Sócrates: Vida e Método (Parte 2)

“Dando sequência ao último texto, nessa segunda parte vamos tentar explicar aquelas duas questões que ficaram em aberto.
Primeiro, em que consiste o exame socrático, depois, qual seria o motivo do filósofo ter continuado essa prática apesar de ela o levar a ser pobre e odiado na cidade.
Comecemos então com o exame socrático…

Para entendermos em que consiste esse exame, temos que averiguar duas coisas sobre ele: -o modo pelo qual Sócrates realiza esse exame;
-o critério do filósofo para dizer se alguém passou ou não nele, quer dizer, se realmente possui sabedoria ou se somente parece que a possui.
Infelizmente, a Apologia de Sócrates não nos diz muito sobre isso (ainda que possa dar algumas pistas), mas apenas afirma que Sócrates fazia esse exame repetidas vezes e seus opositores sempre falhavam nele.
Dessa forma, parece necessário que acudamos a um dos diálogo de Platão onde aparece Sócrates discutindo com os supostos sábios de sua época, afinal, esses relatos mostram Sócrates fazendo seu exame com pessoas concretas e sobre temas determinados.
Certamente poderíamos utilizar um série de diálogos socráticos para fazer essa investigação, porem há um em especial onde não apenas vemos Sócrates aplicando o exame, mas também explicando ao seu interlocutor que tipo de resposta ele espera e com direito a um exemplo.
Esse diálogo é chamado Laques (e traduzindo em português como Laquete).
Vejamos o contexto do diálogo…

Lisímaco e Melésias são filhos de homens célebres, quer dizer, sujeitos que construíram uma forte reputação na cidade por conta de seus grandes feitos de guerra e de política.
O problema é que esses homens célebres acabaram por descuidar da educação de seus filhos, de modo que Lisímaco e Melésias não possuíam nenhum grande feito do qual se orgulhar.
HoplomaquiaComo esses homens não queriam o mesmo destino para seus filhos, combinaram de os educar para que fossem os melhores (aristós) desde a mais tenra idade.
Para isso, convocam dois generais atenienses, Nicias e Laques, para assistirem uma apresentação de hoplomaquia (basicamente o combate armado) e julgarem se vale ou não a penas gastar tempo para aprender aquela arte.
Nicias e Laques vão então começar a discutir sobre a conveniência ou não de se aprender a hoplomaquia cada um defendendo um posição oposta.
Ainda que não faça falta ver toda a discussão deles, é importante ressaltar pelo menos um dos argumentos de Laques: que de nada vale a hoplomaquia se o sujeito não possuir também a virtude.
TutanoObviamente não estamos falando de virtude tal como se pensa nela hoje em dia, mas no sentido grego, quer dizer, algo mais ou menos como “tutano”.
Laques dizia isso pelo fato de que a hoplomaquia dá para quem a prática um grande porte atlético que pode atrair inimigos mais fortes, dai, se o sujeito não tem “tutano” (virtude), no final seria um tiro no pé.
Nesse momento, o general mesmo pede que Sócrates fale algumas coisa, pois teria sido um homem que sempre esteve preocupado com o tema da educação da juventude.
Com essa fala, acabamos descobrir por primeira vez no texto que Sócrates também estava presente na cena.
Depois de falar sobre vários temas que teriam que ver com a educação dos jovens (basicamente o cuidado com suas almas), Sócrates diz que o mais importante então seria conseguir provocar a virtude na alma dos dois jovens.
Uma vez que Laques e Nicias concordam com Sócrates, este afirma que, para ser capaz de provocar a virtude, é necessário que se saiba o que é em absoluto a virtude.
Só que nesse ponto, Sócrates diz que não seria uma boa ideia tratar da virtude em geral, afinal, daria muito trabalho.
Assim, propõe que se deveria tratar apenas de uma parte da virtude que, no caso específico, seria mais importante para a formação dos garotos.
Essa parte da virtude é a coragem, de modo que o Laques ficou sendo conhecido como o diálogo sobre a Coragem.
E até ai tudo bem, não parece que Sócrates tenha começado propriamente seu exame.
Todavia, Sócrates vai perguntar ao generais se eles sabiam o que é a coragem e, caso soubesse, deveriam então saber dar sua definição.
Uma vez que Sócrates faz essa pergunta, temos propriamente o início de seu exame.

Com isso que falamos, podemos já concluir pelo menos uma coisa importante sobre o exame de Sócrates, quer dizer, que ele não era sobre qualquer assunto aleatório, mas sempre sobre alguma virtude (ou mesmo a virtude em geral).
Isso é assim pelo fato de que uma das principais preocupações do filósofo era o cuidado da alma que, para ele, somente se daria pela infusão de virtudes na mesma.
Por enquanto, peço que guardem essa informação, pois desenvolveremos melhor em outro texto.
Além de já sabermos o tema que sobre o qual Sócrates costumava fazer seu exame, também vimos que sempre começa com um pedido de definição sobre esse tema.
Ora, a partir disso, o interlocutor de Sócrates, para mostrar que realmente sabia do que estava falando, deveria uma primeira definição sobre essa determinada virtude (que chamaremos de tese 1) e, por sua vez, Sócrates faria uma crítica a essa tese (que chamaremos de crítica 1).
Dessa maneira, seu interlocutor deveria propor um tese 2 que superasse a crítica 1 e Sócrates faria então uma nova crítica (crítica dois).
Essa dinâmica de tese e crítica é o que chamamos de Dialética (no sentido platônico, pois em Aristóteles já tem outra cara).
Vai então ser esse o exame que Sócrates vai realizar nos generais no diálogo Laques e, dada a primeira resposta do general cujo nome é o título da obra, Sócrates verá a necessidade de explicar que tipo de resposta ele quer.
Um contra todosLaques, ao ser questionado por Sócrates sobre a definição de Coragem, da a seguinte resposta: aquele que está disposta a combater, firma em sua posição, ao seus inimigos, este possui é um homem corajoso.
Ao ouvir isso, Sócrates se desculpa com Laques por não haver sido tão claro quanto a resposta que esperava, pois aquela não parecia lhe servir.
Para o filósofo, aquela resposta não era capaz de englobar tudo que é a coragem, pois só dizia respeito à infantaria e a situações de combate, porem excluía, por exemplo, a coragem que tem um homem ao enfrentar perigos no mar ou mesmo a coragem de um enfermo ante a doença uma doença.
O que acontece é que Sócrates queria um definição de Coragem que englobasse todos os feitos corajosos, e não somente alguns de determinado tipo.
Assim, Sócrates faz um coisa que não faz em mais nenhum diálogo, ele dá um exemplo do tipo de definição que espera.
Fala da “Rapidez” e a define como a capacidade de “realizar muitas coisas em pouco tempo”, afinal, tal definição serve para a rapidez em todos os casos, quer dizer, no andar, no falar, no trabalhar no escrever etc.
Depois disso Laques dará um resposta um pouco melhor e Licias também terá sua vez de falar, porem com o que já explicamos sobre o diálogo até aqui me parece que podemos entender o critério de Sócrates.
Para o filósofo, a definição de uma virtude deveria ser algo que servisse para englobar todos os atos virtuosos que tivessem que ver com ela, de modo que a resposta de Laques não satisfez Sócrates por servir apenas para um ação específica onde a virtude podia ser reconhecida.
Em outras palavras, Sócrates buscava um conhecimento sobre as virtudes que estivesse no âmbito episteme (ἐπιστήμη), ou ciência; porem Laques parecia estar no que chamamos de empeiría (εμπειρία), ou simplesmente experiência.

[Distingamos rapidamente experiência e ciência no contexto socrático]
Obviamente esse tipo de distinção será sistematicamente apresentado quando formos tratar sobre Aristóteles, porem podemos adiantar alguns pontos para esclarecer melhor nosso pensamento.
Falar de ciência no contexto da Grécia Antiga, não tem muito que ver com o que se entende hoje em dia.
De modo geral, para os sujeitos que estamos estudando agora, ciência é  um conhecimento fundamentado sobre as causas de algo.
Um exemplo seria o saber que possui um médico ao receitar um medicamento a seu paciente.
De maneira distinta, temos a experiência, que também é um forma de saber, mas não possui o conhecimento fundamentado das causas.
Vovó.gifUm exemplo seria o da avó, que não sendo médica, da um remédio para seu neto que faz ele ficar curado da doença.
O interessante é que, na prática, os dois conhecimento serviram para o fim proposto que era curar a doença.
Isso, porem, não indica que são qualitativamente iguais, afinal, se fundamentam em coisas distintas.
O conhecimento do médico supõe que o sujeito estudou muito para saber que a composição química de determinado medicamento será capaz de combater determinados organismo que estão causando a enfermidade sem causar muitos danos ao corpo daquela pessoas que está doente.
Isso quer dizer que ele conhece o remédio, conhece a doença e sabe as causas químicas que levaram a que o enfermo seja curado.
A vovó, por outro lado, não estudou medicina, porem já teve várias vezes a experiência de tomar aquele remédio e ser curada da doença.
Além disso, também sempre deu o mesmo remédio para seus filhos e viu que eles também ficavam curados.
Sendo assim, ela supõe que, caso de o mesmo medicamento ao neto, este também ficará curado.
O problema é que o tipo de conhecimento da vovó se fundamentas apenas em experiências particulares que se repetiram muitas vezes, mas que nem sempre podem se repetir.
Dai, pode ser que um dia ela dê o remédio para seu neto e ele não fique bom, de modo que a única solução será levar ele ao médico.
Ao chegar no hospital, provavelmente o doutor descobrirá a causa pelo qual o remédio não funcionou.
Ou porque a bactéria que estava atormentando o rapazinho era uma bactéria diferente, ou pelo fato do organismo do menino ter desenvolvido alguma característica que rejeita o medicamento antes que ele possa fazer efeitos, enfim, algo do tipo…
Ora, isso quer dizer que aquele conhecimento da avó só serve para curar seu neto se são repetidas umas tantas circunstâncias que estavam presentes nas demais experiências de cura que fundamentam tal conhecimento.
Caso mudem muitos essas circunstâncias, provavelmente o remédio da vovó não funcionará.
Claro que não estou propondo que desprezemos a sabedoria de vida dela, afinal, pode ser que depois de anos e anos cuidando de seus filhos e netos, provavelmente a vovó conhece uma série de doenças e remédios diferentes, a ponto de poder, só de olhar pro moleque, saber qual o melhor remédio pra dar pra ele.
Isso, contudo, ainda é um conhecimento restrito ao campo empírico, quer dizer, que depende de que aquelas tantas circunstâncias sempre se repitam.
Com o médico é diferente, justamente por conhecer profundamente as causas que levam aos efeitos, mesmo que de um paciente a outro mudem totalmente as circunstâncias da doença, ele ainda assim será capaz de alcançar a cura do sujeito.
[Voltando a Sócrates]

Quando eu digo que Laques não parece possuir ciência, mas experiência, quero dizer que ele não possui um conhecimento universal sobre a Coragem, fundamentado nas causas da mesma; mas sim um conhecimento particular que era fruto de ter visto (experimentado) muitas atos corajosos.
Desse modo, não podemos dizer que Sócrates esteja dizendo que Laques não sabe o que é a Coragem, muitos menos que ele não seja um homem corajoso, afinal isso seria um absurdo tendo em vista que se tratava de um grande general ateniense que facilmente era capaz de identificar quando uma ação era ou não corajosa.
O que acontece é que o Laques estava limitado apenas a reconhecer a Coragem em situações concretas, mas não de dar uma definição que fosse capaz de unificar todas as formas de Coragem.
Assim, uma vez que o general recebe a crítica de Sócrates e entende o exemplo que o filósofo deu sobre a rapidez, ele propõe uma outra definição mais conforma às expectativas de Sócrates, de que a Coragem é uma “perseverança da alma”.
Obviamente Sócrates também vai criticar essa outra tese e Laques não será capaz de superar a crítica.
Assim, Nicias também proporá sua concepção de Coragem.
Ele, por sua vez, era um pouco mais culto que Laques e tinha frequentado alguns sofistas, de modo que sua resposta já é de primeira algo próximo do que esperava Sócrates.
Diz que a Coragem seria “o conhecimento sobre as coisas que se há de temer”.
Sócrates então também vai criticar a Nicias que não será capaz de propor uma tese melhor.
Ao fim, o diálogo termina com o que chamamos de aporia, quer dizer, a situação onde os interlocutores de Sócrates não têm mais o que dizer e simplesmente desistem de continuar discutindo.
O que acontece é que a aporia não representa a mesma coisa para todos os tipos de homens.
Para alguns é como que um novo início para um investigação mais bem feita, para outros é uma humilhação pela qual o faz passar Sócrates ao mostrar que um não sabe o que pensa saber.
Sobre a qustão da aporia em si, vamos discutir um pouco mais em outro texto, de modo que agora me parece necessários concluirmos sobre o que é o método socrático para então vermos os motivos de Sócrates continuar a fazer isso.

Pode ser que, tal como muitos dos acusadores de Sócrates, você esteja pensando que ele é um cara chato que quer perturbar os outros, porem não é bem assim.
Parece que o filósofo, no fundo, não está exatamente querendo saber se aquele com quem dialoga sabe ou não definir a virtude sobre a qual discutem, mas se ele é capaz de fundamentar sua definição.
Isso ficará bastante pelo fato de que, apesar Laques e Nicias terem falhado em seu exame, a definição que os dois deram aparece mais tarde como uma definição correta na República de Platão.
Isso é assim pelo fato de que Sócrates não busca um fórmula pronta que digam o que é a Coragem (ou a Piedade, ou a Justiça etc.), de modo que não basta somente “acertar a resposta” para passar no exame de Sócrates.
No fundo, para passar no exame de Sócrates é preciso, além de definir bem, ser capaz de fundamentar o que disse.
O motivo de Sócrates desejar a fundamentação do conhecimento sobre as virtudes ficará mais claro quando investigarmos o motivo de sua persistência na prática do exame apesar de ser tão prejudicado por isso.
Em suma, podemos falar o seguinte do método socrático:
-se da por meio de um diálogo dialético numa dinâmica de teses e críticas sobre a definição de uma virtude;
-o critério para passar no exame é a capacidade de fundamentar racionalmente o conhecimento que se diz que possui.
Com isso, já sabemos o suficiente do exame socráticos para lermos grande parte dos diálogos de Platão, porem, vamos acrescentar algumas informações importantes que normalmente encontramos nos manuais de filosofia e que podem nos ajudar crescer um pouco mais no entendimento do método de Sócrates de fazer filosofia.

a) Diálogos
Pelo que já falamos anteriormente, já seria possível a um leitor mais atento imaginar que Sócrates fazia sua filosofia por meio de diálogos.
Quer dizer, retratamos um sujeito que examina a pessoas e vai perguntando definições de coisas, criticando teses, sugerindo outras etc.
E de fato era assim, porem poderíamos nos perguntar o porquê de Sócrates não fazer também grandes discursos como os sofistas.
Quer dizer, o fato é que os discursos dos sofistas eram capazes de persuadir a assembleia dos cidadãos na medida em que moviam sua vontade para onde bem entendiam.
Em outras palavras, eram discursos extremamente eficazes e Sócrates poderia muito bem ter utilizado eles para transmitir sua filosofia.
Pois bem…
Massificação.jpgO motivo pelo qual o filósofo abria mão dos largos discursos é o fato de que eles estavam voltados sempre para as massas, isto é, acabavam por ignorar a individualidade do sujeito que os escutava.
Essa consequência dos discursos sofistas não era interessante para a atividade filosófica de Sócrates, pois o filósofo estava muitos mais interessado no crescimento individual de seus ouvintes do que na persuasão das assembleias.
Ao optar por algo mais breve como os diálogos, Sócrates era capaz de envolver aquele que dialogavam com ele numa experiência de busca comum à verdade, afinal, os diálogos conseguem se moldar às necessidades mais profundas de cada indivíduo na medida em que vão sendo construídos com cada um.
Isso vai ficar mais claro quando entendermos que esse crescimento individual que Sócrates pretende tem que ver com que o autor chama de “cuidado com a alma”, porem veremos isso em outro texto.
b) O Não Saber Socrático
Certamente uma das frases mais famosas da filosofia é justamente de Sócrates e diz o seguinte: “Só sei que nada sei”.
Ainda que muitos tenham visto aqui um sinal de ceticismo da parte do filósofo (aumentado pelo fato de muitos dos diálogos de Platão terminarem em aporias), me parece se tratar de uma análise mal feita e superficial.
Essa afirmação deve ser entendida tendo em vista o contexto ao qual ele pretendia criticar.
Isso quer dizer que não se trata com uma afirmação sobre a impossibilidade do saber, mas de uma ruptura com três pretensões de sabedoria de sua época: a dos físicos (pré socráticos), a dos sofistas e a da tradição geral.
Ao fim, o Não Saber socrático é uma abertura a uma nova forma de sabedoria que, na Apologia de Sócrates, ele chama de Sabedoria Humana, de modo que sua afirmação de somente saber que nada sabe é, na verdade, um convite para a busca daquele conhecimento fundamentado do qual falávamos.
c) A Ironia Socrática
A Palavra grega eironéia (ειρωνεία), da qual dizemos ironia, significa também dissimulação.
Basicamente dizemos que Sócrates assumiria algumas máscaras ante seu interlocutor para forçar que ele desse conta de si mesmo.
Ao assumir métodos e ideias de seus adversários com as quais não concordava, Sócrates era capaz tanto de os engrandecer até se tornarem uma caricatura, quanto de os inverter e mostrar suas contradições.
Essa mesma “ignorância socrática”, da qual tratávamos acima, também pode ser vista como uma máscara pela qual Sócrates conduz a argumentação.
Ao fim, toda e qualquer dissimulação que faça Sócrates pode ser remetida à ironia, de modo que esse é a característica mais própria do método socrático de transmissão de conhecimento.
d) Confutação e Maiêutica
Apesar de quase podermos chegar a dizer que a dialética socrática é fundamentalmente ironia, não quer dizer que seja algo de pouca seriedade.
Isso se entende melhor se tivermos em conta os dois movimentos essenciais nos quais a ironia socrática se desenvolve.
O mais comum nos diálogos platônicos é vermos a Sócrates sempre começando suas discussões com aquilo que chamamos de confutação.Nesse contexto, se trata basicamente no ato de refutar ou rebater as teses do adversário.
Se os personagens que disputavam com Sócrates nos diálogos começavam o exame socrático cheios de certezas e segurança de saber, rapidamente Sócrates mostrava que as coisas não eram assim tão simples e os criticava até exaurirem todos seus recursos argumentativos.
Ao fim, seus interlocutores se encontravam em uma certa crise: por um lado percebem a fragilidade do saber que antes lhes parecia seguro, por outro não encontram novas crenças e certezas às quais se agarrar.
Sócrates parece fazer isso por acreditar que seria impossível à alguém alcançar a verdade fundamentada sem antes limpar de sua própria alma as certezas falsas.
O problema é que, tal como dizíamos no texto anterior, esse tipo de coisa foi fazendo com que Sócrates fosse odiado, afinal, muitas pessoas eram soberbas demais para admitir a própria falta de capacidade de fundamentar as próprias certezas e, dessa forma, simplesmente diziam que Sócrates confundia a mente das pessoas (coisa, aliás, que Nicias faz no Laques).
Apesar dessa dificuldade, temos que nem todos eram soberbos e recusavam-se a reconhecer seus próprios limites, de modo que, caso o fizesse, poderiam entrar com o filósofo no segundo movimento de sua ironia dialética.
Basicamente, se falamos de maiêutica (μαιευτικη), estamos falando da arte de fazer partos.
O modo comum de interpretar isso é a partir de uma cena do diálogo de Platão chamado Teeteto onde Sócrates compara sua atividade no diálogo com a de uma parteira, sendo que esta ajuda uma mãe grávida a parir seu filho e ele ajuda a seus interlocutores a parirem suas ideias.
Seria como se Sócrates fosse dando pistas e conduzindo aquele que dialoga com ele (e isso fica bastante claro em seu diálogo com Laques) para que fosse capaz de explicitar aquela que ideia que já tem, mas que ainda não é capaz de formular.
Em outras palavras, é a intervenção de Sócrates para ajudar que a alma de um sujeito de à luz a uma ideia.

Agora que sabemos preciosos elementos sobre a metodologia socrática de fazer filosofia, me parece conveniente que irmos ao último ponto sobre a atividade de Sócrates que havíamos nos proposto a discutir, isto é, o motivo de Sócrates seguir realizando se exame ainda que isso o deixasse pobre e odiado na cidade.

Segundo o discurso que o autor faz na Apologia de Sócrates, sua atividade filosófica era uma missão divina.
No último texto, vimos de que ela começa justamente com a afirmação do Oráculo de Delfos de que Sócrates seria o mais sábio entre os homens.
Também vimos que o autor não se considerava sábio, de modo que começou a examinar os homens de Atenas que verdadeiramente diziam possuir a sabedoria para tentar entender o sentido do oráculo.
Falso sábioAo fim desse exame, percebeu que nenhum desses homens eram realmente sábios naquelas coisas nas quais pretendiam ser (pois não eram capazes de fundamentar suas crenças e certezas), mas apenas pensavam erroneamente serem sábios.
Sócrates então concluiu que ele mesmo seria o mais sábio entre os homens justamente por reconhecer a fragilidade de sua própria capacidade de conhecimento, ou seja, por não presumir que possuía uma sabedoria que realmente não tinha.
Mas até ai, nada explica o porquê dele continuar com esses exames, até porque, ele havia descoberto o sentido do oráculo, não fazia mais falta dar sequência a isso.
O que acontece é que Sócrates não interpretou o oráculo como algo que simplesmente terminaria uma vez que ele tenha entendido o sentido em que é mais sábios que os demais, mas sim como uma missão divina.
Na República, vemos Sócrates falar dos deuses sempre como causas de bens e nunca como causas de males.
Ora, se aquela prática que ele iniciou teve início com uma intervenção divina, então ela é algo que leva a um bem, de modo que Sócrates entende que era a vontade dos deuses que ele seguisse realizando seu exame.

Ademais de se tratar de uma missão divina, parece ser também uma prática que Sócrates julga necessária e urgente para a cidade.
Essa urgência se mostra muito clara na República mediante os discursos de Glaucon e Adimanton (irmãos de Platão) que revelam uma certa crise de valores na cidade de Atenas.
Nessa obra de Platão, vemos os adversários de Sócrates subverterem uma série de valores tradicionais da cultura grega antiga.
A coroa de toda essa subversão foi a afirmação de que a Injustiça é melhor que a Justiça.
De maneira especial, podemos pensar em dois dos personagens dessa obra que são examinados por Sócrates antes da intervenção de Glaucon e Adimanton como figuras dessa crise de valores.
Esses dois personagens são Polemarco e Trasímaco, de modo que pode dizer que se Polemarco representa a incapacidade de fundamentar valores tradicionais ante um teste dialético, Trasímaco representa a materialização da possibilidade de se atacá-los e de se subvertê-los e o risco dai decorrente (Motta, 2005).
Certamente a incapacidade de fundamentar os valores tradicionais da cidade na figura de Polemarco é algo que deve ser visto, porem, com mais urgência ainda, o que representa Trasímaco nos pode contextualizar na situação do povo ateniense em relação a esses valores.
Devemos então ter em conta que Trasíamaco o era um sofista e que normalmente atuava reproduzindo com um pouco mais de proficiência o discurso da maioria.
Isso quer dizer que, de alguma forma, a maior parte dos cidadãos atenienses estavam um pouco revoltosos com os valores tradicionais a ponto de os atacarem.
Essa situação será explicitamente revelada com o discurso dos irmãos de Platão que dizem que irão fazer um ataque a justiça que eles mesmo não acreditam ser correto, mas que está na boca de muitos cidadãos.
Os discurso que os irmãos de Platão fazem são realmente os mais fortes e difíceis de refutar, de modo que Sócrates deverá expor sua larga teoria sobre a construção de uma cidade ideal para mostrar que sem a Justiça é impossível tanto ao homem quando à cidade a melhor vida.
Não sabemos ao certo se Platão está criticando concepções de seus irmãos, ou se apenas os coloca como figuras da elite grega que se encontrava desconcertada com a proliferação de tantos ataques contra a virtude ao estilo do que havia feito Trasímaco.
Apesar dessa então dessa incerteza sobre essas duas figuras, o fato é que se tratam de dois jovens que receberam uma boa educação, mas que se encontraram compelidos por discursos subversivos em relação ao valores tradicionais atenienses.
Quando tratarmos do pensamento de Platão vamos voltar e explicar melhor esses temas, porem, já podemos adiantar que Sócrates será na “República” como que a figura da sabedoria filosófica que vem para retificar esse pensamento.
Resumindo, temos 4 figuras na “República” que nos explicarão a necessidade e urgência da atividade socrática:
-Polemarco: incapacidade de fundamentar os valores tradicionais.
-Trasímaco: discurso subversivo dos valores tradicionais da parte da maior parte dos cidadãos atenienses.
-Glaucón e Adimantón: aceitação de grande parte da elite ateniense aos discursos subversivos dos valores tradicionais.
-Sócrates: a filosofia dialética que retificaria os discursos subversivos e ensinaria a fundamentar os valores tradicionais.
Aparentemente, Sócrates foi capaz de perceber a instabilidade de importante valores da cidade não só pelo fato de estarem sendo postos a prova pela maioria dos cidadãos e por grande parte da elite ateniense, mas também pelo fato de que, ante esses ataques, poucos eram capazes de fundamentar a importância dos mesmos.
Se então juntarmos isso com o que já falamos sobre a atividade socrática como um deseja divino que necessariamente deve ser o desejo de um bem, podemos entender o porquê de Sócrates, apesar de ser odiado e ficar pobre, continuou com seu exame.
Em poucas, podemos resumir tudo isso na seguinte sentença: pouco custava para Sócrates ser odiado e ficar pobre e com isso fosse capaz de, seguindo a vontade dos deuses, refundamentar os valores tradicionais gregos que estavam sendo perdidos e, com isso, fazer um grande bem à cidade.”

Texto de José Guilherme Carvalho de Souza, Bacharel em Filosofia pela PUC-RJ

Caso você tenha alguma dúvida, crítica, pedido ou sugestão, entre em contato pelo email areafilosofica@gmail.com
Na medida do possível vamos tentar responder a cada um.
Até semana que vem e estudem com moderação!!!

Bibliografia:
-MOTTA, Guilherme Domingues da. Glaucón, Admanto e a Necessidade da Filosofia. Kléos, Rio de Janeiro, n. 9/10, p. 87-112, 2005
-REALE, Giovanni. Pré-Socráticos e Orfismo: historia da filosofia grega e romana. São Paulo: Edições Loyola, v. I, 1993

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