Platão: Metafísica Parte 1

“De duas maneira se compreendeu e expôs a filosofia de Platão.
Por um lado, alguns preferiram tentar sistematizar sua obra a partir de alguns esquemas antigos que prevaleceram ao longo da História da Filosofia (Aristoteles, por exemplo).
Por outro lado, supondo já uma cronologia dos diálogos de Platão e a existência de uma evolução de seu pensamento, outros especialistas preferiram trabalhar cada diálogo separadamente.
As duas tentativas geraram problemas, pois, se a primeira faz com que muitas partes da obra tenham que ser ignoradas em prol da construção de um sistema, a segunda tende a ser muito dispersiva e não dificulta entender Platão em sua totalidade.
Por conta desses problemas, Reale propõe uma terceira via de estudo, onde se pretende recuperar o sistema platônico não como uma estrutura de pensamento fechada, mas como um todo orgânico onde vários conceitos e ideias são reunidos e unificados em torno de um conceito supremo.
Ademais disso, Reale também percebe que Platão foi sendo lido a partir de três perspectivas: metafísica (Academia), religiosa (neoplatonismo) e política (século XX).
Assim, a solução do autor é propor que o verdadeiro Platão não se encontra em nenhuma dessas faces individualmente, mas sim nas junção das três em torno das Doutrinas Não Escritas.
Dessa forma, o que faremos ao longo das próximas semanas é ir apresentando as três componentes do pensamento de Platão e, na medida que pareça conveniente, mostrar a relação que possivelmente possuem com as “coisas de maior valor”.
Em esse texto começaremos a tratar da componente Metafísica de seu pensamento.

Falar da Metafísica de Platão é necessariamente tocar no que chamamos de Segunda Navegação, porem, antes de chegarmos nisso, há um itinerário que vale a pena conhecermos.
Num primeiro momento temos um Platão que se encontra com a doutrina dos pré socráticos sobre a causa por trás da geração, da corrupção e do ser das coisas, problemas esses que são os mais importante do que poderíamos chamar de Metafísica (ainda que não estivesse assim formulada) nesse momento.
O problema é que Platão percebe que as soluções dadas até então para essas questões eram de caráter puramente físico, algo que ele achou insatisfatório.
Ainda com os pré socráticos, temos o encontro com a teoria da Inteligência Cósmica de Anaxágoras como um possível solução para esse problemas.
Platão concorda com esse autor de que a Inteligência é a causa de tudo, porem percebe que ele não foi capaz de justificar isso adequadamente.
Basicamente, Anaxágoras afirma uma Inteligência que é causa e ordenadora de tudo, algo que supõe afirmar que ela atua dispondo todas as coisas da melhor maneira possível.
Quando Platão escuta isso, ele espera que Anaxagoras articule estruturalmente a Inteligência com a noção de Bem, afinal, seria esse o critério pelo qual a Inteligência ordenaria as coisas (para alcançar o “mais Bem”, o melhor).
Dessa maneira, a noção de Bem seria a condição do nascer e perecer das coisas, ou seja, de todos os fenômenos.
O que acontece é que, mesmo introduzindo a noção de Inteligência, Anaxágoras acaba atribuindo o papel de causa para explicar os fenômenos do cosmos aos próprios elementos físicos (água, fogo, terra, ar etc).
Para Platão isso era absurdo, pois ainda que os elementos físicos sejam necessários para a constituição do cosmos, atuariam mais como uma condição do que como a Causa Verdadeira.
super-copVeja um exemplo:
Digamos que em uma situação de vida ou morte um policial atira em um bandido.
Seria ridículo dizer que a causa do policial ter dado o tiro foi o seu dedo que puxou o gatilho.
Na verdade, o mais coerente seria afirmar que a verdadeira causa foi a inteligência do policial que percebeu que naquela determinada situação a melhor coisa a fazer era disparar.
A conclusão é a seguinte: o dedo que puxa o gatilho, bem como toda mecânica corporal envolvida nesse ato, é sim uma condição para a ação, mas não sua verdadeira causa.
Ao fim, o que Platão percebe é que a reflexão sobre a mecânica do cosmos, ou seja, considerando só a realidade física, não é suficiente para levar ao conhecimento da Causa Verdadeira, de maneira que terá que sair do plano sensível e entrar no que tradicionalmente será chamado de supra-sensível, ou, dimensão inteligível da realidade.
Com efeito, isso será propriamente a Segunda Navegação.
Obviamente, quando Platão fala isso no Fédon, está fazendo uma metáfora.
Originalmente, Segunda Navegação é um termo naval que designa a navegação feita com a força dos remos quando não há ventos para empurrar as velas.
Platão, sendo um sujeito muito culto, percebeu aqui a possibilidade de explicar a situação de seu pensamento em relação ao pensamento dos pré socráticos.
Com o método da filosofia anterior, ou seja, com os sentidos e as sensações, Platão realizou uma Primeira Navegação na busca pelas Causas Verdadeiras.
Uma vez que ele não encontrou nessa metodologia algo que pudesse chamar de Causa
Verdadeira, ele simplesmente conclui que com os ventos do método pré socrático não poderia seguir sua busca.
segunda-navegacaoAssim, o autor diz que fará uma Segunda Navegação no sentido de que buscará outro método que o permita seguir sua jornada, ainda que se torne algo muito mais árduo e cansativo (afinal, é mais fácil navegar sendo empurrado pelo vento do que remando que nem escravo).
Esse método não deve fundar-se nos sentidos (que já se mostraram insuficientes), mas nos pensamentos e postulados.
A partir disso o autor poderá sair do âmbito físico e adentrar na dimensão supra-sensível da realidade.Em suma, o que chamamos de Segunda Navegação é o descobrimento de Platão das realidades inteligíveis que ele considerará como as Causas Verdadeiras, de modo que as coisas físicas não serão mais que meio pelos quais essas Causas se realizam.Uma vez explicado isso, podemos finalmente entrar no verdadeiro assunto do texto de hoje, a saber, a Metafísica de Platão.

Propriamente, a Metafísica Platônica é a Teoria das Ideias e a Teoria dos Princípios.
Talvez você já tenha ouvido falar da primeira, mas dificilmente escutou algo sobre a segunda.
O que acontece é que a Teoria das Ideias de Platão é a parte de sua Metafísica que está exposta de maneira clara em suas obras, enquanto que a Teoria dos Princípios se encontra naquilo que chamamos de Doutrinas Não Escritas.
Sendo assim, vamos nos centrar primeiro na Teoria das Ideias.
[Um Breve Esclarecimento]
Mesmo que popularmente seja conhecida assim, o mais correto seria falar de uma Teoria das Formas.
O problema, como na maioria das vezes, está nas traduções do grego para as demais línguas.
Ideia é a tradução das palavras gregas Idéa e Eidos.
Ainda que pareça quase uma transliteração, o fato é que o conceito de Ideia que temos hoje (pensamento, representação mental etc) é totalmente diferente do que Platão queria dizer quando falava de Idéa ou Eidos.
Melancolia.jpgPor exemplo, outro dia eu estava em casa melancólico porque sabia que ia pra longe e não poderia mais estar ajudando no Curso de Férias.Dai, enquanto estava sentado no sofá olhando pro ventilador, tive uma ideia para poder continuar envolvido com esse trabalho – “Vou fazer um Blog para explicar coisas que não conseguimos explicar nas aulas” – pois bem, obviamente não é desse tipo de ideia que o filósofo estava tratando.
Além disso, Idéa e Eidos são palavras que vêm do verbo grego Idein, que significa “ver”, de modo que originalmente (antes de Platão) eram utilizados para falar da forma visível das coisas.
Platão, entretanto, justamente por conta da Segunda Navegação, utiliza esses termos para referir-se ao que chamamos de Forma Interior da Coisa, quer dizer, sua estrutura metafísica puramente inteligível.
Se então os olhos são capazes de captar as Formas físicas, a Inteligência dará conta das Formas Inteligíveis.
Assim, a partir de agora eu vou abandonar o termo ideia e utilizar apenas o termo Forma.
[Finalmente, a Teoria das Formas]

A obra que normalmente se utiliza como referência para conhecer a Teoria das Formas de Platão é o Fédon, porem, em praticamente todas as outras obras, incluso as ditas obras da juventude, poderemos encontrar algo disso pelo menos de modo implícito.
Vejamos então algumas características disso que Platão chama de Formas:
a) Inteligibilidade: quer dizer que as Formas só podem ser captada pelo raciocínio, de modo que por isso que as chamamos de Formas Inteligíveis.
Em esto sentido, as Formas Inteligíveis são contrapostas às coisas sensíveis como se fossem uma outra dimensão da mesma realidade que só pode ser alcançada pela inteligência.
Com isso, vemos pela primeira vez na História da Filosofia a distinção clara entre plano metafísico e plano físico, algo que em muitos manuais utilizados em nossas escolas aparece como a distinção entre Mundo Sensível e Mundo Inteligível.
Particularmente não me parece apropriado essa terminologia de mundos, afinal, pode dar a entender que Platão esteja supondo que existe uma espécie de “mundo paralelo” onde vivem as ideias.
b) Incorporeidade: é uma característica que se desenvolve da anterior, isto é, do fato das Formas serem inteligíveis.
Os sentidos, ainda que em alguns casos precisem das ferramentas adequadas (como um microscópio, por exemplo), são sempre capazes de captar o corpóreo.
Como as Formas, por serem inteligíveis, não podem ser alcançadas pelos sentidos, supõe-se naturalmente que se tratam de realidades incorpóreas.
O interessante é que a noção de incorpóreo que temos até hoje é mais ou menos a mesma que nos apresenta Platão.
Isso, contudo, antes de ser uma vantagem nesse estudo, pode acabar configurando-se num grande problema.
O que acontece é que, antes de Platão, outros filósofos utilizaram o mesmo termo, porem com um sentido totalmente diferente.
Isso quer dizer que devemos tomar muito cuidado para não entendermos o uso de “incorpóreo” na filosofia pré socrática segundo as categorias platônicas que esse conceito assumiu, afinal, poderíamos acabar afirmando que já naquele tempo existia uma reflexão metafísica tal como apareceu em Platão, e isso estaria errado.
De modo geral, quando os filósofos anteriores falavam de algo incorpóreo, queriam designar apenas a ausência de uma forma (em sentido físico) determinada.
Para Platão não é assim, pois ainda que diga que as Formas são incorpóreas, ele as entende como realidades muito bem determinadas, e mais, como capaz de serem Causa de determinação das diversas coisas na realidade (porem sobre isso falaremos logo).
c) Perseidade: de maneira geral, é o princípio de que as Formas são por si e em si.
Platão apresenta isso no Fédon como o ponto de partida de uma das últimas reflexões de Sócrates com seus discípulos.
O autor estabelece que há o Belo em si e por si, a Bondade em si e por si, a Grandeza em si e por si etc.
Ora, essas realidades em si são justamente as Formas do Belo, da Bondade e da Grandeza.
Estas Formas, por sua vez, terão alguma relação (que também explicaremos mais pra frente) com todas as coisas sensíveis que forem belas, boas ou grandes.
E isso será extendido a toda a realidade física, de modo que da mesma maneira que temos pedras singulares no plano físico, na esfera supra-sensível encontramos a Pedra em si, quer dizer, a realidade inteligível e incorpórea que podemos chamar de Forma da Pedra.
Além do mais, o fato das Formas possuírem perseidade dá a elas solidez e estabilidade, de maneira que podemos dizer que são realidades objetivas, ou seja, que não dependem da subjetividade de ninguém.
d) Imutabilidade: basicamente é o princípio de que as Formas não podem estar em nenhuma maneira baixo o Vir-a-Ser e vai surgir como uma reação a um tipo de relativismo de origem heraclitiano.
A partir do pensamento de Heráclito sobre a mobilidade radical e constante do cosmos, alguns de seus seguidores afirmaram a impossibilidade do conhecimento verdadeiro das coisas.
Veja bem, se tudo está em constante mudança, então as realidades físicas e singulares são uma grande multiplicidade de estados moveis, de modo que no há um conhecimento objetivo sobre essas coisas, mas somente relativo ao estado em que estão ( e que no instante seguinte deixarão de estar).
Platão até afirma que é correto afirmar que existe mudança e movimento na realidade sensível, porem nega que se possa aplicar esse fenômeno na realidade das Formas justamente por serem em si e por si.
Pintura estragada.jpgSabemos que uma pintura que é bela possa se tornar feia por um série de motivos: porque foi borrada pela água da chuva, porque cai lama nela, porque perdeu a vivacidade de suas coras pela ação do tempo etc.
Isso, contudo, não indica uma mudança na Forma do Belo, mas sim nos meios físicos pelos quais a pintura tinha relação com o Belo em si.
Assim, as coisas belas podem tornar-se feias, mas justamente por serem realidade sensíveis e causadas; já o Belo em Si, na mediada em que é a Causa Verdadeira da beleza das coisas, não poderia tornar-se feia sem que, com isso, desaparecesse todo a beleza do mundo, afinal, são perdemos a Causa, consequentemente deixa de existir o efeito.
Para que as Formas sejam realmente a Causa Verdadeira das coisas, é necessários que a solidez e estabilidade que possuem por serem realidades em si e por si nos leve a concluir que não pode estar baixo o fluxo do movimento, pois de outra forma, não seria realmente estáveis e sólidas, quer dizer, não seriam a Causa Verdadeira.
e) Ser no sentido pleno: em poucas palavras, o filósofo está dizendo que as Formas são o Ser que é verdadeiramente, ou seja, o ser das coisas em sentido absoluto.
Essa característica leva em conta todas as demais para afirmar que aquilo que anteriormente alguns pré socráticos atribuíram ao Ser absoluto deve ser então atribuído às Formas.
Com isso, a distinção que antes tínhamos levantado entre plano físico e plano metafísico agora também pode ser entendida como plano do vir-a-Ser e plano do Ser.
A esfera do vir-a-Ser é a dimensão sensível da realidade, aquele que outrora Heráclito atribui a todo o Ser; por outro lado, a esfera do Ser é a dimensão inteligível da realidade, aquela que Parmenides havia atribuído a todo real.
Com isso, Platão é capaz de resolver o dilema entre Heráclito e Parmenides, pois percebe que nenhum dos dois deu conta da realidade como um todo, mas cada um de uma dimensão dela.
Desse modo, dizemos que a análise heraclitiana está correta no que diz respeito à realidade sensível, enquanto que de igual maneira está acertado o pensamento de Parmenides no que diz respeito à realidade inteligível.
Ao fim, poderíamos considerar o Ser de Parmenides como a Causa e o vir-a-Ser de Heráclito como o Causado (obviamente com alguns matizes que não estão presentes originalmente nesses autores).

Depois de termos vistos todas essas características das Formas, podemos dizer que falta acrescentar uma mais, porem faremos isso separadamente pelo fato de que está última é de longe a mais importante.
Se trata da Unidade das Formas.
Talvez você que esteja lendo esse texto possa ter tido a impressão de que até agora estávamos simplesmente dando informação sobre as Formas sem justificar muito, afinal, além de Platão ter simplesmente “estabelecido como um pressuposto” que elas devem ser em si e por si, também não foi justificado que realidade inteligível seja de fato real, mas apenas dissemos que Platão “descobriu” essa realidade e a “considerou” como Causa Verdadeira.
Isso, contudo, será um pouco melhor fundamentado na medida em que explicarmos a Unidade das Formas.
Para o autor, as Formas devem ser consideradas antes de qualquer coisa como a Unidade que explica as coisas sensíveis que se relacionam com ela, ou seja, que unificam a multiplicidade de seres singulares.
Alguns estudiosos do platonismo, a partir disso, desenvolveram uma argumentação para a existência real das Formas chamada de “prova que deriva da unidade do múltiplo”.
Vejamos como Reale apresenta essa argumentação:
Primeiro devemos ter em mente que existem muitos homens e que cada um deles é verdadeiramente homem.
Assim, deve existir algo que faça com que cada homem (individualmente) e com que todos os homens(como um todo) sejam homens e não outra coisa.
Esse algo não pode ser idêntico a algum dos seres singulares, pois, se o atribuíssemos a um determinado indivíduo entre os homens, cairíamos em uma das duas conclusões:
-os demais não seriam homens por não serem aquele indivíduo;
-os homens não seriam diferentes por serem todos o mesmo indivíduo.
Ora, as duas hipóteses são absurdas.
Assim, é necessário que haja algo separado dos homens individuais que se possa dizer de modo idêntico de todos eles.
Em outras palavras, se conclui que deve haver uma Unidade que transcenda a multiplicidade afim de a unificar.
Essa Unidade necessária para explicar a multiplicidade das coisas é o que Platão chama de Formas.
Tendo isso em mente, entendemos, por exemplo, o porquê de termos dito anteriormente que as Formas são a Causa de determinação das realidades sensíveis e singulares.
teoria-das-ideiasUm cavalo não é uma cavalo por suas características física (tamanho, resistência, formato etc), pois dessa forma os outros cavalos (que não são idênticos a ele em tamanho, resistência, formato etc) não seriam cavalos.
Em realidade, o que faz com que um cavalo seja um cavalo é a Unidade transcendente que Platão chama Forma do Cavalo.
Em suma, a Forma é um princípio de unidade inteligível e incorpóreo que explica e determina a realidade singular múltipla, de modo que pode ser considerada a Causa Verdadeira das coisas na medida em que é o Ser Verdadeiro delas que, em meio a todo vir-a-Ser, permanece o mesmo de maneira sólida e estável.

Imagino então que, com tudo que dissemos, já possuímos uma noção um pouco mais refinada de Formas.
Isso, entretanto, não impede que muitos continuem achando que é uma teoria um pouco absurda.
O que acontece é que o motivo que leva a essa impressão em alguns leitores não está tanto na Teoria das Formas em si mesma, mas em algumas conclusões que, por conta muitas vezes de uma má interpretação, tiramos dela.
Talvez, a pior de todas elas seja a afirmação de que existe na filosofia de Platão um dualismo entre sensível e Inteligível quando, na verdade, falamos de uma dualidade.
Veja bem, as palavras são parecidas, mas não são iguais.
De maneira geral, o termo dualismo diz respeito a um pensamento onde existem duas realidades distintas e separadas que se sobrepõem uma à outra.
Dualidade, contudo, costuma indicar uma mesma realidade que, por sua vez, é composta por duas dimensões distintas.
Isso vai ficar um pouco mais claro quando vermos a Metafísica de Aristoteles, pois esse autor afronta diretamente esse problema, porem podemos pensar que isso já está presente em Platão.
Dois Mundos.jpgOra, a má interpretação que costuma surgir a partir disso é a de que a distinção entre sensível e inteligível supõe uma separação, de modo que parece que Platão está defendendo a existência de dois mundo separados, o inteligível e o sensível.
O que acontece é que isso está errado, pois, ainda que você tenha aprendido isso na escola, Platão não afirma estritamente a existência de um Mundo das Ideias que está separado do nosso mundo.
A Teoria das Formas não apresenta um dualismo, mas uma dualidade, ou seja, o que Platão diz é que sensível e inteligível são duas dimensões de uma mesma realidade.
Para que isso fique claro, devemos entender um pouco as noções de Transcendência e Imanência das Formas em relação às coisas físicas.
Platão afirma que as Formas tem tanto algo de imanência quanto de transcendência, algo que parece contraditório, afinal, algo não pode ser imanente e transcendentes ao mesmo tempo e sob o mesmo aspecto.
Entretanto, tal contradição desaparece se entendermos que as Formas são imanentes e transcendentes justamente sob aspectos distintos, de modo que o autor incluso afirma que a transcendência delas é a razão de ser de sua imanência.
Quando Platão afirma que as Formas transcendem ao sensível, o diz enquanto que são Causas Metaempíricas (além da possibilidade de serem conhecidas pelos sentidos).
Isso deve ser assim pelo fato de que, como já falamos antes, dentro das categorias empíricas (sensíveis e físicas) não foi possível encontrar a Causa verdadeira da realidade, quer dizer, da a razão de seu Ser.
E isso também podemos ver nos dias de hoje, afinal, frequentemente temos notícias de pseudo-cientistas que pretendente explicar a razão de Ser do universo apenas por meio de causas mecânicas e empíricas.
Tais tentativas, contudo, sempre falham miseravelmente e deformam a verdadeira ciência na medida em que vão contra seu próprio estatuto.
O que acontece é que não vou discutir isso agora, pois desde os primeiros textos faleis que não ia entrar (ainda) nas dificuldades que existem entre filosofia e pseudo-ciência.
Ao fim, com a transcendência das Formas Platão não quer dizer elas existem em um mundo separado, mas que só podemos explicar o sensível a partir do supra-sensível (corruptível com o incorruptível, relativo com absoluto, móvel com imóvel, múltiplo com Uno).
E além disso tudo, os primeiros aspectos das Formas que Platão aponta são justamente o de sua imanência, pois o autor afirma que elas são aquilo que, nas coisas sensíveis, permanecem idênticas, fazem com que sejam elas mesmas, as fixam em suas naturezas, permitem que sejam inteligíveis, em suma, fundamentam sua estrutura ontológica imanente.
Por último, agora que sabemos como não deve ser entendida a relação entre Formas e coisas sensíveis, devemos perguntarmos sobre como é essa relação.
Ora, ao longe de seus escritos, Platão fala dessa relação das seguintes maneiras: mimese ou imitação; métexis ou participação; koinonía ou comunhão; parusia ou presença.
Apesar disso, no Fédon, o autor diz que todos esses termos devem se entendidos apenas como propostas mais simples que ele não pretendia desenvolver.
E ele fala isso justamente pelo fato de que o desenvolvimento disso já seria chegar muito perto das “coisas mais importantes”, algo sobre o qual ele não queria escrever.
Assim, parecemos que chegamos ao limite de informações possíveis de tirar da obra de Platão sobre sua Metafísica, pois, ainda que seja possível um grande aprofundamento sobre o que foi dito acima, não podemos, todavia, avançar para novos horizontes.
Assim, só será possível que continuemos nosso estudo sobre a Metafísica platônica se acudirmos à tradição indireta de Platão, quer dizer, às Doutrinas Não Escritas.”

Texto de José Guilherme Carvalho de Souza, Bacharel em Filosofia pela PUC-RJ

Caso você tenha alguma dúvida, crítica, pedido ou sugestão, entre em contato pelo email areafilosofica@gmail.com
Na medida do possível vamos tentar responder a cada um.
Até semana que vem e estudem com moderação!!!

Bibliografia:
-REALE, Giovanni. Platão: historia da filosofia grega e romana. São Paulo: Edições Loyola, v. III, 1993

 

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