Platão – Cosmologia

Ao estudar o pensamento metafísico de Platão, nos deparamos com aquilo que chamamos de Segunda Navegação, a descoberta da dimensão Inteligível da realidade, e com a Teoria dos Princípios Supremos.
Nesse âmbito, sempre que falávamos do Sensível, o fazíamos em contraste com o Inteligível, ou seja, em função dele.
Isso pode levar à conclusão de que Platão é um sujeito que abandona totalmente o “Mundo Sensível” e só se preocupa com o “Mundo Inteligível” (termos estes que já indicamos estarem, no mínimo, mal matizados).
Pois bem, a verdade é que isso é uma grande mentira…
Platão não apenas aceita a dimensão sensível da realidade, mas também desenvolve toda uma teoria para explicá-la.
Chamaremos essa teoria de  Cosmologia (ou Física) platônica, porem devemos ter cuidado para não pensar que se trata de uma cosmologia (ou física) tal como a dos pré socráticos.
De fato, quando falávamos que Sócrates havia rechaçado esse tipo de reflexão filosófica, já tínhamos indicado que Platão a retomaria, porem agora cabe que também afirmemos que será de uma maneira totalmente nova e original, ou seja, de um modo que nenhum dos pensadores anteriores foi capaz de fazer.
O motivo disso, obviamente, é o fato de que Platão conta com algo que em nenhum deles teve presente: o conhecimento do Inteligível fruto da Segunda Navegação.
Pois bem, vamos ao que interessa…

Falar de uma Cosmologia é, sobre tudo, falar de como um autor entende a realidade como um todo, quer dizer, como um Cosmos.
Apesar de estarmos enfrentando esse assunto de maneira direta pela primeira vez, não seria justo dizer que não sabemos nada sobre ele, afinal, já saíram algumas informações pertinentes sobre o tema quando falávamos das dimensões metafísica e matemática.
O problema é que como focamos muito nessas dimensões do real, o que chamamos de Sensível apareceu sempre em contraposição a elas, de modo que se pode acabar fortalecendo a ideia de que Platão rechaça o mundo físico.
Para então evitar isso de uma vez, começaremos nosso estudo tentando entender a posição do Sensível dentro do pensamento do autor, quer dizer, o lugar que ele ocupa no âmbito do real.
Segundo o que já explicamos no último texto, Platão pensa que toda a realidade procede dos Princípios Supremos: Uno e Díade.
A partir desses dois seguem 3 planos: Inteligível, Matemático e Sensível.
Claro que quando utilizamos o termo “planos” não podemos pensar como realidades separadas, mas como dimensões distintas de uma mesma realidade, quer dizer, como sua estrutura metafísica hierárquica (mas sobre isso já falamos suficientemente nos textos anteriores).
Ademais, também afirmamos que o plano matemático ocupava um posição intermediária em relação aos outros dois planos uma vez que teria características de ambos.
O que acontece é que até aqui estamos dentro do que chamamos de gêneros de Ser, pois cada um desses planos são considerados dimensões do Ser.
Se porém acrescentamos nessa escala o não-Ser, a situação muda e é o plano Sensível que passa a ser considerado um intermediário entre Ser e não-Ser, algo que Platão parece afirmar tendo em vista a filosofia de Parmênides.
O que Platão chama de plano Sensível pode ser analogamente pensado como o que Parmênides chama de “mundo dos fenômenos”
14859551_1157439324335084_2099254753_o(ou do vir-a-Ser), algo que esse autor identifica com o nada absoluto, ou seja, com o não-Ser.
Resumindo muito o pensamento desse pré socrático (até porquê já temos um texto onde abordamos bastante a filosofia dele), ele identifica o vir-a-Ser com o não-Ser, quer dizer, o mundo dos fenômenos é na verdade o Nada Absoluto.
Além disso, como o vir-a-Ser (que para Parmênides já é não-Ser) está sujeito ao movimento e à mudança, se afirma que dele não é possível alcançar verdadeiro conhecimento, mas somente opiniões.
Platão aceitará (e demonstrará em sua obra República) que realmente só são possíveis opiniões no que diz respeito ao plano Sensível, porem desenvolverá um pouco mais a argumentação.
Nesse ponto teremos que entrar um pouco no assunto do próximo texto, quer dizer, na sua Teoria do Conhecimento, porem tentaremos não perder muito tempo aqui.
Na República, apesar de aceitar que o verdadeiro conhecimento só é possível se referido ao Ser verdadeiro (Inteligível), o autor rejeita que as opiniões digam respeito ao não-Ser, pois se levarmos a noção de Nada Absoluto até suas últimas consequências, a única coisa possível seria a absoluta ignorância (afinal, se não é nada em absoluto, sequer se pode opinar sobre).
Assim, a opinião deve ser concebida como uma categoria de conhecimento intermediária entre Ciência e Ignorância.
Se então voltamos a olhar para o vir-a-Ser (que os dois autores concordam que é objeto de opiniões), temos que concluir que ele está justamente numa categoria intermédia entre o Ser verdadeiro (do qual é possível ciência) e o Nada Absoluto (do qual é somente possível ignorância).
Ora, em vista disso, Platão afirmará que o Sensível, ainda que não seja o Ser verdadeiro (pois esse é o Inteligível), tão pouco pode ser considerado como não-Ser em sentido absoluto, isto é, como totalmente privado da marca do Ser (pois se assim o fosse sequer seria possível opinar sobre ele).
Dessa forma, mesmo que o Sensível não “seja” o Ser, pelo menos ele “tem” Ser, de maneira que dizemos que participa (possui de maneira imperfeita) do Ser do Inteligível
Basicamente, a solução será afirmar que, mesmo que não seja o Ser, o Sensível tem Ser por participação do Inteligível.
Ao fim, temos o seguinte:
-Ser (Inteligível): aquele que é sempre, ou seja, não está sujeito à geração ou ao devir, mas permanece sempre nas mesmas condições;
[As coisas das quais se pode dizer “Ser” em sentido pleno]
-Vir-a-Ser (Sensível): aquele que está em constante mudança, ou seja, está sujeito à geração e ao devir, de modo que nunca é Ser, mas tem Ser.
[As coisas das quais se pode dizer “Ser” somente em sentido parcial]
-Não-Ser (Nada): Nada, Nada, Nada
[Nada]
Também podemos dizer que, dentro dessa nova escala, os seres matemáticos estão entre aqueles dos quais se pode dizer “Ser” em sentido pleno, afinal, o critério aqui é mais a imutabilidade e não tanto a unidade.
demiurgo
Ora, aquilo que definimos como vir-a-Ser também deve estar sujeito ao processo de geração, de modo que, segundo o Timeu (a obra de Platão que serve de referencia para o estudo de sua cosmologia), exige uma Causa que o produza.
O autor chamará essa Causa de Demiurgo ou seja, Artífice.
E aqui parece bom que paremos um pouco para explicar esse pequeno salto que demos desde “estar sujeito ao processo de geração” à “exigir uma Causa que o produza”.
De fato, não é difícil de aceitar que tudo aquilo que é gerado deve necessariamente ter sido gerado por algo, afinal, sem causa não há efeito.
Além disso, essa relação de Causa e Efeito é tão forte que a inteligência humano ante determinado efeito tendo buscar a sua causa, e isso se pode observar com um simples exemplo…
-se pela manhã vemos uma criança correndo onde não deve correr, imediatamente nos perguntaremos por seus pais (Causa Eficiente da criança);
-se então, pela tarde, algo aparece quebrado, provavelmente nos perguntaremos por aquela criança (possível Causa Eficiente da coisa quebrada).
Se levarmos essa relação de Causa e Efeito até suas últimas consequências, perceberemos que o Cosmos, ou seja, a realidade como um todo, também precisa de uma Causa Eficiente que a explique, isto é, que justifique que esteja ali agora quando antes não estava.
Nesse sentido, entendemos o Demiurgo como a imagem que Platão utiliza para falar da Causa da realidade como um todo e não como uma criança que brinca de modelagem.
De fato, parece que ele ocupa o lugar daquela Inteligência ordenadora da qual falava Anaxágoras e que, como vimos em outro texto, chamou muito a atenção de Platão.

Outra informação importante que temos no Timeu é a de que o Demiurgo produz tudo segundo um modelo segundo o qual seu produto será ou não será belo.
Esses modelos podem ser de dois tipos:
-aquilo do qual se pode dizer “Ser”: nesse caso a obra é bela, pois seu modelo é Eterno e imóvel;
-aquilo do tipo do qual se pode dizer “Ser” somente de forma parcial: nesse caso a obra não é bela, pois seu modelo é gerado e sujeito ao devir.foto-tremida
E para entender o motivo disso basta você tentar tira de um sujeito que não para de se mexer, obviamente ela vai ser toda tremida e estranh…
Ora, tanto o princípio de que as coisas geradas precisam de uma Causa que as produza, quanto a afirmação de que essa Causa produz segundo um modelo, podem ser considerados como os axiomas que fundamentam teoreticamente o pensamento cosmológico de Platão.
Ao aplicarmos esses princípios aos cosmo físico, encontraremos como que a “Coluna Vertebral” de sua filosofia cosmológica…

mundo-e-beloComo já sabemos que o Sensível está baixo o vir-a-Ser, consequentemente somos levados a afirmar que é algo produzido pelo Demiurgo.
Além disso, se levarmos em conta que o mundo é belo (e isso devemos entender como um pressuposto ao qual todos os gregos antigos estão de acordo) consequentemente o modelo que o Artífice utiliza para produzi-lo está no âmbito do Ser, ou seja, do Eterno e imutável.
Ao fim, a cosmologia filosófica de Platão pode ser dita segundo a seguinte tese geral:
-O Sensível é uma imagem do Inteligível produzida pelo Demiurgo.
A partir disso vamos tentar desenvolver o pensamento cosmológico do autor e, para que isso seja um pouco mais simples, vamos dividir essa afirmação em duas partes.

a)”O Sensível é uma Imagem”:
sensibilidadeA primeira coisa que me parece interessante de observar é a palavra Sensível, pois já levanta uma questão que até agora não apareceu, quer dizer, de onde vem a sensibilidade.
De fato, a característica mais óbvia do mundo físico é justamente o fato de ser acessível pelo sentidos, de modo que ainda que já saibamos que o Inteligível é causa meta empírica do Sensível, descobrimos agora uma característica deste que não pode ser explicada por aquele.
Para resolver isso, o primeiro passo é  lembrar que, para Platão, toda a realidade é uma “mescla” de dois princípio opostos: Ilimitado e Limitante.
Dada a sensibilidade (ou materialidade), é necessário que um dos princípios dê conta de a explicar.
Em outras palavras, um dos princípio deve ser entendido como um “Princípio Material”.
De fato, parece que esse termo é estranho às obras platônicas, porem o testemunho indireto sobre as Doutrinas não Escritas (Aristoteles principalmente), afirma que a ideia de um “Princípio Material” já está em sua filosofia e tem a ver com a Díade.
Isso, de entrada, mostra que esse “Princípio Material” está baixo o conceito de Ilimitado, de modo que alguém poderia concluir que o princípio oposto e Limitante são justamente as Formas.
Pois bem, essa conclusão está no caminho certo e indica que já estamos entendendo bastante da estrutura do pensamento de Platão, porem faz falta uma pequena correção.

sombrasEm realidade, o que autor diz que se “junta” com o “Princípio Material” são as Imagens das Formas (razão pela qual chamamos o Sensível de Imagem).
Nessa linha, podemos dizer que esse “Princípio Material” funciona como um “receptáculo” para essas Imagens, de modo que sempre que vemos algo no mundo físico se trata de “Matéria moldada” segundo determinada Imagem.
O que acontece é que, para ser capaz de receber toda e qualquer Imagem das Formas, o “Princípio Material” deve ser absolutamente Indeterminado (algo que, tal como Ilimitado, tem a ver com a Díade).
Nesse sentido, dizemos que se trata de uma “Matéria” totalmente amorfa (privada de forma) e que nunca abandona essa natureza, ou seja, que mesmo que possa ser “modelada” segundo várias Imagens, nunca as assume a ponto de identificar-se definitivamente com elas.
Isso ainda vai supor que não podemos falar de um aceso empírico a esse princípio, afinal, é impossível ter experiência de algo totalmente amorfo, ou seja, privado de toda e qualquer determinação das Imagens (essa última afirmação fica mais clara quando estudamos a Teoria do Conhecimento).
Mas enfim…

Essa radical ausência de limites e determinações que caracteriza o “Princípio Material” pode ser também entendida como total ausência de ordem, algo que o próprio autor indica no Timeu.
Para ele, antes de receber as Imagens, o “Princípio Material” seria como um grande conjunto de forças e afeiçoes totalmente desconectados (sem qualquer ordem ou equilíbrio) e dotado de um movimento totalmente desprovido de finalidade, isto é, sem uma Inteligência que o conduza para determinado fim.
Nesse sentido, o movimento do “Princípio Material” é regido pela anagké (ἀνάγκη) ou “necessidade” (que no contexto dos gregos antigos parece significar justamente uma ausência de finalidade), ou seja, por algo que atua de modo anômalo e ao acaso como uma “Causa Errante”.
O mais interessante, todavia, é o fato de que muitos especialistas insistem na identificação do “Princípio Material” com a noção platônica de “espaço”, que em grego se diz chora (χώρα).

vaca-no-espacoObviamente, para que não nos soe muito estranho essa afirmação, devemos entender bem que quando Platão fala de uma chora, não está se referindo ao espaço vazio (que se assemelha muito com o Nada),  mas a algo que é propriamente um gênero da realidade.
Desse modo, além dos outros dois gêneros que já conhecíamos, quer dizer, o Inteligível (que nesse contexto engloba também o matemático) e o Sensível, o filósofo acrescenta um terceiro que vamos chamar de Espacial (ou Espacialidade).
De fato, tudo que nasce e perece o faz em determinado lugar ou tópos (τόπος), de modo que falar de um Sensível (marcado justamente pela geração e corrupção) parece pedir que falemos também do Espacial que lhe proporciona localização ou, em grego, edra (εδρα).
Ao descrever essa Espacialidade em suas obras, uma das primeiras afirmações do autor é que deve ser algo que permaneça sempre sem nunca corromper-se (pois se desaparecesse o espaço, tudo que está nele sumiria junto).
Além disso, também afirma que não pode ser conhecido pelos sentidos, mas somente por um “raciocínio hipotético” (a palavra mesmo é “espúrio”, mas eu acho feia).
Ora, essas duas afirmações do autor sobre a Espacialidade mais o fato de que ele a entende como aquilo que da ao Sensível sua localização nos permite propor, pelo menos como algo razoável, a identificação entre Chora e “Princípio Material”.
Vejamos como…

Em primeiro lugar, a Espacialidade pode ser justamente pensada como um receptáculo para as imagens das Formas (tal como o “Princípio Material”), pois é na chora que as coisas nascem e perecem, ou seja, onde se “recebe” e se “perde” as imagens.
Se pensarmos em “ocupar determinado espaço” como “ter sensibilidade” a conclusão é que, tal como o “Princípio Material”, o Espacial é causa (ou condição) da materialidade e sensibilidade das coisas físicas.
Além disso, outra característica desse receptáculo das imagens das Formas é que, ainda podendo ser “modelado” segundo cada um delas, nunca se identifica com elas, a ponto de que, mesmo dada a corrupção da coisa (que entendemos como a perda da imagem), o que chamamos de “Matéria” permanece sem modificar-se em sua natureza amorfa.
Nesse sentido, se pensamos na Chora como aquilo que permanece sempre sem nunca corromper-se, vemos que se trata de uma característica que casa perfeitamente com o “Princípio Material” desenvolvido por Platão.
Por último, tal como a noção de Espaço do filósofo, o “Princípio Material” pelo próprio fato de ser amorfo, é totalmente incognoscível aos sentidos, ou seja, só pode ser conhecido por meio de um raciocínio hipotético.
Obviamente devemos dizer que tais semelhanças entre o Princípio Material de Platão e sua noção de Chora não nos proporcionam uma juízo conclusivo, porem, ainda que não possamos afirmar categoricamente a identificação de um com o outro, podemos dizer ao menos que se trata de uma proposta razoável.
A esses argumentos, podemos ainda acrescentar algo do testemunho indireto das Doutrinas não Escritas.
Afirma que a Espacialidade platônica tem muito que ver com a Díade Indefinida no sentido de ambas serem ilimitadas na dupla direção do grande e do pequeno (ou do mais e do menos).
Baseando-se nisso, Reale afirma que a noção de Espaço apresentada no Timeu representa o que seria a dimensão sensível da Díade Indefinida, mas isso é melhor explicar um pouco mais devagar…

Como vimos anteriormente, as 3 grandes esferas da realidade (Inteligível, Matemática e Sensível) supõe cada uma delas aqueles dois princípios, a saber, o Uno e seu princípio antitético, quer dizer, a Díade.
Se esse princípio antitético do Uno é no plano do Inteligível a causa da pluralidade e gradação hierárquica das Formas e no Matemático a causa da multiplicidade horizontal dos números (ambos temas que tratamos antes); podemos dizer que no Sensível funciona como causa da multiplicidade física, ou seja, da própria sensibilidade.
De fato, Aristóteles não só diz que Platão supõe um “Princípio Material”, mas também que contempla tanto uma “Matéria Inteligível” (que seria a Díade em relação ao Inteligível e ao Matemático) quanto uma “Matéria Sensível” (A Díade em relação ao Sensível).
Nesse sentido,  a Chora seria algo que “entra” na Díade, mas não a esgota, ou seja, ainda que não possamos entender toda a Díade como Espacialidade, podemos entender a Espacialidade como “parte” da Díade (e nesse sentido se entende quando Reale diz que a Chora é a dimensão sensível da Díade indefinida).

Antes então de seguirmos, vejamos um último dado das Doutrinas não Escritas sobre o Sensível que pode causar alguma confusão: o Uno é causa do Bem e a Díade do Mal (e isso nos diz Aristóteles).
No Teeteto, Platão afirma que “o mal não pode ter lugares entre os deuses”, ou seja, no plano Inteligível.
Isso já indica que, se a Díade pode ser entendida de alguma maneira como “causa do mal”, concretamente somente na esfera do Sensível.
imagens-divertidas-mais-alto-do-mundo-vs-mais-baixo-do-mundo-rd4rjhdkdb8.jpegApesar disso, de maneira um pouco mais abstrata, ela causa no Inteligível algo que pode ser entendido como mal, ainda que não em sentido próprio.
Basta termos um pouco de boa vontade e pensarmos nos pares de Formas contrárias onde uma delas se entende como uma Forma “negativa” em relação a outra.
Sendo a Díade o princípio de diferença entre uma forma “positiva” e outra “negativa”, la pode sim, nesse caso, ser considerada como causa do “mal” na esfera do Inteligível.
[Apesar, contudo, de toda essas explicação, penso que o melhor mesmo seria simplesmente não considerar muito essa hipótese e simplesmente entender o testemunho de Aristóteles como referido somente à Díade no Sensível, ou seja, enquanto “Princípio Material”]
O próprio autor, quando diz que o mal não tem lugar no Inteligível, afirmar em contrapartida que, pelo própria natureza perecível do Sensível, é impossível que esteja livre dos males (algo que também está no Teeteto).
Parece que, para Platão, não é absurdo que, talvez pelo fato de que o Uno não possui total domínio sobre o “Princípio Material”, mesmo depois de receber a determinação das imagens das Formas, siga existindo nele alguma desordem ou desmesura.
Seria então justamente isso que permitiria algumas consequências negativas (sempre ligadas ao Sensível) como por exemplo a insuficiência gnosiológica (o fato de que do Sensível não se alcança verdade, mas somente opinião) ou a caducidade ontológica (que aí as coisas não são Ser, mas somente Vir a Ser).
E depois de ter dito tudo isso, passemos para a segunda parte de nossa tese geral…

b)”do Inteligível produzida pelo Demiurgo”:
Talvez, a primeira coisa que chame atenção aqui, seja onde dividimos a sentença.
De fato, seria gramaticalmente mais comum deixar “imagem” e “do Inteligível” juntos, afinal, possuem uma relação gramatical que faz com que o segundo não tenha sentido separado do primeiro.
Apesar disso, essa divisão tem uma função didática que mais pra frente explicaremos melhor.
De modo geral, essa parte da sentença original indica algo que já falamos antes, quer dizer, que o Demiurgo produz as coisas tendo como modelo o Eterno e imutável (Inteligível).
Sendo assim, tentaremos agora entender um pouco mais sobre esse Demiurgo e em que consiste esse produzir as coisas segundo o Inteligível.
Demiurgo.jpgA primeira precaução que devemos ter nessa parte do texto é a de não pensar no Demiurgo de maneira antropomórfica, isto é, como se fosse uma entidade cósmica com características humanas tipo os deuses gregos.
Ainda que muitas vezes Platão o retrate assim, não devemos esquecer o que já dissemos em textos anteriores sobre o uso de imagens e mitos nos escritos platônicos.
Para evitar esse problema, simplesmente deixaremos entre aspas algumas palavras que possam levar a essa antropomorfização ou personalização.
No Timeu, a característica mais importante do Artífice é a de ser o bom em sumo grau, ou seja, o ótimo.
Platão entende que ele é o que melhor realiza o bem, isto é, que o realiza em sumo grau.
Para entendermos essa afirmação, devemos ter em mente que, para o gênio grego, o mundo não só é algo belo, mas a coisa mais bela que existe, o que leva a concluir que “quem” produz o cosmos deve necessariamente ser o melhor dos Artífices justamente por produzir a mais bela das coisas.
Além disso, Platão ainda diz que o Demiurgo não pode ser “invejoso”, pois se o fosse não seria o ótimo, de maneira que “deseja” que todas as coisas sejam boas.
Justamente isso é o que o leva a atuar como uma Inteligência ordenadora (mais ou menos como já havia proposto Anaxágoras) colocando ordem naquele feixe primordial de agitações caóticas que havíamos identificado com o “Princípio Material”.
Podemos então observar que, dentro do pensamento de Platão, isso de ordenar o desordenado é a mesma coisa que atuar o Bem em sumo grau.
Nesse sentido, toda operação do Demiurgo se dá segundo a próprio Forma do Bem que Platão, em textos anteriores, parece ter identificado com o Uno.
[De fato, Reale traz em sua obra uma série de exemplos pelo qual o Uno pode ser dito como a Marca Emblemática do agir do Demiurgo, porem não me parece que, para o que queremos aqui, seja necessário trazer esses exemplos]
Em resumo, dizer que o Demiurgo “produz”, pode ser entendido como “realiza a unidade (o Bem) na multiplicidade (Matéria)”.
Pois bem…

Agora que já sabemos um pouco mais sobre o Demiurgo e em que consiste seu ato de produzir, resta entendermos de que maneira ele leva o Uno ao múltiplo.
Aqui será então onde entrarão as Formas e suas Imagens…
Quando dizemos que elas são modelos, não podemos imaginar que ele está literalmente olhando pra elas e fazendo um desenho no estilo de Jack e Rose em Titanic, afinal, esse seria aquela antropomorfização inadequada sobre a qual já alertamos.
Apesar disso, esse tipo de analogia é bastante útil se tivermos o devido cuidado de não misturar as coisas…
Digamos que determinado artista deseja pintar um quadro do Cristo Redentor.
Como seria muito difícil encontrar uma tela de pintura de X metros de altura e Y de largura, ele terá que se contentar em reproduzir aquela imagem em algo uma tela um pouco menor, de modo que não será um desenho do mesmo tamanho do original, mas muito menor.
Ora, apesar de todos sabermos que o Cristo Redentor é grande e não pequeno, não teríamos nenhum problema em reconhecer que aquela imagem, ainda que muito menor que o monumento original, é realmente uma imagem dele.
O motivo pelo qual somos capazes de reconhecer um grande monumento num pequeno quadro é o fato de que o artista soube reproduzir na imagem as proporções matemáticas do modelo.
christ-the-redeemer-made-of-green-bubbles_23-2147493443Em outras palavras, ele percebeu, por exemplo, que o tronco do Cristo Redentor é tantas vezes maior que sua cabeça, de modo que se ele respeita essa proporção que existe entre essas duas partes do corpo do monumento, ele pode o reproduzir no tamanho que quiser.
Incluso podemos dizer que, em alguns casos, basta respeitar essas proporções para que o modelo possa a ser reconhecido na imagem.
Em Platão, podemos dizer que o Demiurgo realiza algo parecido com as Formas.
Como apresentamos anteriormente, o autor entende que as Formas possuem uma estrutura metafísico-numérica que é reproduzida pelos seres matemáticos intermédios.
A partir então dessa estrutura metafísico-numérica, o Demiurgo tira um logoi, quer dizer, algo como relação numérica ou simplesmente uma medida.
Isso funcionará analogamente à proporção que no Cristo Redentor existe entre cabeça e tronco e que o artista deve respeitar na hora de fazer sua pintura.
A parti então dessa relação numérica, o Artífice introduz ordem e proporção (limites e determinações) no “Princípio Material” (ilimitado e determinado), de modo que tal como se pode ver o Cristo Redentor em sua pintura, também se percebe algo do Inteligível realizado no Sensível.
Se tratando então apenas de uma medida, é possível que seja utilizada em várias “porções” do “Princípio Material”, de modo que a Forma Inteligível que forneceu a relação numérica, e que é em si mesmo una, poderá ser reconhecida em muitas realidades sensíveis.
Basicamente, a ação do Demiurgo consiste em levar o Uno aos muitos por intermédio dos logoi e produzir um Ser gerado que realize sensivelmente da melhor maneira possível o Ser não gerado.
Eu imagino, contudo, que para quem está um pouco menos familiarizado com a filosofia possa ter ficado um pouco confuso, afinal, a necessidade de abstração para entender essas coisas faz desse um tema um pouco salgado.
Sendo assim, vou colocar alguns exemplo que possam ajudar vocês a entenderem isso de “realizar sensivelmente da melhor maneira possível o Inteligível”…

I) O Tempo:
Um exemplo bastante interessante é o que Platão fala sobre o Tempo, algo bastante típico ao plano Sensível, porem totalmente estranho ao inteligível.
Sendo então algo produzido pelo Demiurgo, deve ser algo que “realiza sensivelmente da melhor maneira possível o Inteligível” que lhe serve de modelo.
Não faz falta muito esforço para concluir que se existe algo típico do Inteligível que pareça ter que ver com o Tempo será justamente o que chamamos de Eternidade (de fato, se alguém se interessa um pouco pela noção de Tempo na filosofia, logo descobrirá que é quase impossível falar dela sem também trabalhar a ideia de Eterno).
Será também no Timeu que encontraremos a doutrina de Platão sobre o assunto e, resumindo muito, ele diz aqui que a Eternidade é um “permanecer na unidade”.
Tempo.jpgSendo então o Tempo uma imagem produzida pelo Demiurgo a partir da Forma do Eterno, temos que ele é criado de modo que, dentro dos limites do Sensível, possa imitar o “permanecer na unidade” do Eterno Inteligível.
Em outras palavras (as de Platão para ser mais exato) o Demiurgo produz uma imagem móvel da Eternidade, ou seja, um “fluir do Eterno”.
Isso se dará justamente por meio da mediação dos logoi, de maneira que temos o fluir do “permanecer na unidade” segundo um ritmo numérico e cíclico.
Se trata então de um movimento todo determinado pelos números (algo que incluso já está proposto pelo movimento pitagórico, ainda que sem todos os matizes metafísicos de Platão) do qual nasce o “era” e o “será”.
Isso significa então que “era” e “será” só podem fazer referência às realidades sensíveis, pois às inteligíveis somente se refere o “é”.

Elements.jpgII) Os elementos:
Outro exemplo bastante interessante é a doutrina de Platão sobre a criação dos elementos.
Como vimos anteriormente, o autor critica a Anaxágoras por, apesar de já apresentar a noção de “Causa Inteligente”, não saber muito bem como desenvolve-la e acabar atribuindo aos Elementos (Água, Fogo, Ar e Terra) o papel de causas do mundo físico.
Para o filósofo, esses elementos não poderiam ser eles mesmo os Princípios geradores da realidade, mas apenas condições para a constituição da mesma.
Isso quer dizer que os elementos devem ter sio produzidos pelo Demiurgo e, uma vez criados, utilizados no reto do processo de produção do cosmos.
Ao fim, o autor deve dar conta de explicar a maneira pela qual o Demiurgo produzirá esses elementos.
A primeira coisa que estabelece é que, antes da ação do Demiurgo, estes elementos estavam totalmente desordenados no que já chamamos de “Princípio Material”.
Para então produzi-los, o Artífice e começa a estabelecer ordem mediante determinações e limites segundo uma medida numérica.
E agora que a coisa fica interessante, pois Platão diz que o modelo utilizado pelo Demiurgo foram as duas “formas mais belas” de triângulos:
-Triângulo Isósceles Reto
-Triângulo Equilátero*
[*Na verdade, o autor fala do tipo de Triângulo que se consegue ou dividindo o Equilátero em dois  ou dividindo e seis partes iguais (isso se faz traçando linhas perpendiculares em relação a cada um dos lados do do triângulo a partir do vértice oposto de cada um deles), mas como no fim das contas, ao longo da explicação, o autor vai chegar ao equilátero, penso que a coisa fica mais simples se simplesmente já partirmos dele]
Vejamos cada um dos elementos:
a) Água:
-com a estrutura de 4 triângulos isósceles retos, é possível formar um quadrado;
-com seis quadrados se forma um cubo;
-esse cubo será a “estrutura atômica” do Elemento Água.
b) Fogo:
-com 4 triângulos equiláteros se pode formar uma pirâmide triangular (ou tetraedro);
-esse tetraedro será a “estrutura atômica” do Elemento Fogo.
c) Terra
-com 8 triângulos equiláteros se pode formar um octaedro;
-esse octaedro será a “estrutura atômica” do Elemento Terra.
d) Ar
-com 20 triângulos equiláteros se pode formar um icosaedro;
-esse icosaedro será a “estrutura atómica” do Elemento Ar.
Ora, cada uma dessas partículas não são visíveis na natureza, mas quando se juntam em grande quantidade se tornam sensíveis.
Podemos duvidar, contudo, que Platão pretenda estar falando de modo literal, quer dizer, parece que o autor apenas quer mostrar a seus ouvintes que a racionalidade dos corpos sensíveis (que muito por conta dos pré socráticos estava ligada a mistura e relação desses Elementos) depende diretamente da estrutura matemática que possuem que, por sua vez, é fruto da ação inteligente do Demiurgo.
Em outras palavras, as estruturas geométricas são realidade matemáticas puramente inteligíveis que, ao serem aplicadas inteligentemente ao “Princípio Material”, dão origem aos corpos que vemos.

Ao fim, vemos que, para Platão, a ação do Demiurgo se reduz a basicamente levar, em todas as coisas, ordem à desordem a partir de proporções e relações numéricas e geométricas.
Isso, não outra coisa, é levar o Uno aos múltiplos da melhor maneira possível.
Ao fim, se tivermos prestado atenção, perceberemos que já está em Platão (pelo menos no que diz respeito a sua cosmologia) algo que tradicionalmente somente se atribui a Aristóteles, quer dizer, as 4 causas.
Em algumas semanas, quando estudarmos Aristóteles, isso vai ficar mais claro.
Entretanto, se você já teve a oportunidade de estudar algo de filosofia, fica o desafio de ler novamente o texto e descobrir onde estão as 4 causas, a saber: Material, Formal, Eficiente e Final.”

De fato, muito mais se poderia falar sobre a cosmologia do autor, porem começaríamos a aprofundar num tema que talvez não chegasse nunca ao fim.
Assim, damos por terminada essa parte de nosso estudo, ainda que sem nos fecharnos para a possibilidade de um posterior desenvolvimento segundo nossas possibilidades.”

Texto de José Guilherme Carvalho de Souza, Bacharel em Filosofia pela PUC-RJ

Caso você tenha alguma dúvida, crítica, pedido ou sugestão, entre em contato pelo email areafilosofica@gmail.com
Na medida do possível vamos tentar responder a cada um.
Até semana que vem e estudem com moderação!!!

 

Bibliografia:
-REALE, Giovanni. Platão: historia da filosofia grega e romana. São Paulo: Edições Loyola, v. III, 1993

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