Sócrates: Pensamento Filosófico

“Depois de dois longos textos onde trabalhamos aspectos importantes sobre a figura e a metodologia de Sócrates, me parece oportuno que façamos então uma breve explanação sobre pontos importantes de sua filosofia, afinal, penso que seja o que mais nos interessa.
Como porem estamos tratando sobre um autor cuja filosofia poderíamos comparar com uma montanha, não poderemos aprofundar escada uma de suas teses, mas somente apresentar alguns conceitos básicos e chaves de leitura que venham a permitir que cada um possa explorar o pensamento desse grande autor segundo lhe parecer oportuno.
Assim, sem mais delongas, adentremos no pensamento de Sócrates.

Sócrates é um marco na história da filosofia (e isso se percebe pelo fato do pessoal antes dele ser chamado de pré socrático) uma vez que sua maneira de pensar surgiu na Grécia Antiga como algo totalmente novo.
Obviamente, também os sofistas poderiam ser destacados se o critério fosse a novidade em relação ao pensamento anterior, porem não o foram da mesma forma que Sócrates.
O motivo tales seja o fato de que a filosofia socrática não somente vai além das concepções filosóficas anteriores, mas também supera a própria proposta dos sofista.
Desse modo, me parece que a melhor maneira que adentrarmos no pensamento do autor é a partir daquilo no qual ele surge como uma ruptura tanto com os pré socráticos quando com os sofistas.

Para começar, vejamos a postura de Sócrates em relação ao que chamamos de filosofia da φύσις (physis), palavrinha essa que significa natureza.
Por conta desse termo, muitos manuais tende a chamar os pré socráticos de naturalistas ou físicos.
Pessoalmente, evito essa terminologia para não gerar problemas, porem, caso alguém busque um manual comum de História da Filosofia, acabará se deparando com isso.
Enfim…
CosmoSócrates rompe com essa filosofia a partir da observação de uma serie contradições entre os pensamentos dos pré socráticos que, muitas vezes, acabavam sendo mutuamente nulos.
Poderíamos dizer que Sócrates percebe nesse grande número de contradições a impossibilidade da razão humana chegar a conclusões válidas sobre o tema pretendido, quer dizer, sobre a natureza do cosmos.
Nesse momento é muito importante deixar claro que isso não se trata de uma premissa ou de um ponto de partida do pensamento do autor, mas de uma conclusão arduamente alcançada, afinal, temos testemunhos de que, pelo menos na sua juventude, o filósofo de aproximou dessas correntes (motivo pelo qual é acusa da peça de Aristófanes de físico ateu).
Ora, quando falávamos sobre os ecléticos, comentamos um pouco sobre um Arquelau de Atenas, dito por Íon de Quios como mestre de Sócrates.
Isso indica que o autor foi realmente introduzido na filosofia da physis, porem o fato é que em determinado momento a deixou de lado.
Infelizmente não podemos dizer exatamente em que período da vida de Sócrates ele rompeu com tudo isso, muito menos se tratou-se de um  afastamento repentino ou gradual.
A única coisa que podemos afirma com segurança é que, uma vez rompida a relação com o modo anterior de fazer filosofia, Sócrates nunca mais de um passo pra trás, de modo que não há qualquer tentativa de mediação ou superação do pensamento sobre o cosmos (algo que veremos retomado em Platão).
Eu, particularmente, acho muito romântica a ideia de que aquela experiência com o Oráculo de Delfos foi o ponto de partida para essa mudança na vida do autor, mas é como um disse, não se pode afirmar nada sobre isso.
Pois bem…
Uma vez rompida a relação com os filósofos de até então, Sócrates deve debruçar-se sobre outro tema e, com o que sabemos até agora, não é difícil deduzir qual foi esse tema que o autor elegeu.
O homeme e o cosmos.jpgIsso porem fica mais claro que termos em mente que, mais do que criticar as contradições e insuficiências da filosofia dos pré socráticos, Sócrates se incomodava com o fato de que quem se entregava as reflexões sobre o cosmos acabava por esquecer-se de si mesmo.
Em outras palavras, acusa aos filósofos anteriores de deixarem de lado o mais importante, o homem e os problemas dos homens.
Assim, dizemos que Sócrates deixou de lado a investigação filosófica sobre o cosmos para investigar filosoficamente o homem.
Com o que temos até então, penso que já esteja claro o quanto Sócrates se afasta da filosofia dos pré socráticos, porem nos falta indicar em que o pensamento do autor é diferente em relação aos sofistas, afinal, somente assim poderemos entender o motivo dele ser considerado um marco na história do pensamento filosófico.

Ora, como já vimos em textos anteriores, é possível fazer uma série de paralelos entre a atividade sofística e a atividade socrática, sendo que a maior semelhança é o fato de tanto um como outros se debruçarem sobre a realidade humana.
Dessa forma, para separarmos bem o que foram os sofistas e o que foi Sócrates, o caminho é entender o que há de novidade na maneira que ele desenvolveu sua filosofia sobre o homem.
Ambos estão propondo uma filosofia moral, quer dizer, uma tentativa de apresentar aos cidadãos de sua época qual seria a melhor (mais excelente) vida para o homem.
O que acontece é que, diferentes dos sofistas, Sócrates percebeu que só poderia falar sobre o melhor tipo de vida para o homem se partisse de uma real entendimento do que é o ser humano.
Em outros termos, Sócrates pergunta: “que é o homem?”
Só então,a partir disso, se desenvolverá seu pensamento ético e moral.
Essa pergunta, dentro da tradição filosófica iniciada em Sócrates, é basicamente a pergunta sobre a essência do homem.
Perguntar sobre a essência de algo é perguntar sobre o que é aquilo em sua realidade mais profunda e já se pode considerar como um pequeno passo para dentro do que chamamos de Metafísica (algo que eu espero poder um dia trabalhar com mais dileção).
Eu descubro a essência de algo quando me pergunto o que que faz com que esse algo seja exatamente esse algo e não outro algo.
[Admito que frase ficou confusa, mas espero que nos próximas linhas seja aclarada…]
Sem então nos determos muito no próprio conceito de essência (pois em Platão e Aristoteles iremos aprofundar isso) me parece oportuno vermos logo a resposta que Sócrates encontrou para essa pergunta.
De maneira praticamente unânime, as fontes que temos para o pensamento do autor dizem que, para Sócrates, o homem é fundamentalmente sua alma.
Assim, a alma do homem é aquilo que faz com que o homem seja homem e não outra coisa qualquer (cavalo, cadeira, garrafa de água etc).

E nesse ponto vale a pena nos aprofundarmos um pouco no conceito de alma.
O termo grego que se utilizava para falar dessa realidade se diz psyché (ψυχή).
Não se trata, porem, de uma terminologia exclusiva de Sócrates ou que apareceu por primeira vez na boca do autor.
Antes mesmo dele já a podemos encontrar em Homero, nos próprio pré socráticos, nos poetas etc.
O que acontece é que a maneira que Sócrates passou a trabalhar com esse termo foi totalmente nova.
Vejamos o que se diziam antes de Sócrates para então podermos comparar com a concepção do autor.
-Homero: a alma é aqui como um fantasma ou um espírito, quer dizer, aquilo que abandona o corpo do homem mediante sua morte e ia vagar no Hades;
Daemon órfico-Órficos: entendiam a alma como aquilo que em nós expiava nossas culpas terrenas e que era tanto mais ela mesma quanto mais se separava de nosso eu consciente. Isso quer dizer que quanto mais desaparecia nossa consciência (sono, morte, perda dos sentidos etc) mais a alma se fortalecia;
-Pré Socráticos: era a Matéria Primordial em Estado Primordial (da qual já falamos muito enquanto trabalhávamos esses caras) ou parte dessa matéria;
-Poetas: algo indeterminado e nunca teoricamente definido.
De maneira totalmente distinta, Sócrates procurar identificar a alma com aquilo que chamamos de consciência pensante e operante, quer dizer, com nossa personalidade intelectual e moral.
Em outras palavras, a alma é a fonte do raciocinar e do atuar ética e moralmente (levando em conta que ainda não existe aqui a distinção entre ética e moral típica das aulas de sociologia e filosofia que temos no colégio).
Hoje em dia, temos conhecimento suficiente para afirmar com bastante certeza que essa concepção de alma é algo próprio e original de Sócrates, quer dizer, não se trata de algo que o autor tirou de alguma outra fonte anterior ou contemporânea a ele.
Existe uma escola escocesa de filólogos que foi capaz de demostrar que esse conceito de alma que encontramos em Sócrates está totalmente ausente na literatura anterior ao autor.
Além disso, também observaram que essa noção de alma se tornou, depois da atividade filosófica de Sócrates, o modo comum de tratar o termo.
Baseado nisso, Jaeger escreve em sua Paideia que Sócrates nos apresentou uma noção para a palavra alma que até hoje é mantida entre a maior parte do mundo ocidental.
Assim, tendo em mente essa noção de alma de Sócrates, podemos entender algumas de suas máximas que brevemente apresentamos nos últimos textos, tais como “conhecer a si mesmo” e “cuidar de si mesmo”.
Nos dois casos, “si mesmo” significa alma, e isso é testemunhado também de maneira unânime pelas fontes que temos para o estudo do autor.
Mas enfim, depois dessa pequena curva que fizemos para explicar o que Sócrates entende por essência humana (e se resta alguma dúvida digo que ele está falando da alma como consciência pensante e operante), voltemos às diferenças em relação aos sofistas.

Ambos, além de falarem sobre o que seria a melhor vida para o homem, pretendem uma proposta de educação que permita ao sujeito alcançar essa vida excelente.
De maneira resumida, esse processo educativo tanto de Sócrates como dos sofistas visa conduzir o sujeito ao que os gregos chamavam de areté (ἀρετή), palavrinha que costuma ser traduzida como virtude.
Vamos então entender um pouco o que quer dizer virtude no contexto da Grécia Antiga.
Em linhas gerais, falar de arte ou de virtude entre os primeiros pensadores grego é falar de excelência.
Assim, a proposta educativa de Sócrates e dos sofistas consistia em conduzir o homem a sua máxima excelência (areté ou virtude) enquanto indivíduo humano.

Aristoteles tem um exemplo muito didático sobre isso que eu já ouvi da boca de pelo menos 3 professores de filosofia sendo dois deles especialistas em filosofia antiga.
Se trata do exemplo do machado virtuoso:
And my axeQue seria um machado virtuoso ou excelente?
Ora, Aristóteles responde isso dizendo que o machado que possui areté (ou virtude) é aquele que com o menor número de golpes (e se possível com um só golpe) é capaz de cortar algo.
Nesse caso, um machado que é capaz de cortar uma palmeira com 3 golpes é mais virtuoso (ou mais excelente) que o machado que precisa de 7 pancadas.
Se nos detivermos um pouco na resposta de Aristoteles, perceberemos que para afirmar a virtude do machado ele precisou ter em mente qual era a finalidade última do mesmo (cortar coisas com poucos golpes).
O que acontece é que para sabermos qual o fim último de algo é preciso que antes conheçamos a natureza (que provisoriamente vamos identificar com essência, ainda que não sejam exatamente a mesma realidade) dessa coisa.
Em outras palavras, Aristoteles primeiro teve que entender a essência do machado (aquilo que faz com que uma machado seja um machado e não outra coisa) para então saber qual era o seu fim último enquanto machado e, dessa forma, poder afirmar qual seria a sua excelência (ou areté).
Com isso em mente, voltemos então para o ser humano.

Se toda a filosofia moral pretende indicar ao ser humano o melhor modo de vida, ou seja, a vida mais excelente, virtuosa e cheia de areté, faz falta que se conheça a finalidade do ser humano e, principalmente, a essência do mesmo.
Se partimos de duas noções diferentes do que é o homem, muito provavelmente alcançaremos noções diferentes do fim da vida humana e, consequentemente, se proporá a virtude de maneiras igualmente distantes.
Isso foi mais ou menos o que aconteceu entre Sócrates e os sofistas.
Enquanto Sócrates partiu de uma aguçada compreensão sobre a essência do homem, parece que os sofistas sequer se preocuparam em fixar isso, de modo que a virtude (ou excelência) fica limitada ao sucesso na vida política.
Sócrates, por sua vez, quando determinada que cada sujeito é fundamentalmente sua alma, é capaz de propor uma noção de areté (ou virtude) como aquilo que fortalece e torna melhor (ou ótima) a alma do homem.

Vejamos então a teoria de Sócrates sobre a areté do homem…
Nossa premissa é a de que, sendo a alma o que torna o homem distinto de todas as outras coisas (ou seja, sendo aquilo que lhe é próprio), temos que a alma é a essência do sujeito e, dessa forma, a areté é o que fortalece a alma.
Também vimos que a concepção socrática da alma a indica como a personalidade intelectual e moral do sujeito, quer dizer, sua consciência pensante e operante.
Isso quer dizer que a areté deve ser aquilo que atualiza da melhor forma a consciência e a inteligência do sujeito.
Sendo assim, Sócrates dirá que a excelência do homem, sua virtude, é justamente o que ele chama de ciência (conhecimento fundamentado).
Isso é o que faz com a alma se torne aquilo que deve ser e realiza o homem fazendo com que alcance a verdadeira felicidade (que no fundo é a finalidade da melhor vida).
Se antes os valores mais importantes eram aqueles ligados ao cuidado com o corpo e com a reputação, Sócrates realiza um revolução na tábua de valores tradicionais da Grécia Antiga.
Um exemplo disso pudemos ver no último texto onde analisamos uma parte do Laques de Platão.
Ali, conversando sobre o tipo de educação mais adequado para os jovens, Sócrates sai do enfoque no cuidado físico (hoplomaquia) e mostra a importância de um conhecimento fundamentado sobre a coragem.
Obviamente não estamos dizendo que Sócrates rompe com todos os valores dos antigos gregos.
O que ele diz é que as virtudes cultivadas até então pelos gregos (aquilo que tinha que ver com o cuidado com o corpo e a reputação na polis) não tinham valor em si mesmas, mas somente segundo o uso que cada um fazia delas.
Se dirigidas pela ignorância, então levavam a alma à ruína; caso governadas pela ciência, conduziam à excelência da alma.
Em outras palavras, Sócrates vai reduzir a virtude ao conhecimento e o vício à ignorância.
O problema é que isso será motivos de discussões até os dias de hoje.
Uma vez que Sócrates reduz as virtudes à ciência, também reduz os vícios à ignorância de modo que se pode inferir que quem atua de maneira má (viciosa) o faz não pode desejar o mal, mas por desconhecer que o mal se trata de um mal, ou seja, de maneira involuntária.
O problema é que essa segunda conclusão acabou por fazer com que um número não pequeno de estudiosos condenassem o pensamento de Sócrates como uma forma de intelectualismo.
Ah, mas o que é intelectualismo?
Ora, esse termo (como muitos outros termos filosóficos) pode ser entendido de muitas maneiras.
No que se refere à acusação deita a Sócrates, segundo o Dicionario de Filosofia de Nicola Abbagano, diz respeito à corrente que diz que o intelecto tem uma função dominante ou absoluto nas eleições éticas e morais de um sujeito.
Em outros termos, seria como se Sócrates estivesse excluindo da ação moral tanto a vontade quanto outros elementos irracionais que hoje em dia sabemos que interferem no agir humano.
O que acontece é que tal acusação só pode ser mantida mediante uma atitude anacrónica em relação ao autor, afinal não devemos esquecer que o homem moderno tem instrumentalizados uma série de conhecimentos sobre o comportamento humanos vindo de disciplinas como a bioquímica, a psicologia, a neurologia, a fisiologia etc.
Pois bem, para então seguirmos nosso estudo, devemos entender esses dois princípios socráticos: “a virtude é o conhecimento (e o vício a ignorância)” e “ninguém atua mal voluntariamente”.

Sobre o que diz respeito a virtude como ciência, devemos ter em mente algo que dissemos no último texto, que Sócrates enfrentava em seu tempo uma profunda crise de valores.
Ao falar de virtudes na Grécia Antiga, falamos de uma grande pluralidade que até então nunca havia tido um teórico capaz de apresentar a unidade que possuem entre si, quero dizer, de mostrar o porquê de todas elas serem igualmente chamadas de virtude.
Tanto os sofistas quanto os poetas, na medida em que não conhecem o nexo comum que fazia com que todos aqueles valores fossem justificadamente ditos como virtudes, acabavam por encontrar seu fundamento somente no costume e convicções da sociedade grega.
O problema é que em determinado momento as pessoas comuns já não estavam mais tão dispostas a manter os atos virtuosos simplesmente pelo fato de que a tradição sempre disse que deveriam ser praticados.
Mudança dos temposAlgo parecido acontece com a sociedade de hoje quando vemos que uma serie de valores estão sendo solapados sob a justificativa de expressões como “os tempos mudaram” ou “isso é só uma convenção social”.
Por conta disso, Sócrates percebeu a necessidade de dar fortes bases racionais para os atos virtuosos para que não se perdessem.
Podemos dizer que, tal como o pré socráticos buscaram submeter à razão os fenômenos do cosmos, Sócrates fez o mesmo com a vida moral humana.
Em Sócrates, ser virtuosos não significa simplesmente a adequação aos hábitos e costumes, mas de algo motivado e justificado racionalmente.
Falar então da virtude como conhecimento é, antes de mais nada, acentuar que a virtude deve ser motivada pelo conhecimento.
Dito isso, nos falta explicar a questão do erro como algo involuntário.

Devemos partir do fato de que essa afirmação parece estranha pra gente hoje pelo fato de que somos criados dentro de outros paradigmas.
Como já dito, o homem moderno tem acesso a todo um arcabouço intelectual ao qual Sócrates não teve (e ainda assim, hoje ema ia não vemos surgir homens como ele).
Mal e pecadoAlém disso, se levarmos em conta a doutrina cristão que configurou o que hoje chamamos de civilização ocidental, temos uma profunda reflexão sobre o mal moral e o pecado que é elegido pelo homem mesmo tendo consciência que se trata de um mal.
O grande paradigma dessa situação é a figura de São Paulo que em sua Carta aos Romanos afirmava que não fazia o bem que desejava, mas o mal que não queria.
Assim, a primeira coisa que devemos fazer é nos despirmos um pouco dessas categorias para entender a Sócrates dentre de seu próprio contexto.
Muitas vezes a resposta que se dá a essa dificuldade é que Sócrates entendeu que todas as vezes que alguém escolhe o mal ao invés do bem o faz por considerar em determinada aspecto aquele mal como um bem.
Pode parecer algo simplório e forçado, porem faz bastante sentido.
Somos capazes observar em nossas vidas que o mal, diferente do bem que pode ser buscado por si mesmo, nunca é algo que se faz por si.
Não me parece que exista um sujeito que faça mal as coisas simplesmente por fazer, mas por, enganando-se a si mesmo, pensar que pode tirar do mal algum bem.
Em outras palavras, poderíamos dizer que a pessoas se blinda de uma ignorância momentânea e deixar de levar em conta (de conhecer) aquele ato como um mal.
Razão e EmoçãoOutra possibilidade de resposta seria simplesmente aceitar que Sócrates talvez não tenha sido capaz de distinguir as variadas dimensões do espírito humano, de modo que realmente deu ênfase ao aspecto intelectual.
Essa distinção, contudo, será melhor abordada no pensamento de Platão.
Se o mestre parece contar somente com a racionalidade, o discípulo proporá que junto a ela também existe a irascibilidade e a concupiscência (das quais trataremos em breve), de modo que a ação moral depende do equilíbrio entre as três.
O que passa é que mesmo Platão tendo aprofundado de maneira exemplar a teoria de Sócrates, o fato é que toda a ética grega sempre tenderá reduzir a escolha humana pelo mal como um erro da razão, de modo que diante da ética cristã que seguimos consciente ou inconscientemente, qualquer teoria ética dos gregos antigos parecerá um pouco intelectualista.
Dito isso, penso que podemos dar por terminada esse tema.

Isso tudo que dissemos até agora é a parte do conteúdo mais importante que eu queria passar pra vocês.
Tendo isso em mente, me parece que já é possível uma leitura mais frutuosa sobre autor para aqueles a quem interessar.
Apesar disso, há ainda mais umas ideias que ilustram isso que falamos, só que vou apresentá-las de modo mais breve para não alargar muito o texto.

O primeira dos conceitos que vamos tratar é o de autodomínio, termo que traduzimos do grego enkráteia (ἐγκράτεια).
Autocontrole.jpgOutros termo que, tal como psyché, já aparecia na literatura grega anterior a Sócrates, porem parece ter recebido um sentido novo com o autor (e disso sabemos pelo menos método de estudo filológico que nos revelou a originalidade da noção de alma socrática).
Para o filósofo, este autodomínio tinha um contexto específico para acontecer: os momentos de prazer, fadiga e dor, ou seja, nos movimentos dos impulsos e das paixões.
Seria como o bem mais excelente para o homem e a base de toda a vida virtuosa, pois por meio disso a alma é capaz de ser senhora do corpo.
O interessante é que Sócrates identificou essa noção com outra que vamos tratar agora, a liberdade.
Em grego se diz Eleutheria (ἐλευθερία)
Se antes ser livre tinha um sentido somente político e jurídico, agora tem a ver com o domínio da racionalidade sobre a animalidade.
Ora, esse autonomia permitia ao sujeito o que chamamos de Autarquia (algo como uma autonomia ou independência), palavra que vem do grego autarkeia (αὐτάρκεια).
Basicamente se trata do estado do homem virtuoso em que ele se torna autónomo e independente de todos os impulsos das paixões e encontra na somente razão (ou na própria psyché) o necessário para alcançar a felicidade (que é o fim da melhor vida).
Obviamente nenhum desses conceitos podem ser pensados tal como seus correspondentes hoje em dia, e nisso se percebe um pouco do intelectualismo grego do qual falamos antes.
O autodomínio não é da vontade, mas do lógos sobre as paixões; a liberdade não é a do querer, mas a da razão em poder impor-se sobre a animalidade; a independência pode ser entendida como a auto-suficiência da razão em relação a todo o resto.
Com isso, podemos perceber isso que dissemos antes sobre a prioridade que tendem os gregos antigos a dar à razão no que diz respeito à vida ética e moral.

Outro tema interessante que é bom que abordemos um pouco é a questão do prazer, pois baseando-se em apenas uma fala de Sócrates foram muitos os que chegaram a o acusar de um hedonista.
No Protágoras de Platão, aparece Sócrates identificando o bem com o prazer, de modo que este seria o critério para determinar aquele.
Além de isso ir contra muito do que já se foi dito até agora sobre o filósofo, ainda entra em contradição com todas as outras posições sobre o mesmo tema que Platão apresenta nos demais diálogos.
Para então entender o que passa, devemos lembrar a função da ironia no método filosófico do autor, pois assim deve ser entendida sua afirmação de que prazer e bem coincidem.
Seria como se Sócrates aceitasse essa tese apresentada por Protágoras como algo dado no discurso popular, mas sem consentir com essa sua teoria.
De fato, se pensarmos o que Sócrates fala sobre o prazer nas outras obras de Platão, percebemos que o trata como os outros ditos bens para os antigos gregos, quer dizer, não sendo nem bom nem mal em si mesmo, mas somente segundo o uso que se dá.
Assim, mediante a mensuração da ciência e a força do autodomínio, o prazer se converte em algo bom, porem jamais sendo um critério para se alcançar a felicidade.
Algo parecido acontece com a noção de utilidade ao nos depararmos com um Sócrates que identifica o bem seja com o útil (Xenofontes) seja com o vantajoso (Platão).
Nosso filósofo seria então um utilitarista e o fundamento da vida moral seria o egoísmo.
Para isso, devemos mais uma vez recorrer a noção da alma, pois tanto o útil quanto o vantajoso se referem ao que é útil e vantajoso para a alma.
Nessa linha, as coisas que são úteis para o corpo são verdadeiros bens na medida em que estão em função da alma.
Um exemplo seria uma boa noite de sono ou uma comida nutritiva, pois os dois dizem respeito ao corpo, porem são imprescindíveis para uma bom desenvolvimento da atividade racional que, por sua vez, é útil para alma.
Isso demostra que se há algum utilitarismo em Sócrates, não se trata de algo de teor positivista ou materialista (tal como se entende o utilitarismo na modernidade), mas em função da alma.

Outro termo importante do qual já falamos um pouco sem dar muito aprofundamento é a noção de felicidade, ou em grego, eudaimonia (εὐδαιμονία).
Esse termo e o que quer dizer será melhor desenvolvido quando falarmos de Aristoteles, mas por enquanto, vejamos o que quer dizer em Platão.
Sempre que falamos sobre a excelência da alma devemos ter presentes que isso significa ao homem poder alcançar a felicidade.
Greeks.jpgDe fato, sempre que um filósofo grego fala de ética e moral está, em última instância, falando sobre o modo de viver uma vida feliz.
O que acontece aqui é que, como muitos outros conceitos temos visto ao longo desse post, a felicidade deve ser entendida em função da alma e de sua areté, de modo que não são os bens do corpo que conduzem à felicidade, mas os bens da alma.
Quando um sujeito vive uma vida virtuosa, isso significa que ele age de acordo com sua essência, de modo que é capaz de realizar-se plenamente como si mesmo.
Nessa linha, entendemos que ser feliz é algo que diz respeito somente ao próprio indivíduo, quer dizer, a felicidade é essencialmente autárquica (e ai lembramos daquela noção de autarquia).
O homem não encontra em nada fora de si a felicidade, pois a própria virtude em si mesma já é o suficiente para uma vida feliz.
Assim, ao homem virtuosos nada de mal pode acontecer, pois a própria vida de virtude é o suficiente para alcançar o bem último que é a felicidade (e isso talvez explique sua tranquilidade diante da morte por cicuta, pois ao virtuoso nada pode passar que tire de ele sua felicidade).
Uma observação interessante que podemos fazer nesse ponto é que a felicidade autárquica exclui, por exemplo, a necessidade de um prémio para além da morte, algo que parece ser o motivo pelo qual Sócrates não ter se preocupado com a destino da alma depois da morte (algo que quando aparece nos diálogos platônicos se costuma imputar ao próprio Platão).

Também parece que existe dentro da filosofia ética e moral de Sócrates alguma reflexão sobre a amizade, só que as categorias metafísicas com que a explica Platão parecem ser estranhas a Sócrates, de modo que seja mais algo do discípulo que do mestre.
Xenofonte, contudo, indica que o filósofo contribui bastante para essa reflexão ao conectá-la ao valor moral.
Amizade filosóficaDessa maneira, a partir do que já sabemos sobre o autor, podemos ter alguma noção dos que seria a amizade para ele.
Em especial, poderíamos tentar delinear as características que procuraria Sócrates em um verdadeiro amigo.
Seguramente deveria ser um homem virtuoso, cujo o valor de sua amizade bastasse a si mesmo, quer dizer, que não dependesse das vantagens que nos pudesse oferecer.
Com isso, ainda se pode concluir que para que determinado sujeito possa encontrar bons amigos (ou seja, homens virtuosos) ele mesmo deve ser virtuoso.
Ao fim, temos que também a amizade está subordina àquela noção socrática de alma.

Por último, mas não menos importante, vejamos de que maneira o pensamento ético e moral de Sócrates termina em uma aguçada percepção política.
Ainda que se saiba que Sócrates nunca gostou muito do ativismo político, jamais podemos pensar que seu pensamento era apolítica, até porque, seu horizonte de reflexão sempre foi a polis ateniense.
Sabemos que em toda sua atividade educativa ele tratou de formar seus alunos para que, se assim desejassem, pudessem ocupar de maneira apropriada cargos políticos.
De fato, depois de tudo que dissemos sobre o autor, não seria estranho escutar que ele pensava que o político ideal era justamente o homem excelente.
Mas não só isso, pois além de ser um sujeito que tivesse conseguido de cuidar bem de sua alma, também deveria ser capaz de cuidar da alma dos demais.
Em Platão, Sócrates diz literalmente que o bom político é um bom cuidador de almas.

Bom…
Até aqui, falamos do que pode ser considerado a Ética Socrática, quer dizer, a mensagem e o ensinamento ético e moral de Sócrates.
Podemos, contudo, falar ainda mais algumas coisinhas sobre o seu pensamento sobre os deuses, quer dizer, sobre a chamada Teologia Socrática.
Ainda que nosso texto possa acabar ficando um pouco mais longo do que o ideal, o fato é que se trata de um tema importante e que está presente em muitos manuais.
Começaremos então vendo a posição de Sócrates ante a concepção de divindade.

Em primeiro lugar devemos ter em mente que, apesar de ser chamado de físico ateu, Sócrates não pode ser visto como um descrente, afinal, diferente dos sofistas, seu deuses gregospensamento sobre o assunto não termina numa negação dos deuses.
A crítica que o filósofo tinha em relação a religião tradicional grega era por conta do antropomorfismo físico e moral que faziam dos deuses nada mais que homens e mulheres grandes e imortais.
Claro que, num primeiro momento, essa crítica não parece original para quem tem nos acompanhado desde o início, afinal, algo parecido disso Xenófanes.
Apesar disso, há uma sútil diferença no fato de que Xenófanes pensava o divino desde a cosmológica e Sócrates colocava a ética como chave de leitura.
Com um pouco mais de dificuldade se pode extrair ainda outro ponto interessante das fontes socráticas.
Parece que o autor rejeitava também o politeísmo grego, de modo que propõe uma concepção unitária do divino.
Isso, todavia, não significa que Sócrates pode ser pensado como um monoteísta no sentido que temos hoje dentro de uma sociedade constituídas sobre as bases do pensamento cristão.
Aliás, é bastante difícil entender como Sócrates poderia fundamentar filosoficamente uma concepção sobre o divino, afinal, não conta nem com as categorias filosóficas dos pré socráticos (pois rompeu com eles) nem com as categorias metafísicas que só aparecerão depois do que chamamos de Segunda Navegação de Platão (e em breve falaremos mais disso).
Carecendo então de uma definição ontológica para a divindade, Sócrates tentará defini-la a partir do que parecem ser suas operações.
Desse modo, tala como os eclético (mas sem a carga física e focado na ética e na moral), pensará no divino como, principalmente, inteligência.
E sobre isso vale a pena aprofundar um pouco.

A principal fonte que temos sobre esse tema, ainda  que durante algum tempo descreditadas pela crítica, são as obras de Xenofonte.
Numa delas Sócrates é apresentado dando uma espécie de demonstração da existência do divino.
É mais ou menso assim:
1) o que não é obra do acaso, mas que é constituída para um objetivo ou um fim, supõe uma inteligência que o tenha produzido propositalmente;
2) ao observarmos a o homem em sua configuração orgânica, percebemos que deve ser obra de alguma inteligência;
3) objetar que o artífice deveria ser visto com sua obra é fatal de perspicácia intelectual, pois não podemos ver nossa inteligência, porem sabemos que fazemos coisas mediante a reflexão e não o pura acaso;
4) tendo em vista que o homem possui privilégios em relação a outras criaturas, se supõe que o artífice divino cidade dele de maneira especial.
Essa argumentação que Xenofonte coloca na boca de Sócrates indica alguns pontos interessantes sobre a teologia do autor.
Em primeiro lugar é que há um nexo entre a inteligência divina e a inteligência humana, quer dizer, uma relação entre o divino e a alma.
Depois, temos que essa inteligência atua tendo em vista determinada finalidade, e nisso o autor ainda mostrar um forte antropocentrismo na medida em que todos os argumentos são feitos a partir da realidade do ser humano e não da natureza.
Por último, mas não menos importante, quando o autor afirma que o divino cuida de maneira especial da vida humana, temos também que a divindade é providente.
Assim, quando Sócrates fala da divindade, fala de uma realidade inteligente, atuante mediante fins e providente.
Ora, tudo isso que Sócrates falou sem a perspectiva ontológica será depois redimensionado por Platão e Aristoteles uma vez que eles já possuirão o que chamamos de metafísica.

Ainda dentro de seu pensamento teológico, não poderíamos terminar essa serie de textos sobre Sócrates sem comentar sobre o daemónion (δαιμόνιον) socrático.
Uma vez que essa palavra significa literalmente algo como “divindade”, acabou sendo um dos motivos de Sócrates ter sido acusado de heresia, quer dizer, acusado de introduzir novas divindades na religião tradicional grega.
Socrates and daimonion.jpgOra, tanto em Platão como em Xenofonte, esse daimónion sempre aparecia como um sinal ou como uma voz da divindade que se revelava à Sócrates (não podemos esquecer do caso do Oráculo de Delfos).
Vendo isso, muitos interpretes ficaram chocados e deram as mais variadas interpretações para essa recorrente figura dos discursos de Sócrates.
Temos os que atribuíram isso totalmente a su ironia, outros que viram aqui um claro indício de que Sócrates possuía problemas mentais e outros o reduziram a “voz da consciência” ou algo como um “sentimento do que é ou não conveniente”.
Um primeira observação interessante que podemos fazer disso é que o substantivo grego que é utilizado está no género neutro, quer dizer, não se trata de um ser pessoal, mas de um fato ou evento.
Além disso, devemos ter cuidado para não traduzir o daimónion socrático com a noção grega de “demónios” (que nada tem a ver com o que entende o cristianismo sobre o mesmo termo).
Na Grécia Antiga seria totalmente implausível falar de uma relação imediata entre os homens e os deuses, de modo que existiam a figura do daemon (δαίμων) que faziam essa mediação.
Apesar do fato de que provavelmente o pensamento geral fosse o de que as revelações divinas chegassem a Sócrates por meio de um desses “demônios”, o fato é que nunca se utilizou esse termo para falar dessas experiências, de maneira que não podemos traduzir daemónion por demônio.
Mega Sena.jpgAo fim, o que podemos dizer com alguma certeza é que Sócrates pensava nesse daemónion como um acontecimento de natureza sobrenatural, e há pelo menos dois fatores que explicam isso: sua profunda religiosidade e sua visão do divino como realidade providente.
A divindade que quer cuidar dos homens, em em especial dos homens bons, indicava em algumas ocasiões a melhor via.
Resta então entendermos o teor das revelações feitas por esse daemónion, quer dizer, provavelmente não se tratava do resultado da Mega-Sena.

Antes de mais nada se deve ter em mente que as revelações do daemónion nunca afetam o âmbito filosófico, afinal, a filosofia se faz pela razão e somente por ela.
Ademais, Sócrates não faz relação direta entre os eventos que tinham que ver com o daemónion e sua atividade na cidade de Atenas (ainda que a considerasse uma missão divina).
Parece então que as revelações de daemónion dizem respeito somente a eventos particulares da vida de Sócrates tais como estar ou não em determinado lugar ou aceitar ou não em seu grupo determinada pessoa.
A mais famosa indicação de daemónion para Sócrates foi o afastamento da vida política militante, algo que, segundo o próprio filósofo, o salvou de ser condenado a morte muito antes do que foi.

E assim finalmente entramos no último ponto que eu gostaria de tratar nesse texto, a relação que hem entre essa teologia socrática e sua ética.
Não devemos esquecer que a ética socrática não se baseia em nada que não seja o próprio lógos, de modo que o agir ético nada que tem a vez com receber um prémio dos deuses ou com ser um mandamento deles.
Sequer podemos dizer que a divindade se assegura da correspondência entre a vida ética e a felicidade, afinal, já dissemos que a própria vida virtuosa já é por si uma vida feliz.
Os valores morais são então entendidos não como valores divinos, mas como valores absolutos que também podem ser reconhecidos pelo divino.
Dessa forma, mesmo que a divindade não seja autora dos valores morais, ela os considera a ponto de cuidar de maneira particular dos homens bons e, no caso de Sócrates, ainda os ajudar com revelações.
Ao fim, diferente da concepção cristã de Deus que se preocupa individualmente com bons e com maus, a divindade desenhada por Sócrates tem em conta somente aqueles que seguem o caminho da virtude.”

Texto de José Guilherme Carvalho de Souza, Bacharel em Filosofia pela PUC-RJ

Caso você tenha alguma dúvida, crítica, pedido ou sugestão, entre em contato pelo email areafilosofica@gmail.com
Na medida do possível vamos tentar responder a cada um.
Até semana que vem e estudem com moderação!!!

Bibliografia:
-ABBAGANO, Nicola. Dicionário de Filosofia. São Paulo: Martins Fontes, 2007
-REALE, Giovanni. Pré-Socráticos e Orfismo: historia da filosofia grega e romana. São Paulo: Edições Loyola, v. I, 1993

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