar a confissão de Zenão, se diz que este o deu uma mordida tão forte que só foram capaz de o fazer soltar mediante punhaladas.
Um outra versão da história narra que ele cortou a própria língua com os dentes e cuspiu na cara do tirano.
Por último, vale dizer ainda que existem os que falam que Zenão seria filho adotivo de Parmênides.
Sobre sua morte não temos dados.

Da mesma forma que Parmênides não possui uma filosofia tal como a dos demais pré socráticos, isto é, não trabalha o conceito de uma Matéria Primordial em Estado Primordial (a menos, é claro, que se pense que sua cosmologia baseada em Fogo e Noite seja algo do tipo), Zenão também não vai fazer filosofia dessa forma.
Não iremos encontrar em sua filosofia tentativas de explicar como o mais composto veio a ser a partir do mais simples.
Em realidade, podemos ler a obra filosófica de Zenão como uma grande tentativa de defender o pensamento de Parmênides.

De fato, falamos que Parmênides é responsável por realizar um giro na filosofia de sua época, porem não podemos pensar que todos os que tentaram refutar suas teses tenham feito tal como veremos entre os filósofos pluralista.
Na verdade, parece que não faltaram os que, mediante as teses de Parmênides, começaram a o ridicularizar e dizer que sua filosofia era absurda.
Somente tendo isso em vista poderemos então entender não só a importância de Zenão, mas também a força de seus paradoxos.
Assim, já podemos fixar pelo menos um ponto sobre o Tratado de Zenão, isto é, que pretende defender as teses de Parmênides que, apesar de serem muitas, vamos aqui resumir como “o Ser é Uno” e “Há apenas uma coisa”.

Se tais teses eram muitas vezes ridicularizadas e ditas como absurdos, então o grande intento de Parmênides é o de mostrar que afirmar as teses contrárias também geram absurdos.
Isso é importante de ter em mente para que não pensemos que os paradoxos de Zenão pretendem provar as teses de Parmênides, quando, na verdade, são no máximo uma defesa conta seus ridicularizadores.
Ao fim, Zenão apenas está mostrando aos acusadores de seu mestre que eles mesmo possuíam noções sobre a realidade que não eram firmes o suficiente para a explicar.

Assim, pensemos então os argumentos de Zenão como uma forma de dizer o seguinte ao adversários de Parmênides:
“Se você não consegue explicar a realidade do que defende sem cair em absurdos, então também não pode ficar ridicularizando Permênides por ai!”
Imagino então que vocês devem estar curiosos para saber como Zenão fez para mostra pra essa galera que aquilo que eles dizem sempre acabam em absurdo.
[Até porque, também imagino que vocês tenham pessoas em mente nas quais desejam testar esse método]

Então, sem mais delongas, vamos ao famoso Método Dialético de Zenão.
Primeiramente temos que ter em mente que não é por qualquer um que Zenão é considerado o Pai da Dialética, mas pelo próprio Aristóteles.
Esse metodo argumentativo é, basicamente, o intento de mostrar que as teses do adversário possuem consequências falsas ou inaceitáveis, de modo que, caso uma não possa provar que está certo, ao menos consegue provar que o outro está errado.
Mais tarde, tal método vai ser muito utilizado e aperfeiçoado pelo movimento sofista.
Em Zenão, especialmente, vemos muito forte o uso de antinomias.

Ok, mas o que raios é um antinomia?
Ora, uma antinomia consiste em extrai de uma mesma tese consequências mutuamente contraditórias, de modo que a tese aparece como falsa.

Os paradoxos de Zenão acabam então por se parecerem muito com a chamada Redução ao Absurdo (ou Impossível).
Para ficar mais claro, vejamos então como podemos esquematizar a Redução ao Absurdo:

“Tese A” >> implica >> “Tese B”

porem…

“Tese A” >> refuta >> “Tese B”

Assim, temos que a “Tese A” ao mesmo tempo replica e refuta a mesma “Tese B”, de maneira que temos que dizer que a “Tese A” é falsa.

De fato, os argumentos de Zenão não possui essa exatamente essa forma, porem ela fica meio que implícita.
Dessa maneira, temos que Zenão possui paradoxos que não têm a forma de uma Redução ao Absurdo, porem possuem a mesma força.
Também não podemos dizer que a Redução ao Absurdo é criação de Zenão, porem é claro que sua dilalética leva tal forma de argumentação a outro nível.

Vejamos então alguns de seus argumentos para ficar bem claro o que estamos dizendo.

a) Contra a Pluralidade – Sobre o Grande e o Pequeno
Parte do princípio que ao afirmarmos a pluralidade, estamos então pensando em algo formado de muitas unidades.
Ora, pensar numa pluralidades de unidade será, para Zenão, pensar em algo que é, ao mesmo tempo, infinitamente Grande e Pequeno.

-Por que Infinitamente Grande?
Ora, qualquer coisa que existe possui dimensões.
Se possui dimensões, então se pode distinguir uma parte dela.
Pois bem, se essa parte tirada existe, então também possui dimensões (ainda que menores), de modo que dela também se pode tirar uma outra parte.
A outra parte, por sua vez, para existir também deve possuir dimensões, de modo que dela se pode tirar ainda outra parte.
Isso, segundo Zenão, vai ao infinito (pois nunca chegaremos a uma parte sem “sub-partes”, de maneira que falamos de algo constituído em infinitas partes.
Se o que é infinito em partes é infinito em grandeza, então essa entidade da qual falamos é Infinitamente Grande.

-Por que Infinitamente Pequeno?
Sendo a pluralidade formada de muitas unidades, tais unidades, para serem realmente unidade, não podem ser divididas em partes.
Para não poderem ser divididas em partes, todavia, tais unidade não podem possuir dimensões, pois como vimos a pouco tudo que possui dimensões pode ser infinitamente dividido em sub-partes.
Bom, se as unidades não possuem dimensão, então não poderiam acrescentar nada a coisa.
Isso quer dizer que uma pluralidade constituída de muitas unidades sem dimensão também ao todo não possui qualquer dimensão, quer dizer, que é Infinitamente Pequena.

-Conclusão
Pensar uma pluralidade de unidades é pensar em uma situação em uma realidade em que as coisas são tão pequenas a ponto de não terem dimensão e tão grandes a ponto de serem infinitas.

b) Contra o Movimento – Dicotomia (ou Sobre o Estádio)
Zenão tenta provar que não é possível alguém cruzar um Estádio, de modo que assim seja impossível o Movimento.

-Para percorrer qualquer distância, antes precisamos percorrer a metade da distância (1/2).
-Para percorrer metade da distância, antes precisamos percorrer a metade da metade da distância (1/4).
-Para percorrer a metade da metade da distância, antes precisamos percorrer a metade da metade da metade da distiancia (1/8).
-Isso vai ao infinito, pois há um número infinito de metades.
-É impossível percorrer um número infinito de coisas.
-Para percorrer qualquer distância se deve percorrer um número infinito de distâncias, o que é impossível.
-Conclui-se que é impossível percorrer qualquer distância.

c) Sobre o Lugar
-Tudo que existe está em algum lugar.
-Se o lugar existe está em um lugar.
-Se o segundo lugar existe, então também deve estar em um lugar.
-Isso se segue infinitamente.
-Um número infinito de lugares supõe que não exista um primeiro lugar.
-Se não há um lugar inicial donde repousam todos os outros lugares, então é impossível dizer que existam lugares.
-Conclui-se que se existe lugar, então não existe lugar.

Penso que com esses três argumentos tenha ficado um pouco claro o modo como Zenão fazia sua dialética.
Observamos, porem, que em nenhum momento o autor consegue realmente provar que não exista a Pluralidade, o Movimento ou o Lugar, até porque sabemos pelo sentido comum que os três são reais.
Assim, penso que o que Zenão realmente quer dizer é que, ainda que os sentidos afirmem essas três realidades, o modo como concebemos elas é tal que nos leva a grandes contradições, de maneira que não se pode criticar Parmênides por sua filosofia sem antes resolver esses problemas.

Claro que esses não são os únicos argumentos, muito menos que nunca foram refutados.
De fato, parece que a obra de Zenão da qual temos notícias consta de 40 argumentos desses tipo, ainda que alguns outros sejam bem fracos.
Muitos autores vão se preocupar em resolver esses problemas de Zenão, de maneira que essa seja talvez sua grande contribuição para a filosofia.

Finalmente então terminando esse texto, acho que seja bom apresentar algumas das consequências que a atividade filosófica de Zenão gerou.
Por sua causa, os posteriores pré socráticos vão estar sensíveis à questões referentes ao tamanho mínimo da matéria.
Temos ainda que seu método será adaptado e muito utilizados pelos sofistas (como já dissemos), porem também Platão vai ser influenciado por sua forma mais abstrata de argumentar.
Categorias como espaço, tempo e movimento acabaram por serem mais desenvolvidas, afinal, somente com uma precisão muito grande sobre cada uma delas será possível refutar seus argumentos.
Por último, até mesmo no século XX d.C., muitos de seus paradoxos serão fontes de grandes discussões entre matemáticos e filósofos no que diz respeito a natureza das categorias já citadas.
Por último, cabe dizer que mais tarde será Melisso de Samos quem vai pegar toda a filosofia por detrás desses argumentos e vai sistematizar em seu próprio pensamento filosófico, porem disso falaremos mais em algumas semanas.

Texto de José Guilherme Carvalho de Souza, Bacharel em Filosofia pela PUC-RJ

Caso você tenha alguma dúvida, crítica, pedido ou sugestão, entre em contato pelo email areafilosofica@gmail.com
Na medida do possível vamos tentar responder a cada um.
Até semana que vem e estudem com moderação!!!

Bibliografia:
-REALE, Giovanni. Pré-Socráticos e Orfismo: historia da filosofia grega e romana. São Paulo: Edições Loyola, v. I, 1993
-MCKIRAHAN, Richard. A filosofia antes de Sócrates: uma introdução com textos e comentários. São Paulo: Paulus, 2013

Parmênides de Eleia

Voltando então ao nosso estudo, vamos falar hoje do filósofo que é responsável pelo grade giro que vai ocorrer no pensamento filosófico de seu tempo.
A tese pré socrática que até agora chamamos de Monista será colocada a prova de maneira tal que não mais será suficiente para explicar a realidade tal como era o intento dos filósofos até então.
Por causa de seu pensamento, não só veremos o surgimento da chamada tese Pluralista, mas também homens como Platão e Aristóteles buscarão resolver as dificuldades filosóficas que ele criou.
Por causa de seu pensamento, a cosmologia filosófica vai pouco a pouco se configurando numa Metafísica.
Estamos falando de Parmênides de Eleia, um filósofo que pode ser considerados um radical inovador da filosofia.

Seu nascimento parece ter sido por volta de 520 a.C., mas floresce no início do século V a.C.
Será o fundador da chamada Escola Eleática, e seu prestigio e influência são tais que lhe encomendarão um código de leis para a cidade de Eleia que vigorará por mais de 500 anos.

Ainda que já tenhamos afirmado o uso de critérios racionais para o filosofar, Parmênides parece ser o primeiro a fazer um uso de argumentos sistemáticos para provar seus pontos.
Ele usará a boa e velha argumentação dedutiva, pois ela é particularmente convincente na medida em que, caso sejam verdadeiras as premissas e válido o raciocínio, obrigatoriamente se deve aceitar a conclusão como verdadeira.
Além desse instrumento para o filosofar, Parmênides também será o primeiro a analisar filosoficamente noções como “Ser” e “Vir-a-Ser”, Mudança e Movimento, Espaço e Tempo.

Além, da grande força argumentativa que possuem seus argumentos, tendo em vista a situação religiosa da Grécia Antiga, Parmênides apresentará sua filosofia através de um poema onde os grandes temas são apresentados como a revelação de uma deusa.
O poema será composto tal como o faziam Homero e Hesíodo, isto é, no hexâmetro dactílico.
No século VI d.C, Simplício copia o poema quase inteiro no seu comentário a física de Aristóteles, de modo que chegou até nós a maior parte da obra.
Ainda que o valor poético seja um pouco limitado, até porque Parmênides não era poeta, tal obra é um monumento de importância para o estudo da filosofia grega.
Parmênides organiza seu poema em três parte.
A primeira é um prólogo onde a deusa anuncia o conteúdo das duas partes seguintes: “o inabalável coração da Verdade persuasiva” e “a opinião dos mortais, nas quais não há verdadeira confiança”.
Para simplificar vamos simplesmente chamar essas duas parte de Sobre a Verdade e Sobre a Opinião dos Mortais (tendo sempre o cuidado de não confundir com outras obras de outros filósofos que realmente levaram nomes como esses).

Sobre a Verdade parece ter chegado até nós intacta, de maneira que se configura no mais extenso fragmento contínuo de um dos pré socráticos. Já Sobre a Opinião dos Mortais parece que possuímos apenas alguns pedaços onde, ademais de falar do tema proposto, apresentam uma cosmologia e uma cosmogonia e outras questões que já era comuns entre os filósofos anteriores.

O prólogo:
Parmênides é apresentado como um mortal que recebeu de um deusa inominada (talvez Perséfone) um revelação que deve levar ao mundo.
Essa parte do poemas possui várias imagens que, além de não serem exatamente o objeto do nosso estudo, ainda são fontes de infindáveis discussões entre especialistas no assunto.
Deixando de lado então todas essas interpretações sobre imagens (ainda que seja possível que nas próximas semanas apareça um anexo sobre isso), vamos ao que realmente importa.

A deusa fala o seguinte:
sobre os únicos caminhos de investigação que são os únicos a serem pensados: um, ambos que <é> e que “não é o caso que <não seja>” é o caminho da Persuasão, pois acompanha a Verdade; o outro, ambos que “não é” e que “<não é> é certo”, isso, com efeito, declaro-te ser um caminho inteiramente impossível de ser investigado: pois não poderás conhecer o que não é (pois não se pode fazê-lo) nem o podes enunciar

Pra simplificar (até porquê não gostaria que ninguém desistisse depois dessa citação fora de real) vamos tentar entender os dois caminhos com os seguintes nomes: caminho do “que é” e caminho do “que não é”.
Em outras palavras, o caminho do estudo do “Ser” e do “Não Ser”.

Ora, investigar o “Ser” e o “Não Ser” pode ainda significar duas coisas: o método de averiguar uma alegação de que algo “é” ou “não é” ou o método de investigar o necessário para que algo “seja” ou “não seja”.
De que maneira entenderemos isso?
Antes de responder vamos a outras considerações…

Alguém se perguntar:
Se é o estudo sobre aquilo que é e aquilo que não é, então por que não simplesmente se diz que é o estudo sobre o que é verdadeiro e o que é falso?
Muito bem, justo…

Se levarmos em conta apenas o que diz respeito ao “que é”, fica até interessante pensar na noção de Verdade.
A palavra grega Aletheia (ἀλήθεια), que traduzimos com Verdade, também pode ser traduzida por Realidade, e de fato as consequências do “que é” serão mais tarde tomadas como critérios para que algo seja real (mas isso deixamos para daqui a pouco).

O problema, em realidade, é quando vamos ao “que não é”.
Para Parmênides, tratar desse conceito é tratar de algo muito mais radical do que aquilo que simplesmente é falso.
Além de ser “um caminho totalmente impossível de ser investigado”, tal afirmação é completada por “não o podes enunciar”.
Pois bem.
Imaginemos algo falso, por exemplo, 2 + 2 = 5.
De fato, eu não posso conhecer que 2 + 2 = 5 um vez que isso é falso, porem eu o posso anunciar (de fato, acabei do o fazer).
Assim, temos que aquilo que sequer se pode enunciar é algo que vai muito além do falso que não se pode conhecer.
Com isso, percebemos que o caminho do estudo do “Não Ser” está em profunda conexão com o próprio “Não Ser”, porem não é capaz de estudar diretamente o “Não Ser”, pois se o “Não Ser” não é, então não se tem nada para investigar.
Essa afirmação ainda no permite intuir que existe uma concepção de linguagem por detrás de Parmênides que indica que as palavras devem referir-se à coisas, de modo que se digo algo sobre o “Não Ser”, então não estou dizendo nada.

Ainda no prólogo, Parmênides vai dizer que o “Não Ser” se quer pode ser pensado.
Nesse caso, devemos ter em mente que a palavra Noein (νοεῖν), que se traduz por “ser pensado”, indica no vocabulários filosófico da época o tipo mais forte e pleno de conhecimento, de modo que não significa apenas “pensar algo”, mas conhecer plenamente, entender, compreender.
Isso então conduz a entendermos o porquê da deusa dizer que tal caminho é incoerente e impossível de ser verdadeiramente investigado, a menos, todavia, que não se pretenda investigar o próprio “Não Ser”.
Tendo isso em vista, podemos tentar entender tal caminho não como a investigação do “Não Ser”, mas como justamente o método que investiga o necessário para que algo não seja.
Dessa forma, analogamente dizemos que o caminho do “Ser” é a investigação do que é necessário para que algo realmente seja.
Com isso, respondemos a pergunta que mais acima ficou no ar e damos continuidade a nossa investigação.

Focando então um pouco no caminho do “Ser”, podemos dizer que essa investigação se dá em duas frentes.
A primeira vai investigar o que está envolvido em afirmar que algo “é”, de maneira que não importa muito os distintos modos de “Ser”, mas sim as propriedades de qualquer coisa que “é”; já a segunda frente, tendo em vista o que foi descoberto na primeira, pretende descobrir o que significa dizer que algo é, quero dizer, o que é “Ser” exatamente.
Ao largo da História da Filosofia se foram dando várias respostas para o que significa “Ser”, porem não sabemos se já Parmênides as tinha em mente.

Dai a coisa fica interessante.
Depois de falar que só existem dois caminhos, a deusa apresenta um terceiro, o caminho da Opinião dos Mortais.
Para ela, o mortais seriam aqueles que pensam que aquilo que “é” tanto pode ser o mesmo como não o ser.
No fundo, isso é já a crítica à confiança nos sentidos, pois logo irá criticar a noção de Mudança, mas vamos com calma.

Se seguirmos o discurso da deusa, seremos levados a concluir que aqueles que pensam que o que “é” tanto pode ser o mesmo quanto pode não o ser também vão acabar afirmando que as coisas que “não são” são.
Tal afirmação não é bem explicada no prólogo, de maneira que parece que a deusa está fazendo uma tempestade em copo d’água, porem entenderemos o que isso quer dizer agora quando formos investigar como se dá o Caminho da Verdade.
Por enquanto, basta sabermos que essa é a primeira que vez que faz uma contraposição entre a razão e o sentidos, e mais, é indicado dar preferência à razão.

Sobre a Verdade:
Como já dissemos, essa é a mais longa escrita contínua de um pré socrático.
O fragmento consta de 61 versos, dos quais os primeiros 49 são o Sobre a Verdade e os demais uma parte de Sobre a Opinião dos Mortais.
Versos 1-5: afirma que somente resta o Caminho do Ser a ser considerado, afinal, é o único verdadeiro e digno de confiança.
Diz ainda que o “Ser” possui sinais que devem ser aprendidos.
Esses sinais são como que os atributos do “Ser” que apontam para sua correta interpretação.
Eles são: não gerado, imperecível, inteiro, único, constante, completo, coeso, uno.
Versos 6-21: o “Ser” é Não Gerado e Imperecível.
Ora, para admitirmos que o “Ser” foi gerado, então não podemos pensar em nenhum “que é” antes dele, de modo que teria que ser gerado de um “que não é”, ou seja, do “Não Ser”.
Se, todavia, entendemos que o “Não Ser” não é, então não podemos imaginar que ele pode dar origem a qualquer coisa, muito menos que possa nutrir o crescimento de algo.
Além disso, se afirmamos que foi gerado em determinado momento do tempo, sugerimos também que existe algum razão para que tenha sido gerado naquele momento e não em outro.
Afirmar isso implicaria em também aceitar que existe alguma condição do “Não Ser” para que seja gerado em determinado momento e em outro não, de modo que conferimos ao “Não Ser” um atributo.
O problema é que como “Não Ser” não é, então sequer podemos dizer que possua qualquer atributo, pois se o possui já não é algo “que não é”, mas algo “que é”.
Além disso, temos o velho princípio de que “do Nada, Nada se tira”, de maneira que é absurdo que seja gerado o “Ser” do “Não Ser”.
De maneira análoga Parmênides vai afirmar que da mesma maneira que é impossível afirmar que o “Ser” foi gerado, também não é correto pensar que ele possa perecer.
Por último, o autor vai contra a possibilidade que algo no mundo ainda possa “Vir a Ser”, pois se não é agora, então é “Não Ser” e dai segue o que acabamos de dizer.
Versos 22-25: o “Ser” é Indivisível e Coeso.
O “Ser” deve ser pleno de “Ser”, ou seja, não pode ser nem mais nem menos aquilo que é, quer dizer, ele é Todo Inteiro.
Se admitíssemos diferenças de partes dentro do “Ser”, então algo nele não seria “Ser”, mas “Não Ser”, e isso é absurdo.
Ora, aquilo que é Todo Inteiro supôe-se também ser Indivisível.
Parece ainda que essa indivisibilidade é sinonimo de coesão, de maneira que afirmar que o “Ser” é Indivisível por ser Todo Idêntico é afirmar também que ele é Coeso.
Versos 26-28: o “Ser” é Sem Começo nem Fim.
De fato é uma consequência de ser Não Gerado e Imperecível, não faz falta desenvolver muito esse tema.
Versos 29-31: os Grilhões da Necessidade
Tais versos costumam ser interpretados pensando no “Ser” como Imutável (o que permanece o mesmo), Imóvel (o que permanece no mesmo) e Único (o que permanece por si mesmo).
Apesar disso, também se pode pensar nesses grilhões como uma restrição que impede que algo se mova em qualquer direção.
Falando então do “Ser”, tal restrição pode sugerir que ele não pode jamais se afastar de sua natureza, isto é, ser plenamente.
Versos 32-33: o “Ser” é Completo.
Depende da noção do “Ser” como o que é planamente, bem como da dicotomia que existe entre o “que é” e o “que não é”.
Não é difícil inferir que qualquer coisa que não seja completa forçosamente deve ser dita como carente de algo.
A única coisa da qual o “Ser” pode ser carente é do “Não Ser”.
Se segue que se ele possui carência, então possui “Não Ser”, de modo que deixa de ser pleno.
Ora, deixar de ser pleno é deixar de ser o “Ser”, tal como apresentado nos versos de 22 a 25.
Assim, se o “Ser” não é completo, então ele mesmo não é “Ser”, mas “Não Ser”.
Versos 34-41: o “Ser” é o objeto do Pensamento.
Tanto o Pensamento quanto a linguagem dependem do “Ser”, e isso se dá em três sentidos:
-ele é a condição necessária do Pensamento;
-ele é o objeto de qualquer pensamento;
-é a causa ou motivo de todo pensamento.
Basicamente, dizemos tudo aquilo que pensamos, seja verdadeiro ou falso, deve ser motivado, sobre ou referido a algo “que é”.
Mais tarde vamos voltar a essa relação entre Ser e Pensamento (ainda que eu não gostaria de o fazer, pois sei que vou criar polêmica).
Versos 42-49: Metáforas Espaciais
Ser EsfericoÉ algo que ficou relativamente famoso em Parmênides e costuma ser transmitido como se o filósofo tivesse afirmado que o “Ser” tem forma esférica.
Pois bem, além de não aparece esse “sinal” no início do seu texto, parece ser um atributo por demais específico para pensarmos que Parmênides realmente quis dizer que o “Ser” é como uma esfera.
De fato, parece que a melhor maneira de interpretar isso pensado em se tratar de uma explicação metafórica.
O “Ser” é comparado (não identificado) com uma esfera de massa bem torneada, pois é completa em todas as direções, tem o centro equidistante dos diversos pontos; é uniforme em seus limites etc.

Há ainda três atributos que, ainda que citados no início do poema, acabam por não serem desenvolvidos: o “Ser” é Único, Uno e Constante
Apesar de não serem desenvolvidos, podemos vislumbrar o que Parmênides quis dizer com cada um deles a partir sobro o modo como entendia os demais.
-Costante: literalmente significa “aquilo que não estremece”.
Como a palavra só aparece uma vez, fica difícil tentar afirmar que signifique Imóvel ou Imutável (sobre esses “atributos” vou falar logo mais…).
Assim, se levarmos em conta a noção do “Ser” como pleno, podemos ler “aquilo que não estremece” como algo calmo e ao mesmo tempo firme, ou seja, como Completo.
-Único/Uno: certamente uma das teses mais associadas a Parmênides é a de que há apenas uma e única coisa.
Ainda que Melisso argumente claramente sobre isso, não temos dados para afirmar que o “Ser” Uno e Único de Parmênides suponha em sua filosofia que haja apenas uma e única coisa.
O fato é, Parmênides não desenvolveu essa ideia.
Desse modo, tudo que nos resta é olhar para o que já sabemos e tentarmos entender como esses atributos podem se encaixar na imagem que já temos do “Ser” de Parmênides.
Ora, “Ser” indica qualquer coisa que seja independente do modo como é, então é óbvio que o “Ser” é uno, afinal, ainda que existam muitas coisas que são de distintos modos, no simplesmente fato de ser não há distinção, quer dizer, possuem uma unidade.
Dessa maneira, pensamos que o “Ser” com Único e Uno está em total acordo com o “Ser” como Indivisível, Pleno, Coeso etc.

Para terminar o que diz respeito ao Sobre a Verdade, penso que podemos olhar para atributos muito falados do Ser de Parmênides, mas que por algum motivo não aparecem no início dos versos.
Eles são a Imutabilidade e a Imobilidade.
Por um lado, se lembrarmos dos “Grilhões da Necessidade” e do “Ser” como Pleno, temos então que ele simplesmente não pode se mover ou mudar de sua condição de “Ser”.
Apesar disso, logo depois que Parmênides enumera os sinais do Ser, no verso 5 ele fala algo que dá o que pensar.
Parmênides diz que o “Ser” é aquilo que “é agora, não foi nem será”…
Muitos interpretes entendem que a deusa está falando que o “Ser” não pode ser nem no passado e nem no futuro, mas somente no agora.
Ora, tomemos então a ausência de passado e futuro como consequência do “Ser” como “é agora”, Inteiro, Uno e Coeso.
Inteiro e Coeso são formas de expressar o Pleno, ou seja, com o fato de que não se relaciona com o “Não Ser”.
Sendo o Passado e o Futuro noções que envolvam o “Não Ser”, então realmente não podem ter qualquer relação com o “Ser”.
Assim, não se trata de que o “Ser” não pode existir no Passado ou no Futuro, mas que são simplesmente eliminadas, quer dizer, não são noções compatíveis com o Caminho do “Ser”.
Tendo então em vista essa abolição de Passado e Futuro, temos como consequência a impossibilidade de deslocamentos e processos de mudanças.
E com isso podemos voltar algumas linhas para a crítica da deusa à opinião dos mortais, afinal, se eu creio na Mudança, então creio que aquilo que não era pode vir a ser e o que era pode vir a não ser mais.
Assim, faço o que a deusa disse ser estupidez, penso que uma coisa pode ser e não ser, ou melhor, que o “Não Ser” pode se converter em “Ser”.

Sobre a Opinião dos Mortais:
Como já sabemos não possuímos tudo que poderíamos ter sobre essa segunda parte da obra de Parmênides, porem, no mesmo fragmento donde temos Sobre a Verdade, temos pelo menos mais 12 versos dos quais podemos tirar temas bem interessantes, bem como outros fragmentos menores achados em outras obras que não a de Simplício.
Versos 50-52: a deusa reafirma o quão enganosa pouco confiável é a opinião dos mortais e a apresenta numa cosmogonia dualista baseada em entidades nomeadas como Fogo e Noite.
Disso surgem para nós 3 problemas, ou melhor, 3 perguntas: “por que é um explicação enganosa”; “quem explica assim?”; “por que a deusa apresenta tal explicação se é enganosa?”
a) A primeira questão não é difícil, pois pode ser dita enganosa na medida em que tal explicação não satisfaz os critérios de “Ser” estabelecidos em “Sobre a Verdade”.
Se algo procurar dar conta de explicar algo que não se enquadra nos critério do “Ser”, então está explicando o “Não Ser”, ou melhor, não está explicando Nada..
b) Já a segunda questão é mais obscura, afinal, não temos relatos de ninguém que tenha feito uma cosmologia como essa.
c) A própria deusa resolve isso quando prometa explicar o mundo tal como aparece aos sentidos para que se possa resistir a todas as teorias que pretendam justificar as opiniões enganosas dos homens.
Além disso, se afirma que essa seria a melhor das explicações possíveis segundo os sentidos, de modo que se ela mesmo é enganos, as demais que são inferiores também o devem ser.
Versos 53-55: seriam os fundamentos das opiniões dos mortais.
Todas as coisas se reduzem ou dependem à dualidade básica de Fogo e Noite ou às suas interações.
A dificuldade aparece quando a deusa fala que os defensores dessa cosmologia “estabeleceram duas formas para nomear em seus juízos das quais uma não é certo nomear – e nisso perderam-se…”, a partir disso não se realmente se trata de um dualismo ou de outra coisa.
Versos56-61: tal como o “Ser” possui seus atributos aos quais a deusa chama de sinais, também os dois opostos da cosmologia da opinião dos mortais possuem seus próprios sinais, a diferença é que são sinais opostos.
-Fogo: Suave, Brilhante, Leve, Quente, Seco…
-Noite: Densa, Escura, Pesada, Fria, Úmida…
Cada um dessas princípios são idênticos a si mesmos, mas totalmente distintos entre si.
Isso significa que pela primeira vez alguém fala de verdadeiros elementos, quer dizer, formas básicas diferentes da matéria sempre preservam sua identidade, de modo que podem mesclar-se para formar outras substâncias, mas nunca se transformam uma na outra.
Aqui o maior fragmento contínuo que possuímos de um pré socrático acaba, porem, como já foi dito, há ainda algumas peças que pode iluminar nossa pesquisa e nos fazer chegar um pouquinho mais longe.

Num outro fragmento se afirma que o mundo dos fenômenos é cheio de coisas compostas desses dois princípios, isto é, que “tudo está pleno de luz e sombra ao mesmo tempo”.
Isso quer dizer ou que tudo é composto desses dois princípios ou que o próprio cosmos está todo repleto destes dois elementos.
Podemos perceber que a cosmologia do qual fala a deusa não depende tanto do fato de haver um dualismo, mas do fato de que existe oposição entre eles.
Assim, essa situação de oposição é justamente o que faz com que essa cosmologia possa ser superior a todas as outras (ainda que seja o que mais tarde vai a conduzir ao erro).
Se os de Mileto falavam de uma única entidade que da origem a pluralidade das coisas, para Parmênides (que não aceita que um entidade com determinadas características possa dar origem a algo com características opostas) se trata mais bem de características (não de entidades) que se misturadas em determinada proporção geram as entidades que possuem características semelhantes.
Assim, tal explicação por seu relativamente simples, mas ter bastante êxito, vai ser a melhor cosmologia possível.

Por fim, nos resta saber em que ponto essa explicação se perder.
Ainda que separados os dois princípios consigam explicar e satisfazer as exigências para que sejam considerados como “Ser”, eles violam dois pontos importantes de Sobre a Verdade: o “Ser” é Uniforme e Imutável.
Se as distintas entidades do cosmos podem ser distinguidas justamente pelas diferentes proporções de Noite e Fogo que possuem, então não se trata de algo Coeso no sentido de Sobre a Verdade, quer dizer, Todo Idêntico (sem nenhum aspecto mais e de modo algum inferior).
Além disso, justamente por dar conta da Mudança, tal cosmologia é anulada tendo em vista Sobre a Verdade, afinal o “Ser” é Imóvel e Imutável (é agora!), mas o cosmos proposto é cheio de Mudança e Movimento.
Assim, temos que o monismo falha por não explicar bem a mudança e o dualismo por conseguir a explicar.

Já chegando ao fim , penso que podemos então fazer algumas observações finais.
Em primeiro lugar temos que a interpretação proposta sobre a filosofia de Parmênides não o coloca como alguém contrário a Cosmologia, mas como um filósofo que estabelece critérios que todos devem seguir para não caírem em contradição em relação ao mais importante princípio apresentado pela deusa: O “Ser” é e não pode não ser e o “Não Ser” não é e não pode ser.
Entendemos então o dizer de que ele causou um giro na filosofia, justamente pelo fato de que seu princípio sobre o “Ser” invalida o que até então tínhamos como a Tese Monista.
Esta tese, de maneira bem geral, pretende explicar a realidade a partir de uma matéria primordial em estado primordial una e total, de modo que por transformações ela dá origem ao mais composto, a saber, ao mundo.
O problema é que se naquele estado primordial ela é una e total, então ela se identifica com o “Ser”.
Assim, no momento em que ela sofre algum transformação, temos que ela deve se tornar algo que não era, porem como ela se identifica com o “Ser”, então ela passa a não Ser.
Espero que o esquema a seguir ajude a entender essa dinâmica:
a)
-Matéria Primordial em Estado Primordial = Una e Total
-Una e Total = Ser
-Matéria Primordial em Estado Primordial = Ser
-Não Matéria Primordial em Estado Primordial = Não Ser
b)
-Matéria Primordial em Estado Primordial >>>transformação>>> Não Matéria Primordial em Estado Primordial
-Ser >>>transformação >>> Não Ser
Com isso, tendo em conta o que disse Parmênides, vemos que a tese monista realmente supõe uma passagem de “Ser” a “Não Ser”.

Além de Parmênides fazer com que a filosofia grega começasse a se tornar sistemática e aumentar o papel dos argumentos racionais na exposição das teorias, toda a filosofia posterior aparece como uma resposta dos demais filósofos às indagações de Parmênides.
Com isso, a importância de seu pensamento fica clara e podemos dar esse assunto como terminado.

[Anexo]
Como eu disse, vou falar rapidamente da problemática que existe entre Ser e Pensar em Parmênides.
Resolvi colocar isso com anexo tendo em vista que não é uma das explicações mais ortodoxas que eu já vi sobre o tema.
Assim, se você apenas queria aprender sobre Parmênides, tal anexo não te faz falta, porem é bastante interessante.

Existem apenas dois versos de Parmênides onde o autor identifica Ser e Pensar.
A filosofia posterior vai afirmar com total certeza que ele o faz literalmente, porem existe alguns problemas.
– o primeiro é que de tudo que diz Parmênides só dois versos propõem isso, de maneira que no restante de sua obra não se faz menção a essa identidade.
O  máximo que se faz então, é ler Parmênides tendo essa identificação de Ser e Pensar como chave de leitura, porem isso é quase que um interpretação já condicionada por essa ideia.
– os fragmentos que fazem essa identificação podem facilmente ser traduzidos em outro sentido.
Onde diz que “Pois pensar e ser são o mesmo” podemos ler como “Pois a mesma coisa pode ser pensada quanto pode ser”.
Onde diz que “O mesmo  é o pensar e aquilo em função do que é o pensamento” podemos ler como “Aquilo que se deve pensar é o mesmo que aquilo em razão do que o pensamento é”.
-há a ausência em toda a tradição filosófica anterior em considerar o Pensamento como uma Entidade; e a abordagem filosófica de Sobre a Verdade vão contra que Parmênides possa ter feito tal identificação.

O mais provável é que Parmênides não tenha respondido tal questão, ou melhor, sequer a tenha proposto.
Assim, não espero ganhar pessoas para essa causa, muito menos ir contra os grades especialistas que afirmam com total segurança que essa identificação existe em Parmênides.
Minha única intenção aqui é apresentar para vocês leitores um interessante teoria que não se encontra facilmente em manuais ou em textos sobre o assunto.

Texto de José Guilherme Carvalho de Souza, Bacharel em Filosofia pela PUC-RJ

Caso você tenha alguma dúvida, crítica, pedido ou sugestão, entre em contato pelo email areafilosofica@gmail.com
Na medida do possível vamos tentar responder a cada um.
Até semana que vem e estudem com moderação!!!

Bibliografia:
-REALE, Giovanni. Pré-Socráticos e Orfismo: historia da filosofia grega e romana. São Paulo: Edições Loyola, v. I, 1993
-MCKIRAHAN, Richard. A filosofia antes de Sócrates: uma introdução com textos e comentários. São Paulo: Paulus, 2013