Diógenes de Apolonia e a Filosofia Eclética

“Depois de termos vistos um pouco sobre o que pensavam os filósofos pluralistas, poderíamos já seguir o nosso caminho rumo ao sofismo e ao pensamento socrático.
Apesar disso, o fato de estarmos fazendo um estudo acadêmico donde existe um programa a ser cumprido num tempo mínimo nos permite ir um pouco mais devagar e olhar para figuras que muitas vezes só são estudadas como uma breve nota de rodapé.
Esse seria o caso da última geração do filósofos pré socráticos que a historiografia filosófica moderna chama de ecléticos.
A figura desse movimento na qual vamos nos centrar será Diógenes de Apolônia, porem, antes de entrar no autor, me parece interessante entender um pouco em que consistiria a filosofia eclética.

Ecletico
De modo geral, a terminologia está bem, afinal, eclético nos remete à mistura de elementos de linhas que a princípio seriam distintas.
Uma pessoa de gosto musical eclético, por exemplo, é um fulano que topa escutar tanto Rock quanto Sertanejo.

De maneira parecida entendemos a corrente pré socrática eclética.
São filósofos que trataram de ir extraindo diversos elementos de diferentes pensadores anteriores na tentativa de fazer uma mescla disso tudo.

[Vejamos um exemplo, este blog]
Podemos dizer que os textos que apresentamos aqui são bastante ecléticos.
Não temos a pretensão de trazer algo super original em matéria de história da filosofia, mas apenas de viabilizar conteúdos de maneira um pouco mais simples para que pessoas que não são especificamente dessa área possam se aproximar dela e ver como faz bem o estudo dessas coisas.
Vemos o que dizem alguns dos especialistas no assunto, pegamos o que achamos conveniente de suas obras e tentamos apresentar tudo junto de maneira simples e sistemática (ainda que nem sempre saia assim).
[Voltando ao texto]

Um primeiro problema dessa abordagem é que corre o perigo de jamais conseguir produzir algo original.
De fato, é justamente por esse motivo que muito dos pensadores dessa linha são deixados um pouco de lado ao longo da história da filosofia.
Parece que o que faltou a esses indivíduos foi a capacidade sintética de um santo Tomás de Aquino que não só uniu elementos platônicos com elementos aristotélicos, mas sintetizou essas duas filosofias e foi capaz de apresentar ao mundo uma coisa totalmente original.
Mas deixemos pra lá, afinal, ainda falta muito (mas muito mesmo) para chegar na Idade Média.

Além dessa crise de originalidade, tais filosofias tinham um outro problema.
A maioria desses autores não compreendeu bem os problemas apresentados por Parmênides e, consequentemente, acabaram por ter em pouca conta as soluções apresentadas pelos pluralistas.
Há então uma certa tendência monista onde a afirmação de unidade da Matéria Primordial (e também sua unicidade) é o critério para aceitar ou não elementos filosóficos dos pensadores anteriores.
Em outras palavras, é até possível que aceitem algo que diz um pluralista, mas somente na medida em que se encaixe com o princípio de unidade da Matéria Primordial

Com isso, podemos pensar o movimento eclético como marcado por duas características.
A primeira é a junção de elementos de distintos outros filósofos sem chegar a uma síntese original; a segunda se trata da preferência que deram à filosofia monista.

Temos então que é válida a tentativa de mediar o pensamento de autores mais antigos, porem a maneira como isso foi feita acabou que conduzir a teses filosóficas que já pelo antigos seriam consideradas como ultrapassadas.
Isso, contudo, não quer dizer que não sejam importantes dentro da história da filosofia.
Um deles, Arquelao de Atenas, é dito como mestre de Sócrates, de maneira que tem uma importância considerável na história da filosofia.

Na minha opinião, a melhor forma de pensar nesse grupo de filósofos ecléticos seriam como discípulo e mestres, quer dizer, como homens que herdaram filosofias e as trabalharam (ainda que sem criar muita coisa nova), de modo que foram capazes de as transmitirem de maneira mais clara e organizada que seus próprio criadores.
Dentre esses caras, um deles parece ter sido o mais eficiente nesse trabalho, de modo que será justamente sobre ele que vamos investigar agora.

Diógenes é um filósofo que viveu no século V a.C. do qual Teosfrato afirma ter sido um dos mais jovens entre os pré socráticos.
É oriundo de um colônia de Mileto chamada Apolonia, na costa do Mar Negro.
Alguns autores remontam a fundação dessa cidade à Anaximandro.
Podemos dizer com alguma tranquilidade que foi o mais conhecido e influente dentre os filósofos ecléticos da época, de modo que seu pensamento vai ecoar na poesia de Eurípides e na obra “As Nuvens” de Aristófanes.
Este último testemunho é interessante devido à sua data.
Quando Aristófanes escreve sobre Diógenes, o faz como que em uma paródia.
Pois bem, o que passa é que não era muito comum fazer paródias com pessoas mortas, de maneira que podemos supor que em 423 a.C., quando “As Nuvens” foi lançado, Diógenes ainda estava vivo.
Como sempre, falar de datas é bastante complicado, porem, para facilitar que nos situemos, vamos pensar em seu nascimento como em torno de 460 a.C. e seu florescimento em 425 a.C.

Medico.jpg
Ademais de influenciar esses autores, temos que seus escritos foram muito importantes para posteriores escritos médicos.
De fato, há a suspeita de que ele mesmo tenha sido médico uma vez que Galena cita um certo Diógenes (do qual não temos certeza se corresponde ao nosso) como o autor de um tratado sobre doenças, suas causas e remédios.
Além disso, temos que o fragmento mais extenso que temos de suas obras é justamente uma detalhada explicação das veias do corpo humano.

Por último, antes de entrarmos em seu pensamento filosófico, temos que seu estilo de escrita é muito parecido ao de Anaxágoras, isto é, em prosa simples e seria.
Ainda que isso facilite um pouco sua leitura, a dificuldade ainda existe e surge pelo fato de que não sabemos qual é a ordem exata de seus fragmentos, entretanto, acabamos por contar com as convenientes indicações de Diógenes Laercio (outro Diógenes).

Sua filosofia, como já podemos imaginar, é ao mesmo tempo uma volta a alguma forma de monismo e a acepção de certos elementos que não fossem contra a unidade da Matéria Primordial.
Apesar disso, diferente dos primeiros pensadores, não começa sua filosofia falando da Matéria Primordial em estado Primordial, mas sim fazendo algumas considerações que poderíamos chamar de Metafísicas.
Tais considerações justificam, por exemplo, o porquê de rejeitar o pluralismo e voltar ao monismo.
Vejamos como!!!

Caso vocês não tenham esquecido, o pluralismo supõe uma Matéria Primordial em estado Primordial que é heterogênea.
O que acontece com pensar em algo heterogêneo é que acaba se supondo a existência de elementos distintos que, sendo todos eles princípio, são absolutamente distintos por natureza.
Mediante essa observação, Diógenes vem com o que parece ser um dos pontos originais de seu pensamento.
Para o autor, quando duas coisas são absolutamente distintas por natureza, não é possível qualquer interação entre elas.
Isso não significa somente que esses elementos não podem se afetar, mas também que não é possível sequer que haja mistura de um com o outro.
Negando as misturas, Diógenes acaba também por negar uma das noções mais importante da filosofia pluralista para explicar a mudança e o movimento, a noção de composição/separação.
Em outras palavras, Diógenes fala do pluralismo como algo inviável pelo fato de pensar que elementos radicalmente distintos não podem nunca interagir entre si.

Tal princípio, além de negar o pluralismo, nos leva ainda à outra conclusão.
Para explicar como pode haver mudança e movimentos, isto é, interação entre as coisas plurais, a única explicação seria supor que elas não são absolutamente diferentes, mas apenas distintas modificações de uma mesma Matéria Primordial.
Com isso, Diógenes volta para aquela Matéria Primordial em Estado Primordial dos primeiros pré socráticos que é concebida como una e totalmente homogênea, de maneira que tudo mais deriva dela por alteração ou transformação.

[Tal tese, obviamente, vai totalmente em contra ao pensamento de Parmênides, mas é como eu disse, tais filósofos não parecem o estar levando muito em conta]

Essa proposta de que todas as coisas são modificações de uma substância básica é o que chamamos de “Monismo Material”.
Na verdade, muito do que entendemos por monismo hoje e consequentemente atribuímos aos milesianos, acaba que sabemos mais por essa interpretação de Diógenes do que pelos próprios fragmentos dos autores.
Isso só mostra como talvez estejamos certos em pensar nesses caras como homens que herdaram e transmitiram de modo bastante claro e ordenado o pensamento dos antigos.

Outro ponto que o autor trata é sobre a Inteligência ordenadora.
Segundo Simplício, Diógenes afirma que há Inteligência na Matéria Primordial, isto é, além de homogênea, ela também é inteligente.
Realmente não se trata de uma teoria nova, afinal, já havíamos visto isto em Anaxágoras, porem Diógenes realiza como que uma exposição sistemática dessa Inteligência que é digna de nota.
Ao observar como as coisas no Mundo estão bem dispostas, Diógenes fala de uma Inteligência ordenadora.
É interessante que o autor olha para os mesmo eventos que alguns anos antes observou Heráclito para afirmar o lógos ordenador, isto é, os ciclos do anos, o tempo atmosférico, os ciclos das chuvas etc.
Mais uma vez observamos na prática em que consiste uma filosofia eclética, e mais, de que maneira Diógenes se sobressai no modo como junta os elementos dos distintos autores.

Se Anaxágoras parecia utilizar a “Mente Cósmica” quase como um curinga em sua filosofia, Diógenes fala dela a partir de observações típicas do pensamento de Heráclito.
Isso não quer dizer que a Mente de Diógenes é igual ao lógos de Heráclito, mas apenas que aquele tirou deste as justificativas baseada na observação natural que puderam explicar uma Inteligência que rege as coisas.
Apesar disso, existe uma grande diferença entre a maneira como esses dois concebem esse princípio de ordem.

Para Heráclito, o lógos é uma razão imanente, quer dizer, um princípio de ordem que não é dado por algo externo à Matéria, mas que está como que “dentro” da própria Matéria.


[Vamos ver se um exemplo ajuda]
Imaginemos um embrião humano.
Esse embrião possui uma razão de desenvolvimento que fará que depois de 9 meses de gestação venha a nascer um bebê humano e não de outra espécie.
EmbriãoEssa razão de desenvolvimento não parece algo que venha de fora do embrião, quero dizer, não é a mãe ou qualquer outra inteligência que provoca o modo como ele vai se desenvolver.
Algo “dentro” do próprio embrião que vai operando esse desenvolvimento.
De maneira análoga poderíamos tentar entender a relação entre o lógos e a Matéria em Heráclito.
Não se trata de uma inteligência externa à Matéria que a vai ordenando, mas algo imanente a ela.
[Voltando…]

De maneira distinta, parece pensar Diógenes, pois nesse ponto se aproxima um pouco mais de Anaxágoras.
Este já havia dito que a Mente Cósmica era um princípio de ordem que operava desde fora (e não devemos confundir esse “desde fora” com transcendente, ainda não temos essas categorias nesse período) e nosso autor vai seguir a mesma linha, porem também com alguma diferença.

Anáxogaras sustentava que além da Mente Cósmica ser diferente de tudo, também não se misturava com nada.
O problema é que isso tornava difícil para ele explicar como ela atua.
Essa dificuldade não teremos em Diógenes, pois ele simplesmente vai afirmar que a própria substância regente é uma modificação da Matéria Primordial que compõe todo o resto.
A pesar dos problemas que isso possa acarretar, o fato é que assim o autor é capaz de justificar com mais facilidade da regência da Substância Inteligente.
Se a substância regente é um modificação de Matéria Primordial, temos que não é necessários que todas as coisas tenham Inteligência para estarem ordenada, afinal, na medida em que são feitas da mesma Matéria Primordial, podem ser afetadas por ela.
[Em termos mais filosóficos, estamos dizendo que a identidade material entre as coisas e a substância regente garante que esta possa atuar sobre todas aquelas]
A partir da consideração dessa Inteligência, Diógenes vai realizar um processo para mostrar sistematicamente como ela mesma age como um princípio que ordena tudo da melhor maneira, de modo que é o mais perto que um filósofo pré socrático chega de uma tese teleológica de funcionamento e estruturação do mundo.

Uma vez que tenha feito fixado esses pontos, Diógenes é capaz de nomear sua Matéria Primordial.
Tal como Anaxímenes, ele a chama de Ar.
Isso vai causar um pouco de confusão, afinal, muitos vão tentar criar relações de discípulo e mestre entre Diógenes e Anaxímenes que realmente não existiram.
Apesar disso, esse não será o maior problema, mas sim a fofoca que fazem em torno de Simplício sobre os fragmentos em que o autor apresenta o Ar como Matéria Primordial.

fofoqueirasQuando Simplício está expondo a doutrina de Diógenes, afirma que o autor elegeu o Ar como Matéria Primordial e coloca um fragmento com começa com a seguinte expressão: “Ademais, além das indicações precedentes (…)”.
Muitos autores interpretam essas indicações precedentes como se fossem os argumentos que Diógenes utilizava para afirmar o Ar como Matéria Primordial, de modo que por algum motivo misterioso, Simplício teria os omitido.
Pois bem, o fato disso ser amplamente defendido não significa que seja verdade, até porque seria estranha imaginar que Simplício omitiria algo assim tão importante, de modo que “indicações precedentes” se referem a outra coisa.
De fato, logo depois dessa expressão, o fragmento fala assim: “também as seguintes são importantes”.
Ao fim, temos que o início do fragmento é o seguinte: “Ademais, além das indicações precedentes, também as seguintes são importantes”.
Uma forma de interpretar isso sem fazer de Simplício um grande fanfarrão seria pensar que “indicações precedentes” são sobre outra coisa (talvez sobre a defesa de uma Matéria Primordial homogênea e Inteligente) e que “as seguintes” são justamente o que dizem respeito ao Ar ser identificado como Matéria Primordial.

O raciocínio contido no resto do fragmento pode ser esquematizado da seguinte maneira:
-tudo é constituído pela mesma Matéria Primordial;
-a Matéria Primordial é inteligente;
-toda inteligência se deve a presença dessa Matéria;
-nos homens e nos animais, tanto a vida quanto a inteligência devem a presença do ar;
-o Ar é essa Matéria Primordial.

Toda essa linha de raciocínio é plausível, porem a penúltima informação carece de alguma explicação.
De fato, não é nada óbvio que o ar é fonte de inteligência, ainda que sobre ser fonte de vida seja mais fácil de aceitar.
Para isso ficar melhor aclarado, devemos ter em mente que filósofo está partindo de uma concepção pré filosófica de que alma e respiração se identificam.
Isso parece ser como que um conhecimento de senso comum da Grécia antes da filosofia, além do fato de já em Anaxímenes aparecer essa identificação.

Já sobre a questão do ar também ser fonte de Inteligência, me parece que devemos mais uma vez recordar que se trata de um filósofo eclético, quer dizer, que recolhe elementos de mais de um autor.
Tendo isso em vista, poderíamos pensar que tal identificação se trata de um desenvolvimento lógico da posição de Heráclito de que o lógos é inalado mediante a respiração.
Dado então que já vimos que este autor tem grande influência em sua concepção de Inteligência, não me parece algo muito distante.

Sobre isso, resta então um último ponto para esclarecermos.
Ao dizer que o ar, quanto que é a alma dos viventes, é fonte de vida e inteligente, faz-se necessários explicar o porquê de haver coisas que aprecem que não são nem vivas nem inteligentes.
Quero dizer, se tudo é feito de Ar, e ele é fonte de vida e inteligência, então tudo deveria ser vivo e inteligente.
Diógenes não é insensível a essa indagação, e vai responde-la de maneira muito interessante.
Justamente a respiração será o que faz com que algumas coisas seja vivam e inteligentes e outras não.
O autor afirma que aquilo que é capaz de respirar, além de ser constituído de Ar, também está em constante contato com o Ar cósmico, de modo que assim possui vida e inteligência.

O filósofo então vai mais além, pois também procura explicar as diferenças de inteligências que existem entre as espécies.
As almas em geral seriam Ar quente, de modo que nos parece que Diógenes pensa no calor como característico do seres vivos.
Apesar de todas as almas serem Ar quente, o que acontece é que o calor não é idêntico em todos os seres vivos.
Essa diferença de calor seria o que justificaria de falarmos de viventes mais ou menos inteligentes.
Em outras palavras, o autor está falando que existe uma noção geral de alma pela qual se identifica o princípio de vida de todos os viventes, porem, também existem pequenas diferenças nessas almas que fazem com que sejam distintamente inteligentes.
E mais, o autor ainda fala que essas diferenças existem não só de maneira maior entre diferentes espécies, mas também de modo menor entre distintos indivíduos de uma mesma espécie.
Isso que ele está dizendo é quase o que diz Aristóteles sobre a diferença entre alma vegetal, animal e racional (assunto que vamos encerrar agora, pois ainda não chegou a hora de falar disso).

Seguindo a linha de Anaxímenes, Diógenes vai aceitar a condensação/rarefação como o mecanismo pelo qual o Ar da origem a todas as outras coisas.
Como essa é um ideia originalmente de Anaxímenes, não me parece necessários que eu volte a repetir o que está implicado nesse mecanismo, porem, no caso de Diógenes existe uma consequência a mais.
De fato, quando Anaxímenes veio com essa teoria, não havia nem Parmênides nem pluralismo, porem não passa o mesmo com Diógenes.
Ora, na filosofia depois de Parmênides, esse conceito de condensação/rarefação acarreta a existência do Não-Ser, ou seja, de Vácuo (Vazio).
Caso alguém queria saber o motivo certinho, aconselho que leia os textos sobre Parmênides e Melisso, do contrário, só peço que acreditem em mi nessa.
Ao fim das contas, o que parece mais provável é que Diógenes vai aceitar a existência do vácuo para viabilizar a diferenciação do Ar e conseguir explicar o movimento e a mudança.
Temos então que  o grande preço que Diógenes vai ter que pagar por seu Monismo Material será justamente aceitar a existência real do Vácuo.

Ora, sobre a Matéria Primordial em Estado Primordial me parece estar suficientemente explicado, porem, uma vez que inserimos a questão da existência do Vácuo, penso que também podemos já entrar na Cosmologia e na Cosmogonia do autor.

Antes de mais nada é bom saber que sobre esse assunto tudo que sabemos vem de testemunhos e não de fragmentos, quer dizer, de segunda mão.
Mas enfim…

Quase todos os processos cosmogónicos e concepções cosmológicas são tomados de empréstimo de outros autores, de modo que não hea muita novidade, mas apenas mescla (e nesse ponto ele é um autêntico eclético).
Eis suas teorias:
-tal como os atomistas, Diógenes aceita a doutrina segundo a qual o cosmos estaria cercado de Vácuo Infinito.
-de Anaxágoras, afirma que as coisas começam quando uma Porção do Ar primordial, que é inteligente, se limita por rarefação ou condensação do resto.
-com os de Mileto defende que as coisas mais densas vão se unindo no centro enquanto que as menos densas vão indo aos extremos, além de adotar os princípios de atração entre os iguais e diferenciação.
-como Anaximandro, supõe que o mundo se estaria secando.
-outra vez com Anaxágoras, pensa nos corpos celestes como pedras, porem os compara com pedras-pomes.

Por último, também de segunda mão, temos a explicação de Teosfrato sobre a teoria de Diógenes sobre a percepção e a cognição.
No fundo, é o Ar em nós que produz todas as sensações: o ar exterior se choca com o ar que existe nos órgãos sensoriais e é levado pelos vasos sanguíneos até o cérebro:
-olfato: deve-se ao ar em torno do cérebro;
-audição: acontece quando o ar nas orelhas é colocado em movimento e levado até o cérebro;
-visão: quando as coisas são refletidas na pupila e esse reflexo se mistura com o ar ali de dentro;
-paladar: ocorre na língua por conta de sua natureza rarefeita e macia;
-tato: não declaro absolutamente nada (segundo Teosfrato).

É interessante, pois Diógenes está fazendo uma distinção entre condições externas necessárias as sensações e a própria ocorrência dela.
Tal como os atomistas, ele sustenta que que as relações são sempre relativas aos indivíduos que as possuem, porem supõe que depende de certas condições externas.

Outro ponto interessante, é que segundo um dos fragmentos dado por Simplício, Diógenes defende, provavelmente seguindo o pensamento jónico, que a Matéria Primordial é divina.
Isso se confirma quando Teosfrato, depois de explicar o que o autor dizia sobre os sentidos, indica que ele também chegou a afirmar que o Ar que em nós pensa é uma parte do divino.

Por fim, Teosfrato também expõe algumas explicações fisiológicas de Diógenes para outras funções cognitivas:
-prazer: emerge quando uma grande quantidade de ar é misturada com o sangue, de modo que o torna leve e em harmonia sua natureza;
-dor: quando o ar é contrário a natureza do sangue e não se mistura, de modo que ele coagula e se torna denso;
-algo parecido se dá com a ousadia, a saúde e os contrários…

Neste mesmo fragmento, se indica que o pensamento se deve ao ar puro e seco, algo que se pode remontar também à Heráclito.
A partir disso afirma que a umidade estorva a mente e um série de outras coisas que já não dizem mais tanto respeito ao que pretendemos com esse texto.

Para concluir, podemos dizer que todo o pensamento de Diógenes é uma atualização da cosmologia milesiana, porem não chega a ser algo totalmente original.
Ainda que tenha feito muitas inovações (que em muitos pontos superam seus predecessores), temos que o autor se limitou a explorar ideias já formuladas.
Apesar disso, tal como se indicou sobre o ecléticos, Diógenes foi capaz expor essas ideias de formas novas e mais eficazes.
Seu proposito de retornar à simplicidade monista é realmente incrível, porem acaba que não temos elementos suficientes para saber o quão bem ele foi com essa empreitada.”

Texto de José Guilherme Carvalho de Souza, Bacharel em Filosofia pela PUC-RJ

Caso você tenha alguma dúvida, crítica, pedido ou sugestão, entre em contato pelo email areafilosofica@gmail.com
Na medida do possível vamos tentar responder a cada um.
Até semana que vem e estudem com moderação!!!

Bibliografia:
-KIRK, G. S.; RAVEN, J. E.. Los Filosofos presocraticos: historia crítica con selección de textos. Madrid: Editorial Gredos, 1969
-MCKIRAHAN, Richard. A filosofia antes de Sócrates: uma introdução com textos e comentários. São Paulo: Paulus, 2013
-REALE, Giovanni. Pré-Socráticos e Orfismo: historia da filosofia grega e romana. São Paulo: Edições Loyola, v. I, 1993

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Atomismo: Leucipo e Demócrito

Dentre as escolas de pensamentos filosóficos pré-socráticas, temos em destaque em nossa presente artigo, mais especificamente dentre a escola pluralista, a corrente denominada atomista.
Esta trata-se de uma corrente de pensamento, dentro da chamada Filosofia Natural, que defende a presença de uma combinação de partículas indivisíveis e separadas que constituem toda a matéria existente.
O Atomismo teve início na Grécia Antiga nos meados do século V como meio para encerrar as discussões e resolver a “aporia eleática” (“Só o Ser é e não pode não ser”).
A nomenclatura ἄτομον (“átomon”, isto é, indivisível) fora inventada primeiramente por Leucipo de Mileto (ou de Eléia), mas totalmente aperfeiçoada por Demócrito de Abdera, que inclusive se tornou mais famoso nesta linha de pensamento do que o próprio Leucipo, entretanto, mais tarde, a esta corrente será retomada por Epicuro e por Lucrécio.

Leucipo (ca 500-430 a.C.) era contemporâneo de Anaxágoras, dos Sofistas e do famoso Sócrates.
Pouco se sabe deste pensador de origem duvidosa, a não ser pelos testemunhos dos demais pensadores, principalmente que teve como mestre, segundo alguns, Zenão de Eléia e, segundo outros, Melisso.
As obras atribuídas a ele são: A Grande Ordem do Mundo e Sobre o Espírito, entretanto, são só atribuições ao mesmo.
O que se sabe realmente é que a ele fora atribuído a teoria dos átomos que posteriormente será desenvolvida por Demócrito, seu discípulo.

Demócrito (ca 460-370 a.C.), discípulo e sucessor de Leucipo, foi citado por diversos pensadores da antiguidade principalmente pelo grande Aristóteles em diversas de suas obras, principalmente na sua Física e no Sobre Alma.
Sua grande genialidade está registrada em diversas obras e seu principal pensamento está na ideia de movimento que fora muito utilizada pelo Estagirita.
Seus pensamentos pareceram estar esquecidos por muito tempo dentro dos pensadores e das correntes filosóficos, até o renascimento dos pensamentos de Aristóteles, nos quais os atomistas, principalmente Demócrito se destaca.
Tanto Leucipo como Demócrito foram também citados, amplamente comentados e até criticados por pensadores modernos (Hegel, Nietzsche e Burnet).

Atom.pngO Atomismo parte de dois princípios fundamentais em sua doutrina, o átomo e o vazio.
Trata-se de uma realidade totalmente geométrica que é captada pelo intelecto.
Naturalmente, esses átomos são imutáveis e ao redor deles, os tornando totalmente isolados entre si, existe o vazio que os isola até que colidem entre si e depois compõe arranjos que geram todas as coisas que existem.
O vazio ao redor deles permite que eles se movam, defendendo assim um princípio de movimento, bem como a existência do vazio.
O átomo é compreendido como “pleno”, ou seja, o átomo é o “Ser”, não é vazio no seu interior.
Assim, o vazio ao seu redor seria o “Não Ser”.
O movimento e o vazio constituem elementos bem peculiares para o pensamento atomista, pois segundo Demócrito tudo que existe vem do choque desta infinidade de átomos que estão em constante movimento e se transformam em tudo que existe, até mesmo a alma humana.

[Essa transformação vai dar-se mediante o acaso, pensamento este lembra um pouco o princípio das monadas que posteriormente será desenvolvido em outro momento da história por Giordano Bruno e, principalmente, por Leibniz].Amidamaru

Esta, Ψυχή (Psyché), é formada por atomos geralmente mais leves e de formatos esféricos, pois necessitam de uma mobilidade maior do que a das outras estruturas.
Entretanto, existe em cada corpo esses átomos leves, nem que seja em pequenas quantidades, por isso pode-se dizer que em tudo existe alma, segundo Demócrito.

Além de infinitos, indivisíveis e isolados pelo vazio, os átomos são invisíveis as olhos, pois são muito pequenos, por isso só podem ser percebidos pelo intelecto.
A movimentação dos átomos no vazio faria com que os maiores ficassem mais expostos aos impactos dos demais; além disso, sendo dotados das mais diversas formas, eles não apenas se chocariam como também poderiam se engatar, produzindo agrupamentos.
Vortice.jpg
A continuação dos impactos poderia então ocasionar o aparecimento, em vários pontos, de vórtices ou turbilhões, à semelhança de redemoinhos, nos quais os corpos maiores (átomos ou agrupamentos de átomos) tenderiam para o centro.
Seria esse o começo de um universo.

Destarte, dentro do pensamento desenvolvido por Leucipo e Demócrito pode-se aferir que o movimento do átomo, principalmente pelo fato de unir-se e desunir-se com o vazio, determina o nascimento e a morte de todas as coisas.
O fato é que “nada ocorre sem razão, mas tudo ocorre por uma razão e por necessidade”, isto é, a movimentação desgovernada (caótica) dos átomos que geram.
Pode-se destacar três pontos na movimentação:Poeira.jpg

-uma primeira movimentação (caótica) como poeira no ar, sem rumo e sem direção;
-um segundo movimento que impulsiona o choque entre os átomos;
-um movimento que gera todas as coisas a partir do choque dos átomos (formando eflúvios).

Ao se chocarem, temos tudo aquilo que os sentidos podem captar, desde o calo, volume, gosto e etc.
Dessa forma, o próprio Demócrito afirmava, ao aprofundar o pensamento de seus mestre Leucipo, as qualidades de cada matéria formada pelos átomos depende inteiramente da forma com que eles de uniram, levando em consideração o movimento gerado por eles e até mesmo o tamanho de cada um.
As vezes eles, ao se chocarem, podem se encaixar de forma perfeita a se assemelharem a quebra-cabeças.

O átomo apresenta-se segundo eles de tal forma indestrutíveis que pode-se até afirmar um principio de conservação da matéria.
O Atomismo de Leucipo e de Demócrito não possui bases experimentais por se tratar de uma filosofia natural, mas ele é citado e utilizado pelo Estagirita em sua Física.
Haja vista que o grande problema dos atomistas foi deles não terem estabelecido uma causa inteligente e/ou causa final no seu pensamento, o desenvolver dos átomos nas coisas só se dá por efeito mecânico entre eles e mais nada, trata-se do acaso dito anteriormente.
Ao fim, é uma “ordem” não projetada para acontecer, ou seja, que simplesmente acontece.”

Texto de Rubens Raniery Fernandes Gomes, Bacharel em Filosofia pela PUC-RJ

Caso você tenha alguma dúvida, crítica, pedido ou sugestão, entre em contato pelo email areafilosofica@gmail.com
Na medida do possível vamos tentar responder a cada um.
Até semana que vem e estudem com moderação!!!

Bibliografia:
ABBAGNANO, Nicola. Dicionário de Filosofia. 5. ed. São Paulo: Martins Fontes, 2007.
-REALE, Giovanni; ANTISERI. História da filosofia: filosofia pagã antiga, v.1. São Paulo: Paulus, 2003.
-SOUZA, José Cavalcante de [org.]. Os Pensadores – Os pré-socráticos: vida e obra. São Paulo: Nova Cultural, 1996, v.1, p. 40.
__Coleção Os Pensadores: Os pré-socráticos. 1. ed. São Paulo: Abril, 1973, v. 1.

 

Melisso de Samos

“Algumas semanas atrás tivemos a oportunidade de estudar o que pode ser chamado de Filosofia Eleata ou Eleatismo.
Basicamente seria a filosofia feita por Parmênides e Zenão.
Caso alguém não se recorde, dizíamos que o modo como esses dois autores apresentavam suas ideias era bastante peculiar.
Parmênides o faz de maneira poética e Zenão de modo dialético.
Ora, apesar da originalidade dos dois autores no método de expor a filosofia, nem sempre suas teses eram suficientemente bem desenvolvidas, explicadas ou defendidas.
Muitas vezes ficavam pontos soltos ou pressupostos que tornavam difícil a compreensão do leitor.
Assim, vamos ver hoje um filósofo que nos ajuda a sair dessa dificuldade, pois busca a sistematização de todo o pensamento de Parmênides e Zenão.

Se trata de Melisso de Samos (fato que todos já sabiam uma vez que esse é o título do texto).
SamosNasce na cidade de Samos, uma ilha na costa oriental do Egeu.
Não temos muita certeza sobre a data de seu nascimento.
Alguns falam do fim do século VI a.C., outros falam dos primeiros anos do século V a.C.
Para nós aqui, penso que o melhor seja ficar com o ano de 470 a.C. que costuma ser o que mais aparece por ai.
Além dessa primeira dificuldade sobre sua vida, temos que existe apenas um fato histórico que temos como certo sobre sua vida: foi nomeado estratego de Samos e comandou sua frota marinha conseguindo duas vitórias contra a frota ateniense de Péricles por volta de 440 a.C.
Tal informação indica que 470 a.C. é uma boa data para seu nascimento, afinal, seria razoável pensar que com 30 anos comandava a frota de Samos.

Esse problema de datas parece ser pouco importante, mas na verdade não é.
Ele gera ainda uma outra dificuldade da qual também não se possui muita clareza.
Há quem diga que Melisso precede em material escrito aos pluralistas, porem isso só seria possível se pensássemos seu nascimento no final do século VI a.C.
Se, porem pensarmos como mais jovem que Anaxágoras e Empêdocles, então faria sentido dizer também que algumas de suas teses são respostas ao pensamento pluralista destes dois.
Além disso, poderíamos ainda colocar Melisso como sendo bem contemporâneo a Leucipo, afinal, temos indícios da influência de Melisso na filosofia atomista.
Ao fim, não será aqui que resolveremos o problema da datação do nascimento de Melisso, porem tão pouco é nossa pretensão.
Assim, simplesmente escolheremos a data de 470 a.C. como uma data razoável e seguiremos seu pensamento.

Além dessa questão biográfica, há ainda uma última observação importante a fazer.
Realmente Melisso apresentou o eleatismo de maneira mais simples e sistemática que Parmênides e Zenão, porem ainda não é tão fácil de entender seu pensamento.
Um vantagem que nós temos é que o autor escreve em prosa, de modo que a mensagem acaba sendo um pouco mais clara e direta.
Por outro lado, há a desvantagem de que muitas vezes ele está pressupondo ideias de Parmênides em seus argumentos (e as vezes até de outras fontes) que não aparecem.
Assim, se não fizermos alguns matizes para preencher essas lacunas, quando olhamos para seus argumentos acabamos os vendo como bobos.
Dessa maneira, o melhor que podemos fazer para entender seu pensamento é ir apresentando seus argumentos e colocando esses matizes onde faltarem.

Outra boa notícia é que não só foram preservados muitos de seus fragmentos, mas também que existem uma quantidade considerável de resumos se seu raciocínio.
Tal situação nos permite dizer que conhecemos suas teses e seus métodos com uma particular precisão.
Vejamos então sua filosofia!!!

Tal como Parmênides, Melisso pensa o “Ser” segundo uma série de atributos que respeitem aquele princípio de que o “Ser” é e não pode não ser e o “Não Ser” não é e não pode ser.
Essa parece ser a grande constante do eleatismo.
Apesar disso, não podemos dizer que Melisso seguiu totalmente a Parmênides, afinal, possuímos conhecimento de alguns pontos nos quais nosso autor pensava diferente dele.

Em primeiro lugar temos a afirmação de que deve haver somente uma coisa.
Além de tal tese não aparecer em nenhum dos fragmentos de Parmênides, sequer temos como sustentar que ele defendesse algo parecido com isso.
Em verdade, será Melisso quem vai argumentar a favor dessa ideia.

Depois, há ainda a questão sobre os limites do “Ser”.
Se para Parmênides o “Ser” possuiria limites espaciais, Melisso já fala de um Ser totalmente ilimitado.
Pode parecer uma diferença pequena, porem é de extrema importância.
Muitos dos pontos que em Parmênides pareciam um pouco forçados vão ser melhor fundamentados em Melisso a partir do pensamento de que o “Ser” é ilimitado.
Mas enfim, sem mais delongas, vejamos os argumentos de Melisso sobre o Ser…

Argumento 1: pretende concluir que o “Ser” sempre foi e sempre será.
Vai partir daquele princípio de Parmênides de que o “Ser” não pode vir a ser.
Mediante isso, afirma o seguinte:
-se algo veio a ser, então começou em algum momento, de modo que tem começo.
-da mesma forma, se algo não veio a ser, então não começou em nenhum momento, de modo que não tem começo, mas “tem sido sempre”.
-se algo veio a ser, então terminou em algum momento, de modo que tem fim.
-da mesma forma, se algo não veio a ser, então não terminou em nenhum momento, de modo que não tem fim, mas “sempre será”.
Com isso, ele afirma que pelo fato do “Ser” não poder vir a ser, então sempre foi e sempre será.
Obviamente esse argumento visto assim tem problemas, afinal, podemos perceber pelo menos um erro lógico.
[Erro lógico?]
LógicaO argumento do autor é o seguinte:
-se “a”, então “b”;
-não “a”, portanto não “b”.
De fato, fica fácil perceber o problema uma vez que o leitor já tenha estudado lógica, porem, caso você nunca o tenha feito, peço que ao menos confie em mim (pelo menos enquanto não tivermos um curso de lógica no blog) e considere tal estrutura logicamente absurda.
Aliás, algo que pode ajudar é substituir “a” e “b” por outro termos:
-se “chove” (a), então “o chão fica molhado” (b);
-não “chove” (a), portanto “o chão não fica molhado” (b).
Isso é algo errado uma vez que sabemos que existem muitas outras maneiras de molhar o chão sem ser com água da chuva.
O fato de que a chuva cause o fenômeno chão molhado não significa que seja a única causa para tal fenômenos, isto é, que caso não chova o chão nunca ficará molhado.
Enfim, é um erro que mais tem que ver com a estrutura do pensamento do que com a verdade de algo.
[Sigamos]
Além desse erro estrutural que aparece nos dois raciocínios, temos outra dificuldade: a proposição “não tem começo”.
Quando o filósofo fala que o “Ser” não tem começo, pretende concluir disso que o “Ser” tem sido sempre.
O problema é que há outra conclusão possível.
Se o “Ser” não tem começo, então nunca chegou a ser, isto é, não existe.
Em outras palavras, se algo “não tem começo” então se pode falar de duas possibilidades lógicas ou “tem sido sempre” ou “nunca foi”.
Assim, para entender bem a força desse argumento, devemos supor que exista algum pressuposto em seu pensamento que não está no texto, algo como uma premissa subentendida.
Pois bem, a premissa subentendida seria a seguinte: o “Ser” é no momento presente (é agora).
De fato, tal ideia é bastante plausível dentro do pensamento do autor, de modo que não estamos forçando a barra ao afirmar isso.
Com ela, temos então que o “Ser” <que é no momento presente> não veio a ser.
Assim, o “Ser” <que é no momento presente> não tem começo, de modo que só pode ter sido sempre.
Agora, como falamos do “Ser” <que é no momento presente>, não há mais espaço para pensar que uma das conclusões possíveis poderia ser “nunca foi”.
Seu argumento então, tal como foi escrito, faz sentido se tivermos em conta o “Ser” <que é no momento presente>.
Além disso, também precisamos ter em mente outro dado para entender o saltos que Melisso da na última parte do argumento.
Neverending StoryÉ até plausível afirmar que aquilo que não veio a ser não possui começo, e dai cairíamos naquelas duas possibilidades que falamos antes (“tem sido sempre” ou “nunca foi”)
O problema é que não existiria relação lógica na afirmação de que aquilo que não veio a ser não possui fim no sentido de ser imperecível.
[até porque existem histórias que começam, mas não tem fim…]
Claro, se tivermos em conta o “Ser” <que é no momento presente>, poderíamos aceitar a conclusão final, porem seguiria o fato de que o autor teria dado um salto grotesco em seu raciocínio, algo que enfraquece a autoridade argumentativa de um texto.
Pois bem, na verdade, penso que podemos dizer que Melisso não da um salto de uma proposição para outra, mas antes, se apoia em uma ideia que, sem aparecer no texto, muito provavelmente está presente em seu contexto filosófico.
Dessa vez, a premissa que está subentendia é algo que Parmênides já havia trabalho em seu poema.
Para este autor, negar o vir a ser é necessariamente negar o perecer (e se quiser saber mais sobre isso é só dar uma olhada no texto sobre Parmênides, versos 6-21).
Assim, a linha argumentativa final seria a seguinte:
O “Ser” <que é no momento presente> não veio a ser.
Disso segue que não possui começo e <tal como disse Parmênides> não perece.
Assim, o “Ser” <que é no momento presente> sempre foi (pois não começa) e sempre será (pois não perece).
Imagino que agora o argumento parece muito mais apetecível a seu intelecto!!!
Argumento 2: pretende concluir que o “Ser” é ilimitadamente grande. 
Duracell
Melisso tenta afirma que o “Ser” é ilimitado em extensão a partir do fato de que é de duração ilimitada (sempre foi e sempre será).
Ainda que esteja escrito “Argumento 2” (ainda por cima em negrito), se olharmos rápido para o que diz o fragmento acabaríamos dizendo que isso é no máximo um princípio mal exposto.

Mas calma, vejamos o argumento com seus matizes!!!

Primeiro, quando dizemos ilimitadamente grande não se trata tanto de tamanho, mas de extensão.
Além disso, parece que o autor não quer dizer que uma duração ilimitada suponha uma extensão ilimitada, até porque seria um raciocínio grosseiramente inválido.
Talvez, Melisso apenas queria indicar que se pode chegar até a conclusão de que o “Ser” é ilimitado em extensão por um raciocínio análogo ao que utilizamos para afirmar que é de duração ilimitada.
Primeiramente devemos tentar fazer um paralelo entre espaço e tempo.
O problema é que esse matiz não é tão razoável quanto os outros de já estar no pensamento do autor, mas também não temos como dizer que não estava.
Tal paralelo indica que algo pode ter princípio e fim tanto no tempo (como falávamos antes) quanto no espaço.
Também poderíamos tentar supor que a negação do vir a ser não diz respeito somente a vir a ser no tempo, mas também no espaço, de modo que nos dois âmbitos também se excluiria o perecer.
Assim, o argumento com as matizes teria a seguinte cara:
O “Ser” <que é no momento presente> (possui dimensão) não começa nem termina <em nenhum lugar>.
O “Ser” <que é no momento presente> (possui dimensão), porem não possui começo ou fim <em qualquer lugar>, de modo que sua extensão é ilimitada.
Argumento 3: pretende concluir que o “Ser” é uno.
Ainda que Parmênides nunca tenha defendido isso em sua obra, Melisso argumenta a favor dessa tese a vendo como consequência do fato do “Ser” ser ilimitado em extensão e duração (espaço e tempo).
Claro que é necessário explicar um pouco o que isso quer dizer, pois mais uma vez o autor apenas diz que ser ilimitado supõe ser único, mas não explica o porquê.
O motivo de uma coisa seguir da outra é justamente o fato de que Melisso pensa que o “Ser” é duplamente ilimitado, isto é, em relação ao tempo e ao espaço.
Se não houvesse essa natureza duplamente ilimitada, a inferência de que o “Ser” é único não seria uma consequência lógica, mas um salto.

Vejamos o porquê!!!

Se eu penso em algo que é ilimitado somente no tempo, então não seria necessário afirmar sua unicidade, afinal, poderiam haver outras coisas nos “espaços” que não ocupa.
Da mesma forma, se eu penso em algo que é ilimitado somente no espaço, tampouco precisaria ser único, afinal, poderiam haver outras coisas nos “tempos” em que essa coisa não existe.
Porem, quando eu falo de algo que é ilimitado tanto no espaço quanto no tempo, acabo por dizer que ele se estende por todo o espaço da real e todo os tempos possíveis, de modo que nada que não seja ele poderia ocupar a realidade.
Assim, o argumento seria o seguinte:
O “Ser” é <duplamente> ilimitado, <no espaço e no tempo>
Se não fosse Uno, então encontraria algum limite em relação a outra coisa qualquer <ou no espaço ou no tempo>.
Assim, o “Ser” ocupa tudo que há para ocupar, de modo que é a única realidade possível.
 
Argumento 4: pretende concluir que o “Ser” é todo idêntico.
Essa característica é algo que vem em consequência do fato do “Ser” ser Uno.
Para Melisso, algo só pode ser Uno se também for todo idêntico.
Para entender o porquê desse raciocínio, devemos entender o que quer dizer “idêntico” para Melisso.
Seria algo como a expressão “sendo o mesmo inteiramente” ou simplesmente “uniforme”.
Essa uniformidade deve dizer respeito tanto a dimensão temporal quanto à dimensão espacial.
Se o “Ser” não for espacialmente uniforme, então também não é o mesmo inteiramente, afinal, poderíamos falar de pelo menos duas partes do “Ser” distintas.
Algo parecido passaria se tentásemos negar a uniformidad temporal.
Acabaríamos supondo a existência de pelo menos dois momentos onde o “Ser” seria de um jeito em cada.
No dois casos acabamos por introduzir duas partes (ou momentos) do “Ser” com identidades distintas, de modo que entraríamos na dimensão da pluralidade.
Assim, o argumento seria mais ou menos o seguinte:
O “Ser” é Uno, <não deve conter partes distintas>.
<O que não contêm partes distintas> é todo idêntico a si.
O “Ser” é todo idêntico a si.
Claro que esse argumento não é totalmente perfeito.
Muitos resistiriam em concordar que simplesmente algo que é Uno não pode ter partes distintas e seguir sendo Uno.
Um exemplo seria uma cadeira, que mesmo tendo várias partes diferentes (pernas, assento, costado etc) segue sendo uma coisa só (pelo menos aparentemente, mas esqueçam que eu disse isso, não está na hora de entrar nesses temas).
Apesar desse problema, o fato é que a partir desse argumento de Melisso somos como que chamados a refletir melhor sobre o que verdadeiramente é a unidade, bem como em que consiste a relação entre o todo e as partes.
Argumento 5: pretende concluir que o “Ser” é imóvel
O argumento começa com a identificação do “Ser” com o pleno, provavelmente a partir do que já havia dito Parmênides ou mesmo por conta dele ser Uno e Todo Idêntico.
Por consequência, o “Não Ser” é identificado com o não pleno ou simplesmente com o vácuo.
Por questões didáticas, vamos chamar o pleno de cheio e o vácuo de vazio.
Se o vazio é o “Não Ser”, então o não pode haver nada de vazio no “Ser”.
Parece, que Melisso tem em mente o que falava Parmênides sobre a impossibilidade de “Ser” e “Não Ser” estarem misturados.
Uma vez então que não há nada de vazio no “Ser”, então o autor conclui que não é possível o movimento.
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Ainda que eu não tenha dados para dizer exatamente em que consiste o movimento aqui, me parece que deve ter algo que ver com “ocupar (encher) um espaço vazio”.
Em resumo, diríamos que o argumento é mais ou menos o seguinte:

Se o “Ser” é o pleno <ou cheio>, então o “Não Ser” é o vácuo <ou vazio>.
<Segundo Parmênides, “Ser” e “Não Ser” não se misturam>.
No “Ser” não pode existir nada de vácuo <ou vazio>.
<O movimento consiste em ocupar um espaço que estava vazio>.
Se no “Ser” não existe vácuo <ou nada vazio>, então não há a possibilidade de qualquer movimento.
Tal argumento tem ainda alguns pontos bastante interessantes.
O primeiro é que essa noção de Vácuo parece que está sendo introduzida agora na filosofia.
De fato, será uma idéia que os filósofos atomistas (que são o assunto do próximo texto) vão utilizar exaustivamente.
Além disso, a identificação do “Não Ser” com o vácuo faz com que o discurso de Melisso seja consideravelmente mais claro que o de Parmênides.
Para os dois autores o “Não Ser” não existe realmente, porem o “Não Ser” de Parmênides simplesmente não podia ser concebido, fato que acarreta muitos problemas para o desenvolvimento de sua filosofia.
Já com Melisso é diferente.

Quando ele fala do “Não Ser” como vácuo oferece a seus ouvintes uma maneira razoável de conceber o “Não Ser” sem ter que dar a ele existência.

Argumento 6: pretende concluir que o “Ser” é indivisível.
Tal argumento também se fundamenta nos outros que fomos apresentando até agora.
Segundo Melisso, caso o “Ser” fosse divisível, acabaria por permitir o movimento, algo que já foi provado que não pode.
Mais uma vez um argumento que parece que dá um salto, porem, imagino que com tudo o que já falamos até agora já seja possível que alguém imagine que tipos de matizes vamos acrescentar aqui.

Em primeiro lugar, parece que quando Melisso de divisão, ele tem em mente uma divisão física que separa em partes.
Depois, fazemos algumas inferências que nos permitam chegar até o movimento.
Se o “Ser” pode ser separado em partes físicas, então deve haver algo que interponha essas partes.
Ora, a única coisa que as poderia interpor seria o vácuo.
Assim, havendo vácuo, é de novo possível o movimento.
O problema é que o vácuo continua se poder estar misturado no “Ser”, afinal, o vácuo é “Não Ser”.
De maneira mais simples, temos o seguinte:
<O que não é indivisível possui partes distintas>.
<Entre duas partes distintas deve ter algo que as interponha>.
<O que interpõe duas partes de Ser (plenos) deve ser o vácuo (vazio)>.
<Se houvesse vácuo>, então haveria movimento.
<Para não haver vácuo,> o “Ser” tem que ser indivisível.
Ao fim, parece que o argumento que Melisso não teria em vista realmente o movimento, mas aquilo que permitiria o movimento, isto é o vácuo.

Argumento 7: pretende concluir que o “Ser” não possui um corpo.
Tal argumento parece ser o de construção mais simples, porem suas conclusões levarão a problemas difíceis de resolver.
De maneira muito geral, podemos dizer que Melisso está argumentando assim:
O Ser é Uno.
Portanto, o “Ser” não possui partes.
Portanto, o “Ser” não possui espessura.
Portanto, o “Ser” não possui corpo.
Tal afirmação, todavia, parece entrar em contradição com “espacialmente ilimitado” e “pleno”.
Pois bem, primeiro devemos compreender o que Melisso entende por corpo.
Ora, para o autor, todos os corpos possuem dois elementos: extensão e limites.
De fato, o filósofo não nega a extensão do “Ser”, porem sustenta que ele é ilimitado.
Assim, temos que algo que possui extensão, mas não possui limites, não pode ser propriamente considerado um corpo.
A única crítica então que nos caberia fazer é pelo fato de Melisso ter tocado em questões conceituais tão  profundas sem fazer muito esforço para as esclarecer.

Antes então de irmos para as considerações finais no autor, me parece conveniente fazer uma observação dobre uma questão que esse último argumento nos pode sugerir.
Uma vez que o autor aceita que o “Ser” possui uma extensão (ainda que não um corpo), é difícil aceitar que essa realidade extensa não possa ser dividida em partes.
Infelizmente não existe muita solução para isso.
No máximo poderíamos utilizar a noção de incorpóreo para forçar uma barra aqui, porem seguiria sendo uma resposta insatisfatória.

Para então finalmente terminar com este autor, me parece interessante dar mais algumas informações sobre ele.
Em primeiro lugar, Melisso parece ter sido um sujeito muito mais radical em seu eleatismo que o próprio Parmênides e Zenão.
Não só defendia a impossibilidade do movimento, como também rechaçava qualquer teoria que tentasse o salvar.
Um dos fragmentos de sua obra, enquanto fala sobre a impossibilidade do “Ser” perecer e aumentar (temas que já estavam em Parmênides), aproveita também para dizer que não pode ser reordenado.
Ora, a negação da possibilidade do “Ser” de se reordenar parece quase certo de ser uma resposta às tentativas pluralistas de resolução da aporia de Parmênides.
Isso só confirmaria o que dizíamos faz pouco sobre ele ser mais jovem que Anaxágoras e Empêdocles.
Além disso, no mesmo trecho onde fala dessa impossibilidade de reordenação, também fala que o “Ser” não pode sentir dor ou agonia.
Pode parecer algo simples, porem é totalmente inusitado neste contexto que alguém atribua esses tipo de características psicológicas ao “Ser”.
Infelizmente, não tenho ainda como explicar exatamente o que ele queria dizer, porem uma das consequências para isso é eliminar a possibilidade de solipsismo (que muito resumidamente seria a teoria de que somente o “Eu mental” existe).

Ao fim, o que temos é um autor que leva ao extremo os princípios do eleatismo, especialmente no que diz respeito ao caráter enganosos dos sentidos.
Melisso afirmará, talvez até mesmo com mais força que Parmênides, a preferência à razão sobre os sentidos.”

Texto de José Guilherme Carvalho de Souza, Bacharel em Filosofia pela PUC-RJ

Caso você tenha alguma dúvida, crítica, pedido ou sugestão, entre em contato pelo email areafilosofica@gmail.com
Na medida do possível vamos tentar responder a cada um.
Até semana que vem e estudem com moderação!!!

Bibliografia:
-REALE, Giovanni. Pré-Socráticos e Orfismo: historia da filosofia grega e romana. São Paulo: Edições Loyola, v. I, 1993
-MCKIRAHAN, Richard. A filosofia antes de Sócrates: uma introdução com textos e comentários. São Paulo: Paulus, 2013

 

Empédocles de Agriento

“Empédocles é uma figura muito peculiar na história da filosofia, muitas são as histórias sobre a sua pessoa e ao longo dos anos já fora considerado como físico materialista, mistico, mago, teólogo, curandeiro, politico democrata, deus entre os homens e até uma fraude.

Mas, apesar de tantos adjetivos peculiares podemos afirmar que ele foi sem dúvidas um Super Empêdoclesfilósofo de grande importância antes de Sócrates e um poeta de grande habilidade que acabou por influenciar os séculos posteriores.
A ele é atribuída a teoria dos quatro elementos, esta teoria pressuporia a existência de partículas físicas que seriam capazes de gerar toda a amplitude do cosmos.
Ele também propôs a existência de duas forças cósmicas que seriam capazes de provocar no cosmos um estado eterno de mudança.
Rezam lendas de que era um homem de hábitos extravagantes, em sua época utilizava um cinto feito de ouro, sandálias de bronze e carregava sobre a cabeça uma coroa de louros.
Parte do que sabemos sobre Empédocles nos é oferecido por relatos doxográficos realizados por múltiplos autores.
Simplício em sua obra Física afirma ser Empédocles filho de Metão e neto de Empédocles, nascido na cidade de Agrigento uma colônia Dórica de Gela na Sicília, na região conhecida por Magna Grécia, um pouco depois de Anaxágoras, seu contemporâneo no início do século V a.C.
Diógenes Laércio nos diz que Empédocles nasceu em berço nobre e procurou em um período de sua vida participar da vida politica em sua cidade onde intervia a favor da democracia em detrimento da forma de governo praticada em Agrigento que era a oligarquia.
Pela sua capacidade de discurso e persuasão conseguiu organizar um movimento em sua cidade para depor o regime oligárquico em favor do democrático.
Em sua época existiam muitas escolas filosóficas que provocavam admiração aos olhos do mundo grego.
Empédocles conviveu com Parmênides de quem foi condiscípulo e também teve contato com a escola Pitagórica da qual era admirador.
Assim como Anaxágoras, Empédocles, é considerado um dos últimos pensadores da metafísica pré-socrática até então monista.
Desenvolvendo suas atividades na região onde hoje se encontra o estado Italiano, iniciou uma mudança na metafísica situando-a em um plano distinto do qual Heráclito e Parmênides, seus antecessores, abordavam, afastando se assim, da linha monista e por isto comumente é tratado como um filósofo pluralista.
Durante a sua vida Empédocles também adquiriu conhecimentos de medicina e chegou a fundar uma escola de onde surgiram dois autores conhecidos dentre os pré-socráticos Filistión de Locres e Hippón de Samos.
Contudo, esta não é a razão pelo qual o filósofo é mais conhecido.
Sua fama se deve a duas obras em que escreveu ao longo de sua vida, dois poemas, um intitulado Sobre a natureza e outro chamado de Purificações, que juntas compreendem 150 fragmentos com mais de 5 mil linhas.
Ambos foram escritos em jônico, um dialeto grego antigo natural de um povo que carrega o mesmo nome.
Estes textos possuem em si diferenças de estilo e de caráter o que na academia acabou por gerar o chamado “Enigma de Empédocles”.

No primeiro poema, o autor se apresenta como um filósofo, um amigo da sabedoria.
Nesta obra, a qual se designa a tratar da natureza, o enfoque dado é a cosmologia e possui uma abordagem similar a utilizada pelos pré-socráticos até então.
No segundo poema, o estilo muda e texto enriquece em metáforas e o próprio autor se apresenta como um taumaturgo divino e não como um filósofo.
Contudo, apesar das diferenças notáveis nos estilos de cada escrito, o conteúdo segue o mesmo padrão de raciocínio, o que é o suficiente para afastar qualquer teoria de que os textos não pertençam ao mesmo autor.
Neste campo surgem duas teorias que ganharam ampla aceitação na academia sobre o porquê da diferença de estilos presente nos poemas de Empédocles.
Na primeira, o autor é considerado um místico que escreve ainda em sua juventude o poema sobre as Purificações, enquanto ainda fazia parte do governo de Agrigento, e apenas quando já estava afastado das atividades políticas escreveu o poema Sobre a Natureza em virtude de anos de dedicação ao estudo da ciência positiva, quando já havia perdido o poder.
A segunda teoria afirma que os poemas de Purificação fazem parte da conversão pela qual Empédocles passou ao perceber-se incapaz de resolver o problema da existência humana, o que o levou a abandonar o materialismo presente em sua física e buscar explicações sobrenaturais para a vida e a ordem moral.

O que percebemos da obra deste autor é a tentativa de realizar uma síntese de todas as correntes presentes na filosofia grega até então, e por isto seu sistema possui várias noções colhidas de outras escolas como a jônica, a eleática, a heraclítica e a pitagórica, além da constante presença de fatores místicos que o aproxima do mundo órfico.

Empédocles sem dúvida era uma figura única e um tanto controversa, chegando a afirmar-se enquanto um demiurgo, ao qual, várias pessoas recorriam para serem curadas e consoladas em suas dores como afirma em seu poema Purificações.
Por esta razão, muitos mitos surgiram em torno de sua morte.Mergulho
Podemos encontrar relatos dos mais variados possíveis:
-há relatos de que fora jogado de um navio e por não saber nadar morreu afogado;
-outro diz que teria sofrido um acidente durante uma travessia em sua carruagem e quebrando a perna veio a falecer;
-mais um que afirma que se enforcou para pôr fim a sua vida.

vulcãoApesar disso tudo, a lenda mais conhecida em torno de sua figura é que, para provar sua procedência divina, subiu ao topo do vulcão Etna se atirando na cratera com a pretensão de não sofrer nenhum dano confiando em suas afirmações, e, para surpresa de muitos, ele não retornou da boca do vulcão, apenas a sua sandália de bronze voltou aparentemente cuspida de volta pelo próprio vulcão.

Afastando-se destas historias fantásticas temos como afirmar com certa probabilidade que Empédocles tenha morrido sexagenário ainda no século V durante a guerra do Peloponeso.

Até este período já existiam inúmeras formas geradas pelos filósofos gregos pré-socráticos para explicar a origem do homem e do cosmos, cada qual com uma singularidade própria.
Cada um com seu sistema afirmou um elemento capaz de gerar toda a multiplicidade do cosmos.
Tales ao perceber que a umidade está presente em todos os seres e em seus alimentos e porque por este nascer do próprio calor e por ele existe afirmou a Água como elemento primordial do qual todas as coisas se originariam.
Anaxímenes viu no ar o elemento primordial que seria capaz de gerar toda a multiplicidade do cosmos e da vida, isto por considerar o cosmos um animal vivente e percebendo a importância do fenômeno da respiração para todos os seres vivos baseou sua teoria da criação nos movimentos de condensação e rarefação do ar.
Além destes dois pré-socráticos, a prática de afirmar algum elemento como Arké originário de todo o cosmos foi compartilhada por outros autores como Xenófanes, que afirmou a terra como este princípio por observar que dela tudo procede e que nela tudo encontra o seu fim, e Heráclito, que viu o cosmos como um ser incriado e eterno formado por fogo e que todos os seres receberiam as suas perfeições mediante a proximidade com este elemento primordial.

Empédocles não se distancia destes autores ele procurará responder a mesma pergunta de seus antecessores.
De onde?
Ou mais precisamente, de que as coisas, o mundo e os seres se originaram?

O filósofo responde a estas perguntas através de uma cosmogonia que se serviria de todas as correntes do pensamento grego até seu século.
Para ele os quatro elementos apresentados outrora são todos juntos os elementos básicos da formação do cosmos e dos seres: Água, Ar, Terra e Fogo.
Elementos 4São identificados no sistema de Empédocles como Raízes.
Estas Raízes, fazendo parte da composição de todas as coisas, não existem em lugares determinados e nem são constantes uma vez que se encontram em contínua transmutação.
Também as concebe tal como o Ser de Parmênides, isto é, eterno e incorruptível, homogêneo, inalterável e uno.
Delas se formaram todos os seres viventes e todo o cosmos, inclusive os deuses, e por estas raízes tudo adquire as faculdades de pensar, gozar e sofrer.

[Abramos um parênteses para falarmos sobre os deuses]
Os deuses dentro da obra de Empédocles possuem duas vertentes.
Na primeira, que nos é oferecida pelo poema Sobre a Natureza, Empédocles adota o conceito de divindade muito próximo do mundo grego e dos filósofos que o precederam.
Neste poema, o divino e a natureza parecem ser a mesma coisa e se identificam com a plenitude da matéria cósmica.
Contudo, dentro do poema Purificações, ganham uma roupagem diferente daquela que o mundo grego costumava observar.
O autor parece seguir a compreensão de Xenófanes e rechaça a possibilidade de um deus que seja antropomórfico, com alguma característica da natureza ou produzido pelo labor humano.
Empédocles afirma que estes deuses, bem como os demônios e todas as demais coisas, têm origem em um único deus que é concebido por ele como um espírito sagrado e inefável que penetra o mundo com seu pensamento veloz.
É dele que deriva a lei que se estende por toda a amplitude do éter e pelas infinitas luzes celestes. 
Este deus não pode ser tocado pelas mão, nem tampouco ser avistado pelos olhos, de modo que é um deus mais espiritual do que os deuses antropomórficos comuns ao mundo grego.
[Voltando]

Uma vez fechado o parênteses continuemos a falar sobre as raízes.
Para elucidar a sua cosmogonia, o autor, a cada uma destas raízes, atribui uma divindade específica.
-Água: uma divindade siciliana chamada Nestis;
-Ar: a deusa Hera esposa de Zeus;
-Fogo: o próprio Zeus
-Terra: representada por Aidoneus.
O grande diferencial de Empédocles não foi ter postulado a existência de quaisquer destes elementos, pois como vimos estes já existiam em tentativas anteriores de explicação da origem de tudo feito por outros filósofos, a novidade em Empédocles se encontra naquilo que ele definia como a lei que rege este cosmos e se estende por todo o éter e pelas luzes celestes, o processo de união e o da divisão.
Através desta lei que todas as raízes interagem e produzem as distintas substâncias e o devir do qual afirmava Heráclito.

Segundo a visão de Empédocles, todas as coisas presentes no cosmos são passiveis de serem unidas e capazes de serem separatas também.
Amor e OdioOlhando para o universo, afirma isso como lei natural a tudo o que possui existência.
Isso ocorre por força de duas constantes cósmicas o Amor (φιλíα) e o Ódio (νεῖκος).
Este processo ocorre de maneira cíclica, onde ambas as forças se alternam como predominantes.
Uma primeira fase responsável pela unidade entre os elementos e uma segunda fase responsável pela desagregação destes mesmos elementos.
A fase em que ocorre a união é a fase na qual o Amor prevalece enquanto a fase em que a desagregação é mais evidente, coincide com a prevalência do Ódio.
Este ciclo de união e desagregação, de Amor e Ódio, não findará jamais segundo o autor e persistirá agrupando e separando as raízes segundo a necessidade.
Para o comentador Aécio, ela é a causa que impele os princípios e os elementos ao movimento de modo que, alternando-se de maneira permanente, vão sendo imutáveis.

Deste constante movimento de mescla e separação das raízes, Água, Ar, Terra e Fogo através dos processos de Amor e Ódio resultam todas as coisas existentes e permanecem estas em incessante mudança gerando um mundo múltiplo em constante devir.
Este sistema é organizado dentro de uma espécie de calendário que possui um grande ano que corresponde a 30 mil anos em que a cada terço deste ano domina uma das forças, ora o Amor, ora o Ódio como força predominante.
a) No primeiro ciclo deste grande ano, o que equivale a dez mil anos, o predomínio foi da constante Amor.
Nele, a unidade era a normativa e todos os elementos, ou raízes, se mantiveram unidos e mesclados dentro do Ser.
Este possuía as mesmas características observadas por Parmênides: uno, eterno, finito, limitado, imóvel, homogêneo, como uma esfera compacta sem distinção entre as partes e sem vazio interior recebendo o nome de Esfero.
b) Uma vez findado o primeiro terço do grande ano, o segundo terço está sobre a égide da constante Ódio.
Este período em que predomina a desagregação é marcado pela luta iniciada entre o Ódio e o Amor e desta disputa todas as coisas são geradas em sua pluralidade.
No entanto, este processo não chega ao extremo da separação total de todas as raízes, pois a força inicial que é o Amor ainda subsiste atuante e por isto gera se o cosmos na prevalência do Caos.
Empédocles explica este processo do seguinte modo:
Do estado inicial da união se desprende uma pequena porção que cai dentro de uma espécie de divindade descrita primeiramente por Xenófanes do qual Empédocles parece seguir os passos ao afirmá-lo como sagrado e cuja mente é inarrável o qual chama de Sphairos.
Ele gera o cosmos e, dentro deste cosmos recém-gerado que é concebido pelo autor como esférico, continua a agir a força do Ódio gerando divisões, ou seja, separando esta esfera em partes.
Primeiro o Éter depois o Ar e o Fogo que juntos formaram o céu e os astros que são impulsionados pelo movimento que é gerado pela luta entre o Amor e o Ódio.
Sol e LuaNeste céu recém-formado da primeira separação estão presentes o sol, do qual apenas percebemos o reflexo, a sua filha lua e todas as outras estralas fixas que estão sujeitas ao firmamento composto de Ar e Fogo.
Após esta separação houve a distinção entre a Terra e a Água, ainda em um movimento descendente se formou a Terra que ocupa o centro do cosmos e é sustentada por forças que atuam sobre ela pressionando-a pôr todas as partes.
Esta terra forma, em virtude desta pressão, o Mar que é o seu suor.
No terceiro momento do segundo ciclo temos o triunfo da discórdia, onde ocorre a predominância do Ódio que conduz por sua vez a separação completa dos elementos e por isto afirmava Empédocles seguindo a Heráclito que o Ódio e a discórdia são os princípios da multiplicação das coisas, pois sem a discórdia todas as coisas seriam um único ser, ou seja, o Ódio é o responsável pela geração de todas as coisas exceto aquilo que é uno.
c) E assim, com o fim do segundo ciclo, chegamos ao último que corresponde ao triunfo do Amor sobre o Ódio, dado mediante uma intervenção de Afrodite que impede a completa desunião de todas as coisas, quer dizer, o triunfo total do Ódio.
Como aponta Empédocles, Afrodite se instala no centro do turbilhão que é formado pelo movimento de rotação sistêmico exercido pelo Amor e pelo Ódio em sua constante luta.
Ao inserir-se dentro deste turbilhão, a deusa realiza uniões parciais das quais resultam todos os seres através da união das raízes.
Desta forma, através do influxo do Amor, a união entre a Água e Fogo referenciados no fragmento como Nestis e Hefesto se formaram os ossos, e do encontro entre a Terra e o Fogo com a chuva e o Éter formaram se o sangue e os músculos.
Depois esse todo cresce e, na medida em que se agrupam, geram uma única coisa.
Do uno se dividem muitos seres por efeito do Ódio que os separando mediante sua força “multiplica” o Ser em vários enquanto o Amor os reagrupa “gerando” novos seres.

Com isso podemos perceber o movimento como resultado da ação ora do Amor ora do Ódio.
Quando o Amor gera o uno a partir do múltiplo temos determinado movimento.
Quando o Ódio gera o múltiplo partindo do que antes era uno, existe outra forma de movimento.
O mundo aqui permanece em constante movimento como afirmava Heráclito.
Contudo, Empédocles admite também o repouso, que é o tempo sem movimento, no intervalo entre ambos os movimentos como afirmava Aristóteles.

Na filosofia de Empédocles portanto, as concepções de morte e nascimento são equívocos. O próprio afirma que quando os elementos assomam à luz solar sob a forma humana, ou sob a forma do animal selvagem, planta ou ave, costuma se chamar este processo de geração ou nascimento.
Já quando estes elementos, ou raízes, se separam, costuma se utilizar para tal a palavra morte, que estando no senso comum, e por isto respeitada por ele, não possui justificação.

Esta forma de pensar foi herdada dos filósofos Eleáticos: a impossibilidade do nascer como procedência do “Não Ser”.
Aqui o filósofo segue uma linha já propostas por Parmênides para a solução do problema Eleata.
O nascer e o morrer não são passagens entre o “Não Ser” e o “Ser” ou entre o “Ser” e o “Não Ser”, mas sim a mescla e a separação dos elementos.

Daqueles tipos de união possível de acontecerem entre as raízes temos dois modos possíveis:
a) as uniões que ocorrem pelo império do Amor, por afinidade entre os elementos existentes no Ser, onde o doce se une ao doce, o amargo busca o amargo, o quente ao quente.
Ex: a água é capaz de se unir ao vinho, mas não ao azeite por falta desta afinidade.
b) as uniões que ocorrem por conta do azar onde impera o Ódio.
Há quem na academia que distinga nesta parta da cosmogonia empedoclística duas zoogonias distintas entre si, ou seja, dois relatos distintos sobre a origem dos animais.
Isso que implicaria em duas cosmogonias distintas dentro da mesma obra.
Esta postura se reserva aqueles que adotam uma visão mais tradicional com relação à obra do autor.
Contudo, esta dificuldade encontra atualmente uma corrente que afirma poder resolvê-la mediante a aceitação da impropriedade de se admitir duas zoogonias, isto se daria ao afirmar que os dois momentos descritos no fragmento não são ciclos cósmicos distintos, mas sim apenas um mesmo ciclo que comporta as duas ações, tanto do Amor quanto a do Ódio na formação dos seres.
Destas duas correntes de interpretações, tanto a via tradicional quanto a segunda ainda são campos em aberto e requerem estudos para comprovar a validade de cada uma das proposições sobre a obra empedoclítica.
Além disso, ainda temos a situação de novos fragmentos descobertos da obra do autor que ate então eram desconhecidos, um testemunho direto da obra de Empédocles.

Após esta breve explicação sobre as formas de união possíveis aos elementos, o nosso autor segue o relato da criação partindo das árvores que sendo atraídas pelo frio lançam suas raízes para o interior da terra da qual se alimentam enquanto o sol atrai os ramos e o tronco das árvores em direção a si.
Ainda por influxo do Amor se uniram as diversas partes dos animais presentes no campo, no mar, e no ar, que por ação do Ódio tinham surgido dispersos.
Eles primeiro se uniram por azar gerando uma série de seres monstruosos do tipo:
Duas Caras
-metade humanos e metade animais;

-com vários braços ou duas caras;

-metade homem e metade mulheres;

-etc

Até que pela mescla proporcionada dos elementos causada pelo Amor, foram aparecendo as espécies harmônicas.
Alguns acadêmicos pretendem enxergar uma espécie de evolucionismo nos fragmentos de Empédocles, mas isso é incompatível com os próprios fragmentos preservados dos poemas, seja porque não há indicações de uma evolução sistemática até o aperfeiçoamento das espécies, seja pelo fato do próprio autor admitir a presença do azar na ordenação dos elementos e das associações destes.
Por estes motivos podemos afirmar que um princípio evolucionista passou longe aos olhos do autor.

Após a formação da terra, do mar e dos animais em seus mais variados espécimes, chegamos a formação do Homem que além do seu corpo que é formado por Água, Terra e Fogo.
Na visão de Empédocles, o homem também possui uma alma que é composta por Fogo e Ar e que é encerrada no corpo como que em uma túnica.
Se trataria de um demônio caído no corpo por uma culpa originária assim como afirmava o orfismo.

Ainda sobre a formação do homem, temos um outro estudo importante fornecido por Empédocles, uma teoria sobre a embriologia humana.
Como vimos anteriormente, todas as coisas tiveram seu início partindo da terra, através da união das raízes surgiram os órgãos, os ossos e os músculos que se agregaram para compor os mais variados seres, quer por afinidade, quer por azar.
Contudo, após este período de formação, o processo de reprodução destes seres é iniciado, e aqui se encontra outra originalidade de Empédocles.
Segundo ele a reprodução ocorreria através de um sistema de herança de características tanto do pai quanto da mãe do novo ser que era formado.
Sua explicação para isto servia se da noção de homeomerias, para ele os membros dos progenitores formavam miniaturas de si, réplicas, que eram enviadas as homeomerias, as sementes geracionais, o que seria equivalente ao material reprodutor.
Estas sementes formadas pelos corpos do pai e da mãe separadamente se encontrariam no útero da mulher e combinar iam-se dando origem ao novo ser, que teria características dos dois genitores.
Red Skull and Synthia SchmidtUm exemplo possível seria de que a semente do pai forneceria o formato do nariz e a da mãe seria responsável pelos olhos do infante.
O sexo do embrião seria determinado mediante a temperatura do local onde a semente cai, se esta temperatura fosse fria nasceria uma mulher e se fosse quente um homem, também segundo Empédocles os rebentos humanos tomariam a própria forma entre o sétimo e o décimo mês da gestação.

Como explicamos previamente, o nascimento e a morte são considerados como uma convenção terminológica por nosso autor, como vimos apenas existem a desagregação e a união mediante o Ódio e o Amor, daqui intuirá Empédocles que a saúde dependerá do perfeito equilíbrio entre os elementos presentes no sangue, que era considerado por ele como sagrado.
Desta noção de saúde e equilíbrio entre os elementos nasce a teoria dos humores, a qual afirma que a combinação dos elementos produzem quatro qualidades:
-do Ar e do Fogo se gera o quente, que corresponde ao humor sanguíneo, onde predominaria a atividade do coração.
-entre o Fogo e a Terra surge o seco, que corresponde ao humor melancólico, onde predomina as atividades braçais.
-da combinação entre a Terra e a Água gera se o frio, relacionado ao humor fleumático que é relativo a atividade cerebral.
-por fim, a união entre o Ar e a Água geraria o úmido ligado ao humor colérico, donde predomina a atividade do fígado.
Destas categorias, Hipócrates irá servir-se para criar seus métodos de tratamento para as mais variadas doenças.

Outra contribuição importante de Empédocles foi em sua teoria do conhecimento.
PercepçãoPara o autor, o homem consegue conhecer a medida em que percebe as similitudes entre um objeto e a sua própria constituição, ou seja, o homem conhece porque encontra nos objetos os mesmos elementos que estão presentes nele.
Com a terra conhece a terra, com o ar ele conhece o ar divino, com o Ódio o Ódio, com o Amor, o Amor presente no mundo.
Em cada órgão responsável pelos sentidos estão presentes os mesmos elementos dos quais o mundo exterior é composto e é através destes elementos que realiza-se a captação da informação presente neste mundo:
-Os olhos, por exemplo, eram constituídos de Fogo e envoltos em uma membrana de aspecto poroso, por onde passariam as informações dos objetos observados pelo olho.
-A pele, por sua vez, era imaginada como que composta por inúmeros poros assim como os olhos, e assim como no órgão anterior, estes poros são os responsáveis pela transmissão do conhecimento sensível que é realizado pelo sangue que se encontra presente junto do ar nestes poros que também realizam a respiração cutânea.
-O olfato tem sua origem na respiração, e conforme maior a intensidade do movimento respiratório, maior será a capacidade de percepção dos odores.
-Já a audição se origina dos sons vindos de fora do corpo pois quando o homem é excitado pela voz ela ressoa dentro dele.
Provocado pelo movimento dos seres e seu contato com o ar que ao entrar em contato com os corpos sólidos os faz ressoar, este movimento seria captado pelo que, segundo Teofrasto, Empédocles chamava de ouvido carnoso.
É interessante observar que estes poros não são similares em todos os sentidos e isto produz a diferença entre as informações captadas por estes, os poros presentes na língua são capazes de captar os eflúvios
relativos ao paladar, já os presentes no ouvido, os relativos aos sons, de modo que um setido não pode formular opiniões sobre os objetos inerentes a outros sentidos justamente pela incapacidade dos objetos de regularem-se a estes poros.
Este processo, além de descrever a possibilidade da percepção de um objeto, também aponta para uma certa incapacidade de percepção, caso estes não possam entrar em contato com os poros.
A capacidade do ógão formado pelos elementos como nos aponta Teofrasto também é influenciada pela sua formação.
Como exemplo, temos aqueles que possuem a vista fraca que seria causada por carência do Fogo enquanto elemento que seria necessário para a perfeita funcionalidade da visão.

Para Empédocles o sangue é a sede das sensações e ganha singular importância pois passa a ser considerado como sede da vida, o exemplo dado para justificar tal teoria é a sangria de um animal, quando retiramos o sangue deste ele desfalece, perdendo o movimento, depois a sensação e por último a vida.
Por isto nosso autor afirma que o sangue é vital para os seres vivos e ainda confere mais uma particularidade a este, afirmando que o sangue que rodeia o coração é o centro da vida, da alma e do pensamento humano.

A alma para Empédocles possuía uma natureza divina, como afirmava Aécio e comportava duas distinções básicas, isto é, dois gêneros: uma a qual chamava de alma orgânica, cuja característica principal era a mortalidade e comum aos demais seres existentes; outra a qual evocava como sendo um demônio divino que possuía o dom da imortalidade.
Outro dado interessante é a aceitação, por parte do autor, da transmigração das almas, tema já presente na academia pitagórica.
Para ele, as almas do segundo grupo, ou seja, os demônios, vagam pelos espaços até que encontrem algum corpo material para que possam encarnar.
Isto se passa em decorrência de uma falta originária, o pecado, que provocou a queda do homem de um estado celeste e feliz para a existência presa dentro desta túnica que é o corpo.
Estas seriam doutrinas até então aceitas e difundidas dentro do orfismo e do pitagorismo.

Contudo, este estado de encarnação no poema Purificações se torna uma espécie de infelicidade uma vez que o carcere do corpo se agrava mediante a transmigração das almas.
Ela é regida por uma lei expiatória inevitável, e não bastasse apenas estas almas encontrarem um corpo, elas também estavam obrigadas após a decomposição do seu corpo físico a encontrar outro corpo, e isto sujeita a um ciclo indeterminado regido pela lei da necessidade.
Esta Lei é fruto de um decreto muito antigo firmado pelos deuses, um decreto que, segundo Empédocles, é eterno e selado por grandes juramentos.
Caso esta lei fosse infligida pela alma, cometendo perjúrio ou algum assassinato, estas almas seriam apartadas da bem-aventurança durante três ciclos de dez mil anos, e obrigada a tomar a formas variadas de mortais ao longo de uma existência dolorosa.
Curiosamente, Empédocles se via como membro deste grupo de amaldiçoados, e culpava a confiança na discórdia em uma época pregressa, e julgava-se réu por ter comido carne de um animal morto, o que implicaria o derramamento de sangue, o que segundo ele inaceitável na chamada época Áurea, isto é, quando não existiam sacrifícios cruentos aos deuses uma vez que quem reinava era o Amor.
Aqui o autor não se refere a um sacrifício humano, mas sim aos de animais, o que em sua visão não possui diferença uma vez que a transmigração ocorre para além das fronteiras das espécies.
Para ele, quando alguém come a carne de um animal morto, está a comer a carne de um filho, filha ou de seu próprio pai que encarnou neste animal e isto geraria a punição das sucessivas encarnações.

Por este motivo, no fim de Purificações encontra-se uma doutrina que segundo o autor seria capaz de realizar a salvação destas almas atormentadas, uma espécie de retorno a felicidade primitiva presente no reino do amor e da unidade.
Embora o mundo órfico tenha proposto também uma doutrina da salvação, a que encontramos em seu poema difere desta uma vez que dispensa a iniciação a um determinado tipo de conhecimento como pressupunha o orfismo, e tampouco era necessário a expulsão de elementos titânicos também pregada por esta corrente.
Para o autor, este processo de salvação ocorreria automaticamente e de maneira natural mediante a transmigração realizada pela alma.

A primeira etapa desta purificação seria alcançada pela alma ao exercer a função de alguma classe das quais ele considerava como as mais importantes entre os homens da terra, esta classe era composta pelos homens capazes de realizar adivinhações, pelos homens dotados de criatividade, que eram os poetas de hinos, e por fim os homens que eram capazes de realizar curas, os médicos.
A segunda etapa para a purificação obrigava a alma após ter passado pelo primeiro processo a chegar ao estado de herói, e assim abriria as portas para a possibilidade de uma terceira etapa que consiste na deificação ou divinização, na qual a alma se tornaria um deus, a esta etapa o próprio filósofo acreditava pertencer, como afirmava aos seus concidadães de Akragas.
Contudo, esta salvação não possui um caráter universal, e portanto não é possível de ser atingida por todas as almas, uma vez que apesar de o caminho ser disponível, os erros e crimes das almas enquanto encarnadas faziam com que estas se perdessem no caminho da purificação, em meio aos ciclos dos anos e por isto os maiores malfeitores não seriam capazes de alcançar o último estágio.
Esta salvação também não possui caráter permanente, definitivo, pois tudo sempre retornaria por ação cíclica do Amor e Ódio.”

Texto de Allexsandro Martins Valente, Bacharel em Filosofia pela PUC-RJ

Caso você tenha alguma dúvida, crítica, pedido ou sugestão, entre em contato pelo email areafilosofica@gmail.com
Na medida do possível vamos tentar responder a cada um.
Até semana que vem e estudem com moderação!!!

Bibliografia:
-ARISTÓTELES, Fisica.
-_______, Metafisica.
-BUENO, Gustavo. La metafísica presocrática. Olviedo: Pentalfa, 1974.
-CAMPBELL, Gordon. National University of Ireland, Maynooth http://www.iep.utm.edu/empedocl/

-CARVALHO, Maria Amélia. Revista Simbio-Logias, v. I, n.1, mai\2008
-COSTA, Alexandre. Revista Filosófica de Coimbra n°21 Como e por que sobrevivem os pré-socráticos? Os exemplos de Empédocles e Heráclito, 2002.
-CURD, Patricia e GRAHAM, Daniel W. The Oxford Handbook of Presocratic Philosophy: USA: Oxford University Press, 2008.
-FRAILE, Guilhermo. História de la Filosofia-Grecia y Roma. Madrid: Ed. BAC, 1976.
-PARRY, Richard. “Empedocles”, The Stanford Encyclopedia of Philosophy (Fall 2012 Edition), Edward N.Zalta (ed.). URL:
<http://plato.stanford.edu/archives/fall2012/entries/empedocles/&gt;
-PINHARANDA, Gomes. Filosofia Grega pré-socrática. Lisboa: Guimarães Rosa, 1994.
-REALE, Giovanni. Pré-Socráticos e Orfismo: historia da filosofia grega e romana. São Paulo: Edições Loyola, v. I, 1993
SIMPLÍCIO, Física.

Anaxágoras de Clazômenas

“Hoje começamos a profundar aqueles que pensadores que semana passada demos o nome de pluralistas.
Os primeiros que aparecerão aqui serão Anaxágoras, Empêdocles e os Atomistas (Leucipo e Demôcrito).
Começaremos com Anaxágoras de Clazômenas, mas antes de entrar propriamente no que foi sua vida, faz falta explicar o porquê de começarmos com ele.

De fato, a maior parte dos pesquisadores costuma falar primeiro de Empêdocles e depois de Anaxágoras.
Isso se dá porque, ainda que Anaxágoras tenha nascido antes, Aristóteles afirma que escreveu depois, de modo que muitos diriam que o pensamento de Empêdocles influenciou Anaxágoras de maneira que deveríamos primeiro começar com ele.
Apesar disso ser seguido por quase todos os especialistas, o fato é que não há certeza sobre o assunto.
Além disso, Diógenes Laécio tem um testemunho que indica que Empêdocles, quando jovem, ouviu Anaxágoras, isto é, tomou conhecimento da filosofia dele antes de começar a escrever.
Para então evitar brigas, penso que o melhor seja considerar Anaxágoras e Empêdocles como contemporâneos e entender as semelhanças de seus pensamentos não como fruto de influências de um sobre o outro (ainda que não seja absurdo pensar nisso), mas como resultado de tentarem dar respostas aos problemas de um mesmo autor, Parmênides.

Anaxágoras parece ter nascido em 500 a.C. na cidade jônica de Clazômenas.
Isso explicaria a proximidade que seu pensamento tem com a filosofia milesiana.
Mudou-se para Atenas donde viveu por mais ou menos 30 anos, até que foi condenado e preso por impiedade.
PériclesEnquanto estava Atenas fundou a primeira escola de filosofia da cidade e tinha o favor de Péricles o grande estadista.
A única Obra da qual temos notícia é seu tratado Sobre a Natureza.
Uma vez que foi preso em Atenas, quando conseguiu escapar teve que se refugiar na cidade jônica de Lâmpsaco onde também fundou uma escola filosófica.
Se conta ainda que previu a queda de um meteoro durante a batalha de Egospôtamos, porem não temos certeza se realmente foi uma previsão ou se apenas afirmou que era possível esse tipo de evento.
Morreu em em 428 a.C.

Antes então de seguirmos com o texto para explicar seu pensamento filosófico, é importante ressaltar que ele é um dos filósofos que tentou responder aos problemas trazidos por Parmênides sem fazer uso de ridicularizações toscas.
Sua filosofia vai, além de muitas coisas, buscarexplicar o movimento e a mudança sem romper com o importante princípio de Parmênides de que o “Ser” é e não pode não ser e o “Não Ser” não é e não pode ser.
Quanto a Zenão não temos certeza, mas é possível que Anaxágoras tivesse algumas de suas teorias em mente quando falou algumas coisas, mas enfim…
Vamos ao que interessa!!!

Anaxágaras vai falar em sua filosofia de…
5 espécies de Entidades:
-Objetos e suas partes
-Ingredientes Básicos
-Porções
-Sementes
-Mente
6 princípios básicos:
-Não há vir a ser ou perecer
-Existem muitos tipos diferentes de Ingredientes Básicos
-Há uma Porção de todas as coisas em todas as coisas
-Cada coisa é mais simplesmente aquelas coisas que estão presentes em maior quantidade
-Não há a mais ínfima porção de todas
-A Mente não se mistura com outras coisas e tem as seguintes funções: conhece tudo; rege tudo; ordena tudo; causa o movimento

Vamos então ver um pouco sobre as 4 primeiras entidades e os 5 primeiros princípios de modo que fique claro o que Anaxágoras tem em mente quando fala dessas entidades e de que maneira atuam esses princípios.
Ao fim, abordaremos o que diz respeito sobre a Mente.

Por último, antes de começarmos, tenho que avisar que vou fazer umas mudanças na ordem dessa explicação por motivos didáticos.
Por mais completa e profunda que seja a analise proposta por McKirahan, o fato é que acaba sendo um pouco confusa para qualquer pessoa que não estude filosofia profissionalmente.
Assim, vamos entender o que significa cada Entidade vista por si mesma e, no momento que começarmos a falar dos Princípios, vamos ver como essas entidades se relacionam.

a) Objetos e suas partes:
Nessa categoria podemos incluir tanto os objetos comuns aos quais percebemos, quanto cada uma de suas partes.
Ao longo do texto vamos ter que utilizar outro termo para nos referir a essas realidades: Objetos Macroscópicos (ou simplesmente Objetos).

Exemplos desses Objetos Macroscópicos poderiam ser de dois tipos:
-aparentemente uniformes: aquelas coisas que se quebradas em outras partes, cada parte receberia o mesmo nome da parte original.
ex: pedra, gota de sangue, água etc.
De fato, um pedra (ou gota de sangue, ou água…) se quebrada em várias partes, cada parte vai também se chamar “pedra”.
-claramente não uniformes:
ex:. animais, árvores, casas etc.
Uma árvore (ou animal, ou casa…), caso seja dividida em muitas partes, acabará que as partes não só serão diferentes de “árvore”, mas também serão diferentes entre si (raiz, caule, galho, folha etc).
Por último, vale dizer que, de certa forma, todas as outras entidades são pensadas pelo autor para explicar a geração, a existência e o comportamento desses Objetos Macroscópicos
b) Sementes:sementes1
De fato, temos somente duas menções sobre Sementes em Anaxágoras.
Por conta da análise de Aristóteles, muitas vezes essas Sementes foram lidas como aquilo do qual todos os Objetos Macroscópicos estão compostos (que em seguida veremos que são os Ingredientes Básicos e suas Porções), mas se recorremos aos fragmentos do filósofos acabaremos vendo que não é exatamente assim.
Isso que é apresentado como sendo Sementes, vamos chamar de Objetos Microscópicos.
Eles de fato estão não composição dos Objetos Macroscópicos, porem de maneira distinta do que Aristóteles falou.
Com isso, podemos dizer que Anaxágoras se compromete com a existência objetos separáveis e contáveis tanto em nível microscópico quanto em nível macroscópico.
Talvez a grande dificuldade nessa teoria é o fato de que o autor não apresente outros exemplos de Objetos Microscópicos além dessas Sementes, de maneira que ficamos sem muito com o que comparar.
Por último, vamos dizer que os Objetos Microscópicos possuem a mesma estrutura dos Objetos Macroscópicos, porem falaremos dessa estrutura no próximo tópico.
c) Ingredientes Básicos:
Em suma, é aquilo do qual são compostas todas as coisas (Objetos Macroscópicos ou Microscópicos).
Se dizemos que, por exemplo, um animal é composto de carne, osso e sangue (ainda que não só disso), então temos que possui os Ingredientes Básicos “carne”, “osso”, “sangue” etc.
Outras qualidades perceptíveis como o quente e o frio (e também o úmido, o seco, a cor, o sabor etc) também são considerados Ingredientes Básicos.
Desse modo, além desses Ingredientes Básicos determinarem as características físicas mais evidentes, também determinaram todas as demais qualidades de qualquer objeto.
d) Porção:
Esta é simplesmente a quantidade de Ingredientes Básicos que algo contem.
Infelizmente Anaxágoras não deixa claro como podemos medir essas Porções, de modo que para uma boa compreensão do autor não podemos pensar nelas como partes separadas, isto é, como partículas individuais das quais algo está formado.
Falar da Porção de “verde” numa folha não pode ser pensado como a quantidade de partículas de “verde”, mas simplesmente a quantidade de “verde”.

Sabendo então, mais ou menos o que significa cada um desses termos que a partir de agora vamos utilizar abundantemente, podemos dar sequência ao nosso estudo para entender os Princípios que regem as relações entre estas Entidades.
Agora faz faltar irmos bem devagar, pois a medida que formos vendo os princípios, vamos ter que também ir acrescentando algumas características às Entidades que acabamos de explicar.

Primeiro Princípio: Não há vir a ser ou perecer.
O fragmento tirado da Física de Simplício diz o seguinte:

“Mas o nascer e o perecer, os gregos não consideram corretamente; pois nenhuma coisa nasce nem perece, mas de coisas que são se mistura e se separa. E assim corretamente se poderia chamar o nascer de misturar-se e o perecer de separar-se”.

Antes de mais nada, como já dissemos antes, vemos aqui claramente que Anaxágoras pretende respeitar as conclusões de Parmênides.
O autor está supondo que a Matéria Primordial em Estado Primordial, diferentemente daquela que diziam os monistas, não é una, mas múltipla.
Falar de uma matéria que é una significaria supor uma transformação dessa matéria (que como vimos ao fim do texto sobre Parmênides se configura numa passagem do “Ser” ou “Não Ser”) para dar conta da pluralidade da realidade.
Já uma matéria que é múltipla pode explicar as dinstintas coisas do mundo sem recorrer á transformações, mas sim utilizando as noções de “mistura” e “separação”.
Assim, não se trata da passagem de “Ser” a “Não Ser”, mas de diferentes configurações de realidade que são e nunca deixarão de ser.

Tal como acabamos de expor, para Anaxágoras existiam os chamados Ingredientes Básicos das quais todas as coisas eram compostas.
Ora, esses Ingredientes Básicos serão justamente a Matéria Primordial em Estado Primordial do autor.
Quando esses Ingredientes Básicos se misturam ou se separam temos então a impressão de que algo nasce ou perece, mas no fundo se trata apenas de distintas configurações que podem tomar os Ingredientes Básicos.
De fato, pensar nisso de mistura e separação é mais fácil se levarmos em conta somente objetos como mesas ou cadeira, quer dizer, objetos que claramente são produzidos a partir da junção de outros materiais.
No caso, todavia, de realidades mais complexas com seres humanos, animais e plantas etc, bem como no que diz respeito às mudanças qualitativas, esse princípio precisará de mais algumas explicações.
Dito isso, podemos seguir ao segundo princípio.

Segundo Princípio: Há muitos tipos diferentes de Ingredientes Básicos
Se levamos em conta que esses Ingredientes Básicos são a Matéria Primordial de Anaxágoras, certamente devemos ser capazes de observar as semelhanças e diferenças em relação aos seus predecessores.
Ainda que não seja possível fazer uma grande lista que englobe todos os Ingredientes Básicos, é possível uma passada de olho bem rápida pelos fragmentos que possuímos para termos uma noção geral do tipo de coisas que Anaxágoras parece indicar com Ingredientes Básicos:
-úmido e seco;
-quente e frio;
-claro e escuro;
-denso e rarefeito;
-aêr e aithêr;
-terra;
-nuvem, água, pedras;
-cabelo e carne.

Tais itens nos mostram que Anaxágoras claramente está em diálogo com os anteriores filósofos, bem como que o autor pretende ir adiante daquilo que eles disseram.
O quatro primeiros pares de opostos nos revelam a influência milesiana em Anaxágoras.
Mais claro fica isso com os 3 seguintes grupos que recordam bastante a filosofia de Anaxímenes.
Já o último par é algo totalmente distinto do que já se havia proposto até então.
Não só temos que coisas como cabelo e carne são compostos de Ingredientes Básicos, mas que essas realidades mesmas são Ingredientes Básicos.
Claro que não quero dizer que esse cabelo que a gente penteia (ou não) seja um Ingrediente Básico, mas que dentre do “grupo” dos Ingredientes Básicos existem já algo que dá a característica de ser cabelo ao nosso cabelo.
E tem mais, se os fragmentos somente apresentam cabelo e carne como Ingredientes Básicos, quando recorrermos aos testemunhos teremos afirmados como Ingredientes uma quantidade muito maior de coisas, tais como: ouro, osso, veia, tendão, unhas, penas, chifres, madeiras, cascas, frutas etc.

Em suma, estamos dizendo que para cada Objeto particular da realidade, existe um Ingrediente Básico que da suas características e permite que a ele ser o que é.

Dai vem um outro ponto interessante, o caso das Sementes.
É normal que qualquer pessoa que já tenha estudado a filosofia pré socrática conheça Anaxágoras pela teoria da Matéria Primordial como Sementes (σπέρματα) ou Homeomerias (ὁμοιομέρεια).
Ora, conhecer Anaxágoras por essa teoria acarreta um grande problema para o estudo de sua filosofia, pois cria uma identificação entre Matéria Primordial; Sementes; Homeomerias que não parece existir nos fragmentos do autor.

Ta, mas se está errado, então por que todo mundo fala isso?
Bom, vamos por parte.

Primeiro, temos que ter em mente que durante muitos anos os pré socráticos não foram estudados a partir daquilo que eles mesmos disseram, mas a partir das informações que Aristóteles dava sobre eles.
Sem significar que tudo que Arstóteles fale sobre os demais filósofos esteja errado (pois isso seria um generalização bem estúpida), tão pouco podemos achar que estava totalmente certo.
De fato, antes de começarmos esses estudo, expusemos o porquê de haver problemas nas interpretações de Aristóteles, de modo que não faz falta que voltemos a falar disso (mas se você não lembra, ou não leu, pode encontrar a explicação aqui).

No caso concreto de Anaxágoras, Aristóteles confundiu a noção de Sementes com a de Ingredientes Básicos e ainda mudou o nome delas para Homeomerias.

[Em outros termos, ele leu Semente, entendeu Ingredientes Básicos e escreveu Homeomerias.]

O problema é que a noção que Aristóteles possui sobre Homeomerias (que no fim das contas eu ainda não expliquei o que são) não encaixa totalmente com aquilo que nos chegaram dos fragmentos de Anaxágoras.
Literalmente, Homeomerias significa “partes iguais”, porem Aristóteles as define como “coisas cujas partes são sinônimas com o todo”.
Ora, isso, como já foi explicado, funcionaria com qualquer um daqueles Objetos Macroscópicos que demos o nome de “aparentemente uniformes”, porem não com os que nomeamos de “claramente não uniformes”.
Ao fim, temos que as Homeomerias como Matéria Primordial são capazes de explicar somente parte dos Objetos Macroscópicos e não todos eles.

Explicado então o porquê de Homemomerias não ser um termo totalmente correto para explicar a Matéria Primordial de Anaxágoras, devemos então entender o motivos de tão pouco Semente o ser.
Também Simplício em sua Física nos traz o seguinte fragmento:Yoda.jpg

“Estas (coisas) sendo assim, é preciso admitir que muitas e de toda espécie são contidas em todos os compostos e sementes de todas as coisas, que formas de toda espécie têm, e cores e sabores”

Tal fragmento parece que foi pronunciado pelo Mestre Yoda, mas de maneira geral está dizendo que nos Objetos Macroscópicos há coisas de todas as espécies e Sementes (Objetos Microscópicos) de todas as coisas.

Ou seja, há tanto Sementes quanto “coisas de todas as espécies” (Ingrediente Básicos), de modo que não são a mesma coisa.
Esses Objetos Microscópicos seriam também identificados como constituídos dos Ingredientes Básicos, porem, em virtude de sua pequenez, nada manifestavam.
De fato, uma vez que já existam os Ingredientes Básicos que compõem todas as coisas, parece inútil falar de Objetos Microscópicos que também estão nessa composição, pois seria quase como falar de duas Matérias Primordiais (algo que é absurdo tendo em vista a própria noção de Total que atribuímos à Matéria Primordial).
Tal aparente problema será aclarado mais adelante, de maneira que para continuarmos basta ter em mente que nem Semente nem Homeomerias podem ser totalmente identificadas com a Matéria Primordial em Estado Primordial de Anaxágoras.

Para não seguirmos o texto pensando menos de Aristóteles do que ele realmente merece ser pensado, temos que o filósofo pronunciou uma sentença corretíssima sobre os Ingredientes Básicos (ainda que estivesse se referindo a eles como homeomerias).
Diz que são infinitamente muitos, ou seja, ilimitados, de maneira que parece infantil tentar fazer uma lista que contemple todos eles.
Apesar disso, podemos dizer ao menos que não se tratam apenas daquelas coisas pelo qual uma pedra é pedra ou uma árvore é árvores, mas também o que faz algo possuir qualidades como peso, umidade, cor etc.
Ainda que hoje em dia pareça estranho apresentar Substância e Qualidades no mesmo patamar, temos que Anaxágoras seguia a corrente milesiana de falar dos opostos como princípio.
Assim, quando contemplamos um pepita de ouro, não só supomos ali o Ingrediente Básico “ouro”, mas também os Ingredientes Básicos “pesado”,  “amarelo”,  “seco”, “frio” etc.
Para entendermos quais Ingrediente Básicos existem e cada Objeto e como se dá tal manifestação só será possível uma vez que tenhamos visto os próximos dois Princípios.

Terceiro Princípio: Há uma Porção de todas as coisas em todas as coisasgororoba
A importância desse princípio está no fato que a partir dele Anaxágoras tentará explicar o fenômeno das mudanças no mundo se romper com aquilo que disse Parmênides.
Claro que, por “todas as coisas”, não queremos dizer todas as coisas individuais, mas somente os Ingredientes Básicos que determinam essas coisas.
Se antes dizíamos simplesmente que os Objetos Macroscópicos eram formados por Ingredientes Básicos, agora damos uma passo a mais e dizemos que cada um dos Objetos que conhecemos na realidade tem em si uma Porção (por menor que seja) de todos os tipos de Ingredientes Básicos que possam existir.
Com isso, se entende que a mudança não significa uma passagem de “Ser” para “Não Ser”, mas que alguns dos Ingredientes Básicos que já estavam nas coisas (e que sempre são) se manifestam enquanto outros deixam de se manifestar.

Apesar de parecer um princípio bastante simples, é mais do que necessário que o entendamos bem para evitar cair em alguns problemas que poderiam fazer com que a filosofia de Anaxágoras parecesse um discurso absurdo.
O erro mais comum ante esse princípio e o de pensar que isso significa que em um Objeto qualquer existam partes de todos os outros Objetos.
De fato, para que isso não ocorra devemos nos recordar o que a pouco falamos sobre as Porções.
Elas não são como partes ou partículas de coisas, mas simplesmente a quantidade de determinado Ingrediente Básico que existe ali.
Não significa que num bloco concreto de mármore eu possa achar partes madeira, animal, fruta etc.
Todos os Ingredientes Básicos estão ali, porem não necessariamente manifestos (poderíamos incluso utilizar a palavra “diluídos”, porem tendo em vista que não passa de uma analogia).
Estudando o próximo princípio vamos entender um pouco o porquê de em determinados Objetos estarem manifestas as características de alguns Ingredientes Básicos e de outros não.

Além disso, pode ser alguém diga que esse não é um princípio muito econômico.
De fato, eu não precisaria supor que, para explicar a mudança de um Objeto, nele estão todos os Ingredientes Básicos, mas apenas alguns, afinal, nem todas as coisas se convertem em tudo.
Ora, tal apontamento estaria muito acertado se Anaxágoras quisesse explicar apenas a simples mudança de uma substância a outra, porem não se trata apenas disso.
Com tal princípio, o autor quer dar conta não só de uma mudança que acontece, mas de todas as subsequentes que podem vir a ocorrer.
Além do mais, investigar cada mudança particular seria um trabalho altamente fatigante e fora das perspectivas de qualquer um dos filósofos da época, de maneira que a afirmação mais genérica de que tudo está em tudo é, na verdade, muito mais econômica.

Princípio 4: Cada coisa é mais simplesmente aquelas coisas que estão presente em maior número
Mais uma vez faço a distinção que fiz ao começar a tratar o terceiro princípio: “aquelas coisas que estão presente em maior número” deve ser entendido como “aqueles Ingredientes Básicos que estão presentes em maior Porção.
É justamente esse o motivo pelo qual o princípio anterior não supõe que existam partes de todas as coisas em determinado Objeto, pois só se manifestam os que estão presentes em maior Porção (e chamaremos isso de Ingrediente Básicos dominantes)
Para Anaxágoras, há como que Ingredientes Básicos que são concorrentes de pelo menos duas maneiras distintas:
-Se caraterizam o que chamamos de opostos (quente e frio, seco e úmido, leve e pesado etc), dizemos que há somente dois Ingredientes Básicos estão concorrendo.
-Para os demais, podemos dizer que em geral a concorrência se dá entre um maior número de Ingredientes Básicos.

Assim, se o terceiro princípio afirma a existência de Porções de todos os Ingredientes Básicos em cada coisa, este complementa dando a entender que essas Porções estão em quantidade distintas.
Com isso em mente, fica fácil entender que, para o autor, as mudanças não passam da reconstituição (que poderíamos pensar como concentração ou diluição) das Porções de Ingredientes Básicos do Objeto.
Infelizmente, além de Anaxágoras não explicar de que maneira poderíamos medir essas Porções, também não deixa claro como se dá essa reconstituição.
No máximo poderíamos especular um pouco e dizer que existem determinados processos (até porque as mudanças não são aleatórias) que operam essa reconstituição mudando a concentração de Ingredientes Básicos.

[Vamos então especular]
Nessa especulação apareceria finalmente o papel das Sementes na composição dos Objetos Macroscópicos.
Essas Sementes serviriam como catalisadores dos Ingredientes Básicos, ou seja, pontos focais para a acumulação deles.
Aquelas Porções de Ingredientes Básicos que não são dominantes seriam, mediante um processo específico, tornadas manifestas e acumuladas às espécies apropriadas de Sementes até o ponto de as converter em um Objeto Macroscópico que tanto pode aumentar um que já existe quanto pode constituir um novo.
Como já estamos especulando mesmo, vamos tentar entender como poderia ser esse processo.
Ante dizíamos que as Porções não são partes do objeto, quer dizer, que não são constituintes físicos.
Assim, precisamos de um termo pelo qual possamos chamar essas Porções de Ingredientes Básicos que se tornam manifestas (e consequentemente passam a ser algo físico).
O nome que McKirahan seu para isso foi Porção-Parte.
Primeiramente temos que entender que esse se esse conceito diz respeito ao manifestar-se de uma Porção de um Ingrediente Básico num processo de mudança, então só podemos pensar em Porção-Parte no contexto da mudança.
Nunca podemos falar (pelo menos não com Anaxágoras) dessas realidades em um objeto estável, isto é, que não está em mudança, pois isso seria cair naquele erro de pensar que “tudo está em tudo” significa que “tudo tem partes reais de tudo”.
Se entendemos então como estando no contexto “Processo de Mudança”, devemos dizer que essas Porções-Partes não são constituintes físicos do Objeto original, mas sim daquele Objeto que resultará da mudança.
Assim, quando um pão é digerido, o processo de digestão faz com que se manifestem Porções-Partes de, por exemplo, “osso” que serão focadas nas Sementes “osso” já existentes no Objeto Osso real.

Eu sei que não é algo muito simples de entender, mas no fim a filosofia é um pouco assim…
Sem labor e esforço (que significaria ter que ler o mesmo texto umas 15 vezes até entender) não se chega muito longe.
[Fim da especulação]

Acabado então nosso momento de especulação, devemos voltar para o autor.

Até aqui, se pensamos apenas na questão das gerações não há muito problema, afinal, haviam Porções de Ingredientes Básicos não dominantes que se separam do Objeto Original e constituem um novo Objeto.
O problema, é que nossa experiência nos indica que existem mudanças onde não só surgem um novo Objeto, como também o Objeto Original deixa de estar constituído, isto é, “perece”.
Um exemplo seria a própria digestão, afinal, uma vez digerido o pão simplesmente não há mais pão.
A dificuldade nesse caso é que, teoricamente, caso um Objeto perdesse Porções de Ingredientes Básicos não dominantes, o normal seria que a proporção das Porções de Ingredientes dominantes aumentasse.
Isso faria com que a coisa fosse ainda mais fortemente ela mesma, não que perdesse sua existência.
Quero dizer, se o pão que está sendo digerido perde Ingredientes Básicos não dominantes, não conseguimos explicar como ele deixa de ser pão, afinal, mediante essa perda daquilo que não é dominante, o dominante deveria ter uma concentração proporcionalmente maior.
Em outras palavras, o que Anaxágoras tem que explicar e que parece que não explica é como que na passagem de um Objeto X para um Objeto Y, não só o que estava presente em menor quantidade (y) vem a estar numa maior, mas também como o que estava em maior quantidade (x) passa a estar em menor.
Infelizmente esse é um problema que ficará sem solução.

Quinto Princípio: Não há a mais ínfima Porção
Esse princípio parece ter sido apresentado para que funcione bem o terceiro.
Assim, começaremos pelo problema do terceiro princípio que pede esse quinto.
Quando falamos que cada e todas as coisas possuem pelo menos uma Porção de cada Ingrediente Básico, podemos cair num problema que invalidaria a tese de Anaxágoras.
Para facilitar (até porque já complicamos muito nas últimas linhas), vamos utilizar um exemplo numa realidade fictícia donde existissem somente dois Ingredientes Básicos: A e B.
Qualquer Objeto X deve necessariamente conter alguma quantidade de A e de B.
Mediante determinado processo, um pouco do Ingrediente A pode ser concentrado a ponto de se converter em uma Porção-Parte de A, isto é, em um constituinte físico que chamaremos de Porção-Parte A’.
Ora, segundo o terceiro princípio, sendo Porção-Parte A’ algo na realidade, deve conter não só Porçõe de A, mas também de B, pois tudo tem Porções de tudo.
Pois bem, digamos então dessa Porção de B em A’, um pouco do Ingrediente B se concentre (também por certo processo) a ponto de formar uma Porção-Parte B’.
Consequentemente, nessa Porção-Parte B’ tem que ter tanto Porção de B quanto Porção de A.
Isso poderia seguir infinitamente sem qualquer limite.
Além disso, acrescentamos que uma Porção num Objeto deve ser menos que o próprio Objeto (algo como o princípio de que a parte é sempre menor que o todo) e, dessa forma, cada vez que se gera uma Porção-Parte, a Porção de qualquer Ingrediente Básico nela é menor que a que tinha no pedaço precedente.
O problema é que, se existir um limite mínimo para o tamanho das Porções-Partes, ou seja, uma situação alcançamos uma Poção-Parte ínfima da qual não podemos mais tirar nenhuma outra Porção-Parte, significaria alcançar a substância em si na realidade, ou seja, algo que não possui composição, mas é puramente A ou puramente B.
Isso praticamente invalidaria o terceiro princípio e, dessa forma, não mais conseguiríamos explicar as mudanças como não sendo passagens de “Ser” para “Não-Ser”.
Assim, com o quinto princípio afirmando que não existe a ínfima parte, supõe para nós que algo pode ser ilimitadamente dividido sem que nunca se chega à substância pura.

Uma vez que já dissemos tanta coisa, o que eu realmete gostaria de fazer é parar por aqui e dar como encerrado, porem isso significaria deixar de lado a ultima Entidade e o último Princípio.
Então, recobrando o ânimo, vamos ver o que Anaxágoras fala sobre a Mente.
Mas não se preocupem, é algo substancialmente mais simples.

Sexto princípio: A Mente não se mistura com outras coisas e tem as seguintes funções: conhece tudo; rege tudo; ordena tudo; causa o movimento
Para seguirmos e entendermos um porco mais sobre a Mente, bem como sobre suas funções, parece necessário nos perguntarmos o motivo de Anaxágoras ter falado de Mente.
Pois bem, o que traduzimos como Mente seria o que os gregos chamava de Nóus (νούς).
Como já dissemos em outra ocasião, porem vale a pena repetir, seria a forma mais perfeita de uso da razão.
Parece que para Anaxágaras, não somente os seres humanos possuem esse tipo razão, mas também a plantas (e consequentemente os animais).
Se observamos bem, tudo isso que Anaxágoras afirma como tendo nóus são também realidades consideradas viventes.
Ora, o próprio dos seres viventes é poder ser causa de movimento e de mudanças, assim, quando ele diz que todos eles possuem mente, Anaxágoras parece entender que aquilo que é causa de mudança e movimento tem que ser Mente.
Devemos ainda levar em conta o fato de que Anaxágoras está fazendo filosofia como sempre se fez, isto é, partindo de realidades cognoscíveis à simples observação para então dar o salto àquilo que não é tão fácil de ser percebido.
Dai, se por termos mente podemos ser causa de algumas mudanças, a entidade Mente de Anaxágoras será a causa última de todas as mudanças.
MegamenteEle não está dizendo que há uma “Mega-Mente” a imagem e semelhança da nossa mente que está por trás tudo, mas sim o contrário.
É a nossa mente que de alguma forma participa imperfeitamente dessa realidade e que, por isso, acabamos a chamando de Mente.
Assim, para evitar problemas, vamos simplesmente chamar essa entidade Mente de “Mente Cósmica” em oposição a mente que temos e que Anaxágoras pensava ter os animais e as plantas.

A natureza especial da Mente Cósmica vai se refletir justamente no princípio que diz respeito a ela.
Em primeiro lugar, quando falamos que ela não se mistura com as outras coisas, temos que é a única exceção ao terceiro princípio (que tudo está em tudo).
Esse não se misturar significa dizer que a Mente Cósmica é pura.
O que faz com que a Mente Cósmica tenha que ser pura são as funções que ela deve realizar, mas especialmente a função de reger que não poderia ser realizada se a Mente Cósmica não fosse pura.
Vejamos o porquê…

Quando dizemos que a Mente Cósmica rege, afiramos que rege tudo o que há, de modo que deve estar sempre nas coisas e por todas as suas partes.
Isso significa que ela é ilimitada no tempo e no espaço.
Esse ser ilimitada não é bem em relação à sua quantidade, tal como no caso dos Ingredientes Básicos.
De fato, o que traduzimos como ilimitado, é a palavra Ápeiron (ἄπειρον) que aparecia em Anaximandro.
Sendo então ápeiron, a Mente Cósmica deve ser toda homogênea, isto é, toda igual em suas partes.
Ora, aquilo que é todo igual em suas partes não pode ser misturado.
Além disso, sendo ela mesma distinta qualitativamente do resto das coisas, pode agir sobre essas coisas sem ser afetada por elas.
Como também não tem tamanho positivo, afinal não possui Porções ou Porções-Partes, pode penetrar e permear totalmente as coisas e suas ilimitadas (não no sentido de ápeiron) partes e Porções.

O interessante dessas características necessárias para explicar a regência é que parece muito com algo imaterial.
Claro, que seria estranho afirmar um pré socrático que já usasse o conceito de imaterialidade, porem, ainda que lhe falte o termo, talvez ao menos a ideia já estivesse ali.
Tal deficiência terminológica é o que faz com o filósofo fale da Mente Cósmica como a coisa mais sutil, ou seja, ainda algo físico.

Pois bem, além do poder da Mente Cósmica de fazer as coisas se moverem ela o faz de maneira ordenada.
Não é uma movimento que ocorre de maneira aleatória, mas dispondo ordem.
Disso temos o termo Diakosmein (διακοσμεῖν), que significaria o cosmos como um arranjo belo e verdadeiro.
Essa noção de reger e ordenar o cosmos em um diakosmein pode ser aprofundada ainda mais um pouco.
Para Anaxágoras, a Mente Cósmica não funciona apenas como um agente mecânico (ainda que em totalidade de seus sistema se configure nisso), mas conhece antecipadamente todas as coisas e gera esse ordenamento de maneira deliberada.
Isso se expressa quando o autor diz que ela “tem todo juízo sobre todas as coisas”.
Se acabamos de dizer que ela não é um agente mecânico, agora precisamos afirmar que ela regula o mundo justamente por processos mecânicos (basicamente o que diz respeito às 4 primeiras entidades e 5 primeiros princípios).
Tal como o homem pensa e isso é proveniente do fato de que participa (esse termo não é apropriado, mas é necessário) da Mente Cósmica, o fato de termos desejos, também indica que ela tem “desejos”.
Conhecendo todas as coisas ela “deseja” o ordenamento e causa age como causa última do movimento de maneira que rege sobre todas as coisas e cada uma de suas partes.
Com essa afirmação, podemos dizer que Anaxágoras nos arrasta para o reino da Teleologia, isto é, das causas.
O estado resultante das coisas é um finalidade em vista da qual todos os acontecimentos vem a ser.

Platão e Aristóteles ficaram bastante empolgados com essas teorias, porem logo se desencantam com Anaxágoras.
Ambos afirmam que o autor foi muito preciso em falar da Mente Cósmica como causa de tudo, porem falhou em fazer uso dessa afirmação.
Ainda que como um todo estejamos numa mundo teleológico, o fato é que as coisas seguem acontecendo de forma mecânica.
Mediante isso, alguns autores modernos chegam a dizer que a Mente Cósmica de Anaxágoras é quase como um “Deus Ex-Machina”, isto é, algo que o filósofo utiliza como um curinga para explicar aquilo que sua filosofia não consegue.

Essa problemática fica ainda mais clara se olhamos para a Cosmogonia que propõe Anaxágoras.
Ele afirma no no princípio “todas as coisas estavam juntas”, de modo que nada se manifestava.
Isso significa que nenhum Ingrediente Básicos estava suficientemente concentrado a ponto de se manifestar em partes Macroscópicas, porem supõe que já existiam as Sementes.
A Mente Cósmica vai então iniciar um movimento de rotação, que normalmente se dá o nome de Vórtice e vai aparecer em outros filósofos, em uma pequena área daquela mistura inicial.
Aqui já teríamos problemas em explicar o porquê da Mente Cósmica começar esse movimento num determinado momento e não em outro, mas como tão pouco o autor parece se preocupar com isso, seria perda de tempo de nossa parte ficarmos presos aqui.
Com o inicio do movimento de rotação duas coisas acontecem: expando o lugar onde ocorre a rotação (bem como a velocidade dela) e as coisas vão começando a se tronarem distintas em meio da mistura indistinta.
Como já haviam Sementes, como a rotação essas semente vão começando a funcionar como pontos focais de Ingredientes Básicos apropriados (como já falamos antes) e vão começando a surgir Objetos Macroscópicos.
Os primeiros a se distinguirem teriam sido o aêr e o aether por serem os maiores em quantidade e grandeza.
Teve quem reclamasse que isso era contraditório pelo fato de que se assim o fosse, então os dois estariam manifestados, afinal, dominavam em quantidade sobre os outros Ingredientes Básicos.
Isso se responde lembrando que são considerados opostos, de maneira que não competem com os outros, mas só entre si.
Assim, não precisam ter a mesma grandeza que todos os outros Ingredientes Básicos, mas somente terem a mesma grandeza um que o outro para que siga sendo verdadeiro que antes do vórtice nada era manifesto.
Seguindo, mediante a ação da Mente Cósmica, o aêr ficou no centro e forma o nosso mundo, e o aether foi para as periferias formando o mundo cósmico.
De pois disso serão um série de explicações mecânicas que não fazem falta em nossa explicação.

Por último, sobre o processo de geração do cosmos, temos que até agora a impressão que dá é que o movimento acontece apenas por dissociação, isto é, por coisas que se separam da mistura original.
Dessa forma, teríamos que dizer que quando tudo estivesse dissociado não haveria mais movimento, de maneira que a teoria de Anaxágoras seria muito limitada.
Contra essa crítica poderíamos dizer que a quantidade de matéria da mistura original é totalmente ilimitada e nunca acabaria de haver processos de dissociação, porem os especialista simplesmente não chegam a um acordo de isso é ou não proposto.
Dessa maneira, junto ao que chamamos de dissociação (que antes significava simplesmente o verdadeiro sentido do perecer, mas aqui é apenas separar-se da mistura original), deve ser pensado em “separação em direção de…”.
Esse termo significa que as coisas não só se separam da mistura original, mas o fazem para fazer parte de uma nova mistura, de modo que se as coisas se separam, mas podem voltar a se misturar, então o movimento não termina.
“Separação em direção de…” (que não é algo inventado, mas está nos fragmentos que nos trazem Simplício) poderia também ser traduzido do grego como “juntar no processo de separação”, que faria muito mais sentido tendo em visto o que queremos dizer.

Para relaxar, acho que vale a pena somente citar alguns pontos interessante do pensamento de Anaxágoras mais como curiosidades interessantes do que um conteúdo filosófico propriamente dito:
-a luz da Lua deriva do Sol;
-o Arco-Iris é a luz do Sol sobre a umidade do ar;
-o Cérebro é a sede das sensação;
ET.jpg-Há vida Humana alhures; (esse eu tenho que comentar)
A interessantes interpretações sobre isso.
Gente mais “pé no chão” diz que Anaxágoras apenas está indicando que deve haver gente em outros pontos da Terra (não conhecidos pelos gregos); outros interpretam que de fato existam outras Terras, porem como só se fala de um Vórtice, falam também de Mundos Microscópicos dentro do nosso (tipo o nosso mundo em MIB 1 e 2).

Por último, mas não menos importante, Anaxágoras tem um pequena teoria epistemológica (que diz respeito ao que modernamente chamamos de Teoria do Conhecimento) que vale a pena ser conhecida.
Ante Parmênides, o autor que salvar os sentidos, isto é, dizer que não são tão enganosos como ele afirmava.
Se a Mente Cósmica conhece tudo, isso implica que o cosmos é cognoscível.
Aquilo que chamamos de Sensação, para Anaxágoras é a ação de um dessemelhante em outro, quer dizer, resultado do contato de opostos (tipo quando nossa mão estão muito fria e tudo que tocamos parece estar quente).
Os sentido, porem, possuem um limite que não podem perceber.
Não é que eles indiquem coisas falsa, é que simplesmente não percebem tudo que acontece.
Ao fim, ainda que sejam imperfeitos, temos que aquilo que eles nos dizem certamente tem que ver com a realidade, ainda que não toda ela.
De fato, o próprio autor afirma (e eu particularmente acho ótimo pra botar como capa de FaceBook): “As coisas que aparecem são uma visão do que não é visto”.

Com isso penso que podemos dar por encerrado o tema Anaxágoras.
Só peço que não terminem esse texto achando que sabem a verdade última sobre o autor, afinal, foi um dos que mais causaram discussões não só na antiguidade, mas também quando nos últimos séculos se começou-se a revitalizar o estudo desses filósofos.
De fato, existe um série de outros autores com visões e interpretações diferentes.
Essa é apenas uma linha de leitura que pretende ser o mais fiel possível aos fragmentos do autor.”

Texto de José Guilherme Carvalho de Souza, Bacharel em Filosofia pela PUC-RJ

Caso você tenha alguma dúvida, crítica, pedido ou sugestão, entre em contato pelo email areafilosofica@gmail.com
Na medida do possível vamos tentar responder a cada um.
Até semana que vem e estudem com moderação!!!

Bibliografia:
-REALE, Giovanni. Pré-Socráticos e Orfismo: historia da filosofia grega e romana. São Paulo: Edições Loyola, v. I, 1993
-MCKIRAHAN, Richard. A filosofia antes de Sócrates: uma introdução com textos e comentários. São Paulo: Paulus, 2013