Platão – Teoria do Conhecimento

“Hoje falaremos de um dos temas mais interessantes do pensamento Platão, sua teoria do conhecimento.
Nesse post veremos uma das mais conhecidas doutrinas do autor, a Teoria da Reminiscência ou Anamnese.
De entrada, o contexto para falar desse tema parecem ser as críticas feitas ao  exame socrático (para saber que é esse exame, basta ler esse post).
Nossa maior dificuldade talvez seja o fato de que, como a maior parte dos temas platônicos, não existe uma exposição ordenada sobre o assunto, pois vai apresentando sua teoria do conhecimento ao longo de várias de suas obras.
Para então facilitar nossa vida, vamos olhar apenas para três obras em concreto: o Mênon, o Fédon e a República.
Nos dois primeiros veremos a Teoria de Reminiscência em algo como dois versões distintas e no último nos centraremos na chamada dialética platônica.
Vamos começar…

Mênon, um dos diálogo de Platão que não sabemos exatamente se foi escrito antes ou depois de sua primeira viagem à Italia (na qual conhece os pitagoricos), vemos algo bastante incomum em relação ao demais diálogos que pensamos ser mais ou menos da mesma época.
Sócrates aparecerá debatendo não sobre um virtude em particular, mas sobre a própria noção de virtude.
Seu adversário, que dá o nome ao diálogo, é discípulo de Gorgias, um dos grandes sofistas da época.
Como vocês devem lembrar (caso não lembrem a podem ver aqui), Gorgias argumentava basicamente o seguinte:
-Nada é;
-Mesmo que algo fosse, os homens não seriam capazes de compreender;
-Mesmo que algo fosse compreensível, não poderia ser expresso ou comunicado a outrem.
Em resumo, ele inviabilizava totalmente a possibilidade de um conhecimento objetivamente verdadeiro.
Tal tendência, ainda que de forma um pouco mais branda, aparecerá no discurso de seu discípulo.
Na primeira parte do diálogo, Sócrates e Mênon discutem sobre a possibilidade da virtude ser ensinada.
Ménon, tentando defender que é impossível ensinar a virtude, tem todos seus argumentos refutados e é levado a cair em aporia.
SocratesEm esse momento, ele insulta a Sócrates o comprando com um tipo de animal que possui um poderosos veneno que era capaz de paralisar suas vítimas (além disso, também pretendia dizer que Sócrates tinha a cara achatada e feia, o que não deixa de ser verdade).
Diz que discutir com ele é um grande perda de tempo uma vez que a única coisa que Sócrates faz é levar a todos que se aproximam dele à aporia, quer dizer, paralisa seus discursos tal como faz a raia com suas vítimas.
O filósofo, por sua vez, responde simplesmente que as aporias não são o fim que busca em sua investigação, mas somente um indicador de que é necessário começar um nova busca pela verdade.
Em outras palavras, chegar num beco sem saída durante um investigação filosófica significa apenas que é preciso voltar alguns passos para descobrir onde se pode haver equivocado para então tomar outro caminho.
Sendo assim, Sócrates o convida para retomar a discussão e descobrir maneiras de superar a aporia.
Mênon, talvez por não querer seguir com a investigação socrática (que de fato não era para qualquer um), tenta escapar com o que chamaríamos de um argumento erístico…
[Erístico vem de erística, algo como a “arte de vencer discussões”]
…dando a entender que é inútil seguir buscando conhecer o que é a virtude, pois ao fim não se chegaria a lugar nenhum (e aqui começamos a ver a influência de Gorgias sobre a impossibilidade de um conhecimento verdadeiro sobre algo).
Seu argumento é mais ou menos assim:
-buscar conhecer o que já se conhece é inútil, pois uma vez que já conhecemos não há porque buscar.
-buscar conhecer o que se ignora é inútil, pois uma vez que não conhecemos a coisa, caso a encontremos, não seremos capazes de reconhecer e será como se não a tivéssemos encontrado.
Em poucas palavras, se trata de uma crítica ao método socrático de investigação que está supondo que, mesmo existindo a verdade, não há um critério pelo qual a possamos reconhecer (e isso podemos entender como um desdobramento do segundo ponto da argumentação de Górgias: “mesmo que algo fosse, os homens não seria capazes de compreender).

XiforimpolaPara entender isso, imagine se eu peço que você entre num quarto e me traga uma “xiforimpola”. Caso você não saiba que raios é isso, pode ter uma bem na sua frente que ainda assim você não será capaz de identificá-la. Dessa forma, duas coisas podem acontecer: ou você ficará lá para sempre tentando descobrir qual dos objetos do quarto é a “xiforimpola”; ou pensará que ela é algum dos outros objetos e trará a coisa errada.
No caso da investigação socrática, algo análogo ocorreria: ou você entra num processo infinito de investigação (teses e críticas) sem nunca alcançar a verdade desejada; ou chega a uma tese que ninguém e capaz de criticar e, mesmo que não seja verdadeira, acabar sendo tida como tal sem o ser.
No fim das contas, o desafio que Sócrates deverá superar é justamente o de apresentar ao seu adversário um critério que permita o reconhecimento da verdade uma vez alcançada.
Isso será o que tradicionalmente chamamos de Teoria da Reminiscência ou anamnese.
Vejamos como como o autor desenvolve isso…

Sendo Mênon um tipo de homem bastante impressionável, Sócrates começa sua resposta dizendo que havia escutado “sábios em coisas divinas” falando de algo que teria que ver com o tema.
De certa maneira, o que o filósofo está fazendo é utilizar um argumento de autoridade.
Apesar disso, tal insinuação é o suficiente para atiçar a curiosidade de Mênon e ele rapidamente demostra interesse em saber que haviam dito os “sábios em coisas divinas”.
Sócrates então diz que sacerdotes e sacerdotisas, poetas e sábios, anunciavam que alma era imortal e que, quando o corpo morria, encarnava (transmigrava) em outro ser.
A partir desse dado, da transmigração das almas, o filósofo segue…

Kuririn.jpgUma alma que já se encarnou muitas vezes, necessariamente já teve a oportunidade de ver de quase tudo nesse mundo.
O problema é que mediante a encarnação, quer dizer, a união com um corpo, ela acaba esquecendo aquilo que havia conhecido.
Isso não quer dizer que ela deixou de saber, mas apenas que o conhecimento está como que dormido dentro dela.
Baseado nisso, Sócrates diz que aprender ou conhecer não é mais do que o ato da alma de recordar-se daquilo que ela já conhecia, mas que havia esquecido.
Nessa linha, o exame socrático é apresentado como o melhor dos métodos para ajudar a alma a lembrar dessas verdades que já possui dentro de si.
Poderíamos dizer que, quando o homem se depara com uma tese verdadeira, seria como se uma lâmpada fosse acendida em sua alma de modo que ela percebe imediatamente que aquilo que tem ante seus sentidos está de acordo com o conhecimento que desde sempre possuía em si mesma.
Sendo assim, ante a verdade, o critério que permite o sujeito reconhecê-la é justamente a anamnese, quer dizer, a intuição da alma ante a verdade que já possui.

De fato, a resposta não parece muito satisfatória, pois aqui caberia a pergunta sobre o que seria então essa “intuição da alma”.
Isso não é, contudo, um problema, pois como já dissemos antes, o pensamento de Platão nunca aparece tal e qual sistematizado em um obra, mas sendo sempre apresentado e reapresentado ao longo de toda sua atividade literária (sem contar a questão das doutrinas não escritas).
Ao fim, parece que o ponto que o autor quer atingir no Mênon é o de que o exame socrático não é um busca inútil ou infindável, mas algo ao qual vale a pena submeter-se uma vez que se bem conduzido é capaz de chegar à reminiscência.
Sócrates então provará sua tese propondo um diálogo com um dos escravos de Mênon para tentar extrair dele algumas verdades geométricas a partir de uns simples princípios matemáticos.
Se trata de uma experiência bastante interessante que creio que vale a pena ser lida diretamente na obra do autor.

Reencarnación.jpgPor conta dessa teoria, alguns vão entender que Platão está fundamentando racionalmente a reencarnação ou que, pelo menos, ele mesmo é reencarnacionista.
Tal ideia, ainda que não seja impossível, parece improvável, pois em nenhuma parte da obra podemos ver Platão argumentando sobre isso, mas sim partindo da transmigração das almas (que pode ser entendida como reencarnação) como uma doutrina ensinada por homens e mulheres “sábios em coisas divinas”.
Como já vimos antes, é muito comum dentro de sua atividade literária o uso da linguagem mítica para transmitir um conhecimento que seus interlocutores talvez não fossem capaz de captar somente no plano intelectual.
Tanto é assim, que um pouco depois o autor vai buscar fundamentar a anamnese no processo dialético feito ao escravo, ou seja, sem apelar à linguagem mítica.
Ademais, o próprio Sócrates ao fim desse discurso explica que o que lhe importava em todo esse argumento era mostrar a validade de seu método, de modo que “sobre outros ponto da argumentação” (talvez justamente o mito apresentado), diz que não possui muita convicção.
Claro que, como já foi dito, pensar em Platão como um reencarnacionista que defende tal postura filosoficamente não é impossível, porem, no seguinte diálogo em que a doutrina da reminiscência aparece, já não se fala de reencarnação, mas somente de preexistência das almas.
Se trata do Fédon

Esse diálogo já apareceu quando tratamos sobre a Metafísica platônica.
Se passa durante os últimos minutos de vidas de Sócrates quando seus discípulos vão estar com ele.
Para os consolar, o filósofo começa a falar sobre a alma e sua situação depois da morte.
É um texto muito bonito onde se percebe o tipo de sujeito que Sócrates era.
Desenvolveremos um pouco essa questão das almas quando passarmos pela psicologia platônica, porem, deixo desde já a sugestão de leitura.
No que diz respeito a Teoria da Reminiscência, temos que ela aparece em um dos argumentos que Sócrates utiliza para demonstrar a imortalidade da alma.
Enquanto Sócrates falava sobre o tema, um de seus discípulos chamado Cebes se lembra de que ele costumava falar em diversas ocasiões que conhecer não era nada mais que recordar-se de algo que se havia esquecido.
Essa é mais ou menos a deixa para que Sócrates comece a explicar a anamnese.
Tentaremos reproduzir o argumento de maneira um pouco mais simples que na obra original…

Parece que alguns ds conhecimentos que temos não são exatamente conformes os dados que recebemos dos sentidos.
Se olhamos para uma bola de futebol, imediatamente percebemos que ela é bastante parecida com o que em geometria chamamos de esfera.
Ainda que muitos outros objetos sensíveis possam ser comparadas com uma esfera (laranja, globo etc.), nenhum deles pode ser chamado estritamente de esfera tal como essa noção é explicada na geometria.
Em outras palavras, possuímos a noção de uma Esfera Perfeita que não encontramos em nenhum dos objetos sensíveis que conhecemos.
Isso passa também com outras realidade como, por exemplo, a Igualdade.
Não temos experiência de objetos perfeitamente iguais, porem possuímos essa ideia.
Parece então que existe um desnível entre os dados da experiência e algumas noções que possuímos: os sentidos dão conhecimentos imperfeitos, mas nossa mente encontra ideias perfeitas correspondentes.Efera pefeita?.jpg
Se conclui então que alguns dos conceitos que possuímos não chegam até nossa mente por meio dos sentidos, ou seja, já estão nela antes mesmo de termos experiências sensoriais.
Como nossos sentidos começam a funcionar no mesmo instante que nascemos, devemos supor que antes de nascer a nossa alma já deveria ter alcançado esse conhecimento pré sensorial.
O importante desse diálogo é que, diferente do Mênon, já temos certeza de que Platão conta com sua Teoria das Formas, de modo que o conhecimento que nossa alma possui antes do nosso nascimento é justamente o conhecimento das Formas.
A ideia que possuímos de Esfera Perfeita ou de Igualdade não é nada mais que a Forma de Esfera e a Forma de Igualdade.
Sócrates então explica que as almas possuem uma existência anterior a sua união com o corpo durante a qual têm a possibilidade de contemplar as coisas em si, ou seja, as Formas.
[Nesse momento, vemos que o autor não mais apela à reencarnação, pois não se trata mais de viver um serie de vidas, mas sim de um contato original com o Inteligível antes da união da alma com o corpo.
Isso será então reiterado no Fedro e no Timeu e, nesse último, Platão diz que é o Demiurgo quem mostra para as almas a verdade originária (as Formas) da qual ela se esquece em sua encarnação.
Obviamente não estou dizendo que é impossível que Platão tenha sido reencarnacionista, mas sim que é improvável uma vez que quando aparece em algum de seus diálogos costuma estar em um contexto mitológico (além do fato de que no Mênon ele da a entender que não possui muita convicção nesses mitos)]
Sócrates faz ainda uma última observação que nos será então bastante útil!!!
Diz que o conhecimento (ou recordo) das coisas em si, ainda que não seja algo dado pelos sentidos, só é possível partindo deles.
Somente a partir dos dados imperfeitos dos sentidos que se pode acessar as Formas Inteligíveis perfeitas.
Isso que dizer que não podemos pensar na reminiscência como num processo espontâneo onde, sem mais, o sujeito “se lembra” do conhecimento original que teve sua alma antes de juntar-se ao corpo, mas de um caminho que começa no Sensível e termina no Inteligível.

Ainda que o Fédon e o Mênon não sejam os únicos diálogos onde aparece esse tema, creio que já tocamos nos pontos mais importantes.
Passaremos então à segunda parte desse texto, isto é, à Dialética Platônica.

Tradicionalmente, a República é a obra de Platão na qual o autor desenvolve sua teoria política que veremos no seguinte texto.
Não vamos falar agora sobre o contexto da obra, mas simplesmente no fixaremos no Livro VI onde o autor apresenta o que chamamos de Teoria da Linha Dividida.
Ela aparece imediatamente depois do famosos Mito da Caverna e pretende explicar os estágios do conhecimento.
Vimos um pouco sobre isso quando tenteávamos fixar o lugar do Sensível na realidade.
Se você não lembra (até porque já faz praticamente um mês que eu não posto texto), Parmenides dizia que o vir-a-Ser (Sensível) era o Nada absoluto e sobre ele somente era possível opinião.
Platão, por sua vez, defendia que essa visão estava equivocada uma vez que do Nada Absoluto não seria possível nem mesmo a opinião, mas somente a absoluta ignorância.
Ao fim, a opinião, que ambos autores concordavam ser possível dar sobre o Sensível, indica que ele não é totalmente privado da marca do Ser.
Mas enfim, só mesmo pra lembrar…

Se olhamos ao livro anterior, o de número V, vemos a Platão tentando explicar quem é o verdadeiro filósofo…
[Para o autor, “filósofo” é um das funções necessárias numa polis ideal, isso, contudo, veremos melhor em outro texto]
…e faz isso separando em dois grupos distintos aqueles que estão voltados somente para as coisas belas dos que são capaz de compreender e amar o Belo em si.
Somente estes últimos podem ser verdadeiramente chamados de filósofos.
O primeiro grupo é composto dos que estão no nível apenas do conhecimento Sensível, quer dizer, que somente alcançam a opinião ou doxa (δόξα).
Já o segundo é o grupo dos filósofos, os que são capazes de se aproximarem do Inteligível e, por conta disso, possuem a ciência (conhecimento verdadeiro) ou episteme (ἐπιστήμη).
Essa diferença entre doxa e episteme tem como plano de fundo o princípio de que o conhecimento é proporcional ao ser, ou seja, de que quanto mais plenamente algo é, mas perfeito será o conhecimento daquilo.
Isso quer dizer que o conhecimento que alguém pode alcançar do Inteligível é mais perfeito que o conhecimento que se pode alcançar do Sensível, ainda que o conhecimento desse seja mais fácil de se alcançar (pois bastam os sentidos).
[Isso do Inteligível ser de modo mais pleno que o Sensível é algo que já explicamos aqui]
Existem algumas diferenças entre o conhecimento do Sensível e do Inteligível, porem ficaremos com fato de que a opinião (referente ao primeiro) não está racionalmente fundamentada tal como a ciência (referente ao segundo).
Devemos ainda ter o cuidado de não entender a palavra “ciência” da mesma maneira que utilizamos hoje em dia, pois para Platão é simplesmente o conhecimento fundamentado ou o domínio das causas [algo mais ou menos como a diferença socrática entre Ciência e Experiência, algo que pode ser lido aqui].
Isso ainda está de acordo com a atividade filosófica de Sócrates  que buscava justamente, por meio de seu exame, descobrir se os ditos “sábios” eram capazes de fundamentar aquilo que diziam conhecer.
Também falamos da crise de valores da sociedade grega da época de Sócrates e Platão que, por conta da atividade sofística (que não está limitada aos autores tratados anteriormente), não era mais capaz de preservar os valores que havia recebido pela tradição.
Na própria República, como veremos no seguinte textos, tudo está girando entorno de um problemática sobre se a justiça é realmente boa e bela, algo que é fortemente proclamado pela tradição, mas posto em prova pelos novos oradores.

Voltando então à Linha Dividida, temos a Sócrates propondo que se imagine um linha e se a divida em duas partes: a primeira diz respeito ao Sensível e a segunda ao Inteligível.
Cada um dessas partes se deve ser novamente dividida segundo o grau de clareza com que se pode conhecer as realidades de cada uma delas
Basicamente, o autor está propondo que existem graus distintos de doxa e episteme.
Vejamos essa divisão:
a) a parte Sensível:
-no primeiro nível estão as imagens sensíveis, Sócrates as apresenta como as sombras ou reflexos dos objetos físicos.
Aqui, é possível o que chamamos de eicasía (εἰκασία) ou imaginação.
-no segundo nível estão os próprios objetos, quer dizer, as coisas do mundo físico que as imagens “tentam imitar”.
Aqui, é possível o que chamamos de pístis (πίστις) ou crença.
b) a parte Inteligível:
-no primeiro nível estão os objetos matemáticos, quer dizer, os princípios geométricos e aritméticos que, como já vimos muitas vezes, estão sempre em uma situação de intermediários entre o Sensível e o Inteligível.
Aqui, é possível o que chamamos de dianoia (διάνοια), ou conhecimento mediano.
-no segundo nível estão as Formas e, obviamente, a Forma do Bem.
Aqui, é possível o que chamamos de noesis (νόησις) ou pura intelecção.

Com isso, temos uma porção de termos gregos que, por mais importante sejam para estruturar nosso pensamento sobre o que dizia Platão sobre o conhecimento, podem ser encontrados (e talvez até melhor explicados) em qualquer wikipedia da vida.
Uma vez então apresentada essa estrutura, podemos entrar no que é a dialética platônica…

A dialética é um daqueles termos filosóficos que aparece em vários sentidos ao longo da história da filosofia, ou seja, não é possível simplesmente definir o que é a dialética a partir do que disse Platão, mas apenas dizer o que se entende por isso dentro de seu pensamento.
De maneira simples, podemos dizer que a dialética platônica é o caminho pelo qual o intelecto vai desde o conhecimento Sensível ao Inteligível, ou seja, da doxa à episteme ou dos objetos concretos às Formas.
Sendo o filósofo aquele que propriamente é capaz da pura intelecção (ultimo nível da episteme), podemos dizer que ele é o dialético por excelência.
Além disso, uma vez que já se está no plano de conhecimento noético, se pode falar de duas formas de proceder dialeticamente:
a) Dialética ascendente: o fim que pretende é a Forma do Bem.
Uma vez que o sujeito é conduzido ao Inteligível (às Formas), se dá lugar a um procedimento sinótico.
O termo “sinótico” tem que ver com sinopse, um palavra que eu acho que vocês podem estar mais acostumados.
Quando estamos escolhendo um filme para ver, costumamos buscar sus sinopse, pois no permite ter um visão geral do enredo.
Tanto “sinótico” quanto “sinopse” têm que ver com a palavra grega sinopses, que por sua vez é formada pela junção de outras duas palavras: sin e óptica.
Literalmente seria algo como “ver junto” ou “ver de uma só vez”.
Isso, aplicado aos filmes, não é mais do que “ver junto (de uma vez)” todo seu argumento que será desenvolvido ao longo do enredo.
Já no caso da filosofia platônica, se trata da tentativa do intelecto de abarcar toda a multiplicidade das Formas na unidade da Forma do Bem (que já vimos que pode ser identificada com o Uno).
b) Dialética descendente: é o que permite compreender aquela trama de relações numéricas que existem entre as Formas.
Já falamos bastante sobre o fato de que as Formas de Platão possuem uma trama numérica que deve ser compreendida, porem ainda não havíamos explicado como que isso era possível.
Pois bem…
Platão propõe um procedimento diarético, ou, de divisões.
Como as Formas não são realidades físicas que possam ser literalmente divididas, se trata de partir de Formas mais abrangentes para encontrar as Formas que estão logicamente contidas ou subordinas a elas, algo como ir do mais geral ao mais particular.
Um vez então que se alcança uma Forma tão particular que não pode ser dividida (não contêm nem subordina) em outras Formas, somos capazes de estabelecer seu lugar dentro hierarquia (trama numérica) do Inteligível.

Infelizmente, não há em nenhum diálogo de Platão uma exposição sistemática de sua dialética, mas somente umas poucas pistas.
De fato, parece que a explicação mais completa que temos é justamente aquela da República onde o autor mostra como se faz para alcançar a Forma de Bem (dialética ascendente).
Quanto a dialética descendente, o máximo que temos são algumas demonstrações parciais do nexo que existe entre uma poucas Formas.

Apesar desse problema de informações, há um dado muito interessante que Platão no apresenta ao final de seu discurso sobre a Linha Dividida.
Afirma que o dialética é aquele que é capaz de ir desde simples hipóteses ao fundamento primitivo das coisa que transcende todas as hipóteses.
Um pouco depois, no Livro VII, apresenta isso de modo mais claro ao dizer que o método dialético é aquele que rejeita as hipóteses e dirige-se ao Princípio que lhe permite consolidar todas suas conclusões.
O que queremos dizer aqui é que o grande fim da dialética platônica é encontrar o que podemos chamar de um Princípio não Hipotético…
[Eu jeu tentei escrever sobre isso em todos os anteriores textos sobre Platão, mas sempre tive medo de complicar de vez as coisas.
Agora, contudo, creio que já está na hora de tocarmos nesse ponto]
Princípio não Hipotético é o que poderíamos chamar de “princípio em sentido forte da palavra”, quer dizer, um princípio auto evidente que não precisa ser fundamentado por nenhum tipo de reflexão um vez que sua própria negação já soa como algo absurdo.
O pulo do gato aqui é a identificação desse Princípio não Hipotético com a Forma do Bem, pois (além de ser defendido por muitos autores) parece algo viável na medida em que os dois são ditos como o fim da dialética Platônica.
O interessante dessa identificação entre a Forma de Bem e o princípio não Hipotético é que a partir dela entendemos melhor o que poderia significar para Platão isso de “conhecer as Formas”.
No livro VI da República, o filósofo diz que o Bem é o que concede valor e utilidade a cada uma das virtudes, de modo que o Princípio não Hipotético que identificamos como o Bem deve ser também responsável por isso.
O que acontece é que, para Platão, parece que uma virtude somente é realmente útil e valorosa se pode ser fundamentada racionalmente, ou seja, sair do âmbito da doxa e ir ao da episteme.
Como o Princípio não Hipotético é auto evidente (sua negação é absurda), pode servir de fundamento para outras verdades que mantenham com ele alguma relação de dependência.
Em outro texto (esse aqui) dissemos que a Forma do Bem é a “Forma Suprema” que faz com que todas as coisas sejam inteligíveis, algo que também podemos entender como o princípio auto evidente que fundamenta todas as demais verdades que possam ser conhecidas.
Nesse sentido, o conhecimento das Formas nada mais é do que a compreensão de sua relação com o Princípio não Hipotético que, por sua vez, garante a verdade da coisa.

A coisa fica então interessante quando percebemos que tanto no Ménon quanto no Fedon a reminiscência conduz ao conhecimento das Formas…
[no Fédon isso fica bastante explicito quando Sócrates fala com seus discípulos sobre as “coisas em si”; já no Ménon é necessário supor que, durante o exame do escravo, este deverá ao menos rememorar as Formas do Igual, Maior e Menor, algo que se pode conferir na própria obra]
…algo que já sabemos que é o fim do processo dialético que aparece na República.
Nesse sentido, a reminiscência não é simplesmente uma intuição da alma ou um “recordar-se”, mas o cume de um processo dialético ascendente, quer dizer, o encontro com o princípio não hipotético capaz de fazer com que as opiniões se convertam em verdadeira ciência.
Isso quer dizer que talvez Platão não tenha apresentado em sua República algo que substitui ou entra em conflito com a Teoria da Reminiscência, mas somente a forma final (mais técnica e menos mítica) de sua única Teoria do Conhecimento.”

Texto de José Guilherme Carvalho de Souza, Bacharel em Filosofia pela PUC-RJ

Caso você tenha alguma dúvida, crítica, pedido ou sugestão, entre em contato pelo email areafilosofica@gmail.com
Na medida do possível vamos tentar responder a cada um.
Até semana que vem e estudem com moderação!!!

Bibliografia:
-MOTTA, Guilherme Domingues da. Há Teoria da Reminiscência na República de Platão? in Carvalho, M.; Cornelli, G.; Montenegro, M. A. Platão. Coleção XVI Encontro ANPOF. São Paulo: ANPOF, 2015, p. 175-186.
-REALE, Giovanni. Platão: historia da filosofia grega e romana. São Paulo: Edições Loyola, v. III, 1993

 

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